Domingo, 28 de Abril de 2013

Sinais dos tempos? O fim da Rota dos Alfarrabistas

Como os meus seguidores sabem, encontro-me de momento a ler a série "O Primeiro Homem de Roma", de Colleen McCullough. Infelizmente, a editora que publicava os livros (Difel) extingiu-se. Como só tinha adquirido o primeiro livro, encaro-me com o problema de ter de encontrar os restantes SEIS livros (sim, vai ser uma bela aventura).

Ora, onde poderia encontrar estes livros já raros? Onde poderia encontrar edições anteriores do livro, talvez usadas, já que é impossível encontrar em qualquer livraria? Alfarrabistas, claro.

Eu cresci em Lisboa e cresci com os livros. A Rota dos Alfarrabistas fez, a partir de certa idade, parte de mim como leitor e como pessoa. Desde o Carmo ao Chiado, passando pelas pequenas e velhas ruas de Lisboa (que ainda hoje vou descobrindo), apaixonei-me pelas casas que não são lojas, são verdadeiras livrarias. Podemos comprar livros numa Fnac, mas numa livraria entramos num mundo cujo sangue são as letras. Os alfarrabistas de Lisboa proporcionaram-me esse prazer.

À medida que fui crescendo não deixei de me embrenhar por Lisboa. Sozinho, acompanhado, a qualquer dia e a qualquer hora, encontrar-me-ão a tentar perder-me numa cidade que já conheço bem. Infelizmente, o prazer de entrar num alfarrabista torna-se cada vez mais raro.

Metade de grandes livrarias desapareceram, levando consigo o que são para nós, leitores, autênticos tesouros. A metade que ainda está activa mal se aguenta, com alguns já a anunciar o para breve encerramento. Fiquei chocado com o número de casas fechadas e ainda mais chocado com o número de livrarias anunciando o seu fim. A justificação é sempre a mesma. Talvez não possa criticar um senhorio por exigir uma renda em atraso... Mas parece que estas exigências calham sempre àqueles que mais necessitam de ajuda e menos têm a quem recorrer. De qualquer forma, dói ver as ruas de uma cidade perderem a sua personalidade. Porque os alfarrabistas também fazem parte do espírito de Lisboa.

Fico mais do que triste. Fico indignado. Não pelos livros que não consigo encontrar, mas pelos leitores que não terão a oportunidade de viver uma Rota que já fazia parte da cultura lisboeta. Sei que isto é um desabafo quase inútil... Mas não quis deixar de relembrar um caminho que certamente encantou muitos mais do que apenas eu. Parece que está na moda desprezar o passado e as lições que ele nos pode oferecer. Talvez um dia se volte a dar valor às palavras eternas numas páginas amareladas.

Sábado, 20 de Abril de 2013

"O Amor e o Poder", de Colleen McCullough

 É dia de Ano Novo de 110 a.C. e assiste-se à tomada de posse dos novos cônsules, ineptos representantes da aristocracia. Mas no meio da multidão encontram-se dois homens cuja coragem e poder de visão irão mudar por completo a República Romana, que se debate com problemas como a expansão territorial e o ressentimento crescente dos não-cidadãos.

Um destes homens é Mário, impossibilitado pelas suas origens humildes de tornar-se o
Primeiro Homem de Roma, aquele que, pela sua excelência, se eleva acima dos seus semelhantes. O outro é Sila, um belo e depravado membro da aristocracia, a quem a penúria impede de subir a Via da Honra, direito que lhe pertence devido às suas origens. Juntos pela guerra em terras distantes, combatem os seus inimigos romanos e os inimigos de Roma, pois ser o Primeiro Homem de Roma implica a mestria tanto política como militar. 


 
Cara Colleen, cheguei ao fim do primeiro volume da extensa obra "O Primeiro Homem de Roma", constituída por 7 livros, cada um com 800 ou mais páginas. Confesso que estava à espera de um teste-surpresa no fim do livro. Ainda só li o primeiro livro e tenho a certeza que sei mais de História Romana que um licenciado.

Era mesmo isto que eu andava a precisar: um romance histórico bruto. Já tenho tantas saudades de estudar História!


Para quem não entende nada sobre a República Romana, como eu, as primeiras páginas do livro custam um pouco a avançar. Algumas horas a estudar o glossário que está no fim do livro valem a pena (apesar de ainda recorrer à Wikipedia para alguns pormenores!). Uma vez adquiridas essas bases, 900 páginas passam a correr.

A civilização romana dividiu-se sobretudo em três épocas: a Monarquia (nos seus primórdios), a República e o Império. "O Primeiro Homem de Roma" debruça-se sobre os últimos anos da República. Com o aumento do território romano, os alicerces sob os quais a República foi construída revelavam-se incapazes de responder às necessidades de Roma, conduzindo fatalmente à sua extinção e à instauração de um Império. Colleen debruça-se sobre esses acontecimentos: a corrupção extrema entre os governantes do Senado e a emergência de personalidades que vieram abalar a forma como as coisas eram conduzidas.

Uma dessas pessoas era Caio Mário. De baixo nascimento mas extremamente rico, "O Amor e o Poder" dedica-se ao seu aparecimento e a sua luta em se tornar "O Primeiro Homem de Roma", a pessoa mais respeitada, temida e adorada de Roma.

É um romance cativante. Apesar do tamanho poder assustar, garanto que se revela uma leitura relativamente fluida. Raramente se torna aborrecido, fora as poucas ocasiões em que somos obrigados a percorrer a descrição crua do funcionamento político dos Romanos. Mas as duas coisas mais importantes estão lá: personagens que nos agarram (apesar de nunca sabermos muito bem por que devemos torcer) e uma exactidão histórica admirável (apesar de se dar ao luxo de romantizar um pouco as suas personagens, nunca se parece afastar da História tal qual se deu).

O maior problema é mesmo a sua escrita. Não que seja uma má escritora, apenas foi uma má abordagem. A escrita é demasiadamente descritiva. Demasiado mesmo. Ao ponto de até as cenas de acção não serem narradas, mas sim descritas. Parece-me que a própria Colleen deveria ter aprendido as subtilezas do discurso e da retórica Romana, capaz de encantar milhares.
Confesso que alturas houve em que não percebi mesmo o que se andava a passar. Sobretudo quando um tribuno da plebe (quando lerem saberão) propunha uma lei, era esta discutida no Senado e eventualmente aprovada. Várias vezes não percebi à primeira o que aquilo significava, e ler várias vezes não resolvia o assunto. O melhor era mesmo avançar com a leitura e perceber as consequências.

Preparem-se também para serem bombardeados de personagens. Algumas importantes, outras meras referências, não deixam de ser imensas as famílias romanas e para quem está interessado em absorver este livro pode tornar-se uma tarefa árdua. Nada que um pouco de concentração não resolva.

De qualquer forma, fiquei surpreendido com o quão viciado fiquei na leitura. Quando menos esperava, lá aparecia uma personagem nova para me chamar a atenção ou uma qualquer revolta para me fazer querer avançar páginas para saber como acabaria. E é assim página atrás de página, acompanhando a subida de Caio Mário como Primeiro Homem de Roma.
Por outro lado, quando nos apercebemos da dimensão da saga, percebemos que este livro não é mais do que o início da história (sim, 900 páginas de "introdução"). Estou ansioso por acompanhar o que aí virá.

Em geral, uma obra excelente. Acuidade histórica: máxima. Personagens: dificilmente seria possível sentir-me mais ligado a elas. Sim, cheira-me que se acabar de ler a série concluirei aquilo que parece ser a opinião popular, que é uma das melhores, se não a melhor, série histórica (pelo menos alusiva aos Romanos).

Mas ser a obra histórica mais completa ou desenvolvida não a torna a oitava maravilha.



P.S.: assim que acabei de ler o livro... Voltei a relê-lo. Ou seja, li este livro duas vezes seguidas. Porquê? Comecei a ler o segundo livro da série, "A Coroa de Erva", mas sabem aquela sensação de não fecharam ainda o livro anterior? Pois, é um sentimento esquisito, mas que me fez reler de novo "O Amor e o Poder", com mais atenção aos detalhes e às personagens mais secundárias. Só assim consegui, de consciência limpa, avançar na série.

Mais: anteriormente comprometi-me a ler a saga completa de "As Crónicas de Allaryia", de Filipe Faria. A metade de "Marés Negras", desisti. Aconteceu-me exactamente a mesma coisa que me aconteceu quando li o livro pela primeira vez: aborreci-me. Em vez de insistir, decidi dar um tempo até voltar a pegar nele.

Sábado, 12 de Janeiro de 2013

Publicação do terceiro livro da saga de Peter V. Brett, A Daylight War






 
Este é, sem sombra de dúvida, um dos livros que mais antecipo.

O Ciclo da Noite dos Demónios, The Demon Cycle, como esta série é conhecida, passa-se num mundo fantástico onde, de noite, demónios se erguem da terra para espalhar o caos e a morte. A única coisa que protege as pessoas são estranhas runas capazes de afastar esses demónios.

Arlen, um simples rapaz de campo, compromete-se a descobrir os segredos destes demónios e a derrotá-los, tornando-se O Homem Pintado (nome do primeiro livro). Com ele, juntam-se personagens como Leesha, uma rapariga experiente na arte das ervas, Rojen, um rapaz espirituoso com um dom único para a música, e Jardir, um líder que se auto-proclama o Libertador que, dita a profecia, será aquele capaz de derrotar os demónios, tornando-se rival do Homem Pintado. É sobre Jardir que o segundo livro, A Lança do Deserto, se debruça.

Esta é, com toda a certeza, uma das melhores séries fantásticas da actualidade. Adorei ler o primeiro livro e quando acabei o segundo livro senti uma ânsia como há já muito tempo não sentia em seguir para o próximo. Peter V. Brett criou uma história que nos agarra, que nos mete os pêlos em franja, que nos faz apaixonar. Há um nível muito pessoal que se atinge nesta leitura. Talvez porque as personagens estão tão bem apresentadas, talvez porque se baseiam em assuntos muito próximos dos sentimentos do "mundo real", é uma experiência incrível.

O mundo onde a história se passa parece-me relativamente simples, comparado com os mundos pensados até aos pêlos dos cães que em geral os livros fantásticos tentam oferecer. Mas não precisa de ser demasiado complicado, já que são as suas personagens e a sua luta que realmente importam. A história, que se prepara agora para se estender ao terceiro livro (estão planeados cinco ao todo), não é nenhum enredo como Crónicas de Gelo e Fogo de George R. R. Martin nos oferece, é de longe bem mais simples e fácil de seguir, mas prima na originalidade. Mais importante do que isso é a sua base, a sua origem. O Homem Pintado foi inspirado pelo medo, factor que infelizmente todos nós conhecemos demasiado bem actualmente, pelo que os Demónios da Noite surgem como a encarnação dessa sensação. A Lança do Deserto baseia-se em culturas opostas batalhando por encontrar um espaço comum (infelizmente, a nossa sociedade também conhece bem essa situação). Quanto a Daylight War, veremos. O autor fala-nos de um "livro sobre relações"; embora eu acredite que todos até agora o foram.

Aliás, o ponto forte nos livros é mesmo as suas personagens. Não há uma única personagem pela qual eu não me sinta fortemente ligado, emocionalmente ligado. Isto acontece porque Brett faz algo que a maioria dos escritores deixa para mais tarde: Brett conta a história das suas personagens desde o início da sua vida. Não há segredos, não estamos à espera de revelações do género "Eu sou o teu pai" com o avançar da história, porque nós conhecemos a vida inteira das personagens. Vemo-las crescer, vemo-las passar por imensos estados de espírito, acompanhamo-las nas suas lutas ao longo da vida, desde que começaram a viver.
E isso torna incrivelmente difícil escolher lados. A noção de Bem ou de Mal (excluindo os Demónios, claro) não se aplica a Arlen ou Jardir.
Talvez esse seja, para mim, o maior dom de Brett. Não só ser um incrível contador de histórias, não só revelar-se um escritor fantástico que rapidamente nos prende nas suas palavras, mas tem essa capacidade de dar às suas personagens tanta humanidade, tantos desafios pessoais, de moldá-las até que se tornem tão complexas como qualquer um de nós. Todas as surpresas, toda a excitação que nós tiramos do livro, surge com o crescer das personagens e não é preciso criar um passado misterioso ou segredos de outros tempos para o leitor não conseguir parar de ler e querer descobrir mais, o que é algo que muitos escritores não se mostram capazes de fazer.

Como já perceberam, mal posso esperar pelo lançamento do terceiro livro, The Daylight War.

Infelizmente, só deveremos ter a sua tradução em Portugal na segunda metade do ano. Estou bastante entusiasmado com esta publicação, portanto é bem possível que pegue na versão original assim que ela for lançada, o que está previsto para Fevereiro!

Portanto, quem não começou, pegue nos livros, publicados em Portugal pela Gailivro, e apaixone-se!


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Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012

Os Filhos do Flagelo, de Filipe Faria

Allaryia, o mundo distante e fantástico, povoado de seres extraordinários, que ficámos a conhecer em A Manopla de Karasthan, abre-se de novo diante dos nossos olhos com a publicação do segundo volume das suas crónicas - Os Filhos do Flagelo. A demanda de Aewyre e dos seus companheiros prossegue, na tentativa de chegar a Asmodeon e levantar o véu de mistério de envolve o desaparecimento de Aezrel Thoryn, mas muitas são as adversidades que têm de enfrentar a caminho do seu destino. Separados, os companheiros mais que nunca dependem uns dos outros para sobreviverem às provações que se lhes depararão: Quenestil e Babaki, que partiram em busca de Slayra e dos seus captores, e o resto do grupo, que segue para as inóspitas estepes de Karatai em perseguição de Kror, o enigmático drahreg que partilha com o jovem Thoryn a Essência da Lâmina, um segredo milenar dos guerreiros de Allaryia. A saída de Ancalach, a Espada dos Reis, do reino de Ul-Thoryn, fez despertar de um longo torpor os Filhos da Sombra, começando a libertar a sua pérfida influência maligna. Insidiosamente, a coberto das sombras, nos obscuros espaços das trevas, o Mal vai estendendo os seus múltiplos e mortíferos tentáculos, antecipando o abraço letal, e tornando, a cada momento, mais visíveis os contornos tenebrosos das suas reais intenções. Há um perigo oculto do qual as gentes de Allaryia ainda não se aperceberam e Pearnon, o escriba, pressente-o sem o poder transmitir. A determinação e a força de armas de Aewyre e seus companheiros serão certamente postas à prova nos tempos vindouros...

Segundo volume daquela que é talvez a maior obra high fantasy portuguesa.
Quando li pela primeira vez o livro, lembro-me de ter adorado. Aliás, foi o meu preferido de toda a saga! Agora, numa leitura mais madura, mais atenta, não posso dizer o mesmo.

A diferença entre este e o primeiro livro é avassaladora. Aliás, tão avassaladora que custa a ler a primeira parte do livro logo após A Manopla de Karasthan.

O primeiro livro mal se preocupa com descrições, a acção desenrola-se a uma velocidade estonteante (um autor normal escreveria a mesma história com o dobro das páginas) e os elementos da história são introduzidos descuidadamente (desde personagens que aparecem do nada e sobre as quais nada sabemos, mas que fazem imediatamente parte do elenco de luxo, a imensos elementos do Mundo de Allaryia que nunca são explicados, simplesmente lá colocados como se fossem tão óbvios para nós como a gravidade).
 Já este segundo livro muda completamente o tipo de discurso. Pela primeira vez, o autor preocupa-se em dar um background às suas personagens. Parece que Filipe Faria começa a querer ir mais longe, a pintar com mais algumas camadas as suas personagens. Infelizmente, parece algo forçado e quase, quase tarde (mas mais vale tarde que nunca certo?). O ritmo é bastante, bastante mais lento, deixamos de ter uma aventura por página para termos uma aventura de cinco em cinco capítulos. E tal diferença... É um pouco confusa. Acho que o próprio autor teve de aprender a se adaptar a esse ritmo de escrita, e isso nota-se na primeira parte do livro. Tanto o leitor como o escritor estavam habituados a um ritmo muito acelerado e a primeira metade de Os Filhos do Flagelo tenta quebrar esse hábito, o que leva o seu tempo.

Segunda metade do livro: excelente. O escritor parece já absolutamente inserido na sua escrita mais trabalhada, é muito mais confortável de ler para o leitor e a história e as suas personagens começam a adquirir contornos bem mais sólidos.

Pessoalmente... Confesso que me tinha habituado bastante à ideia do primeiro livro: um grupo de amigos que, ao longo da sua viagem, se ia cruzando com mil e uma peripécias. Bom ou mal escrito, gostava do facto de o autor não parecer extremamente preocupado com a meta, preocupava-se mais com as pequenas aventuras que esta "irmandade" ia encontrando do que com o objectivo maior (chegar a Asmodeon, descobrir o destino do pai do protagonista). Parecia que o que importava era tudo aquilo com que eles se cruzavam na viagem, demorasse três ou dez livros a chegarem ao destino. Este segundo livro é precisamente o afastar desta ideia, as coisas tornam-se mais sérias. Apesar de mostrar mais maturidade, senti saudades da despreocupação do primeiro livro. Talvez gostasse de ler um "O Senhor dos Anéis" onde o objectivo do escritor não era destruir o Anel mas sim levar as personagens a percorrer a Terra Média em busca de aventuras. Sauron que esperasse. Asmodeon que esperasse.

Portanto, mais do que uma continuação, apesar de essa ser sempre a intenção, creio que este livro serviu sobretudo para o autor se adaptar a um novo ritmo de escrita, a um novo ritmo de acção, à ideia de que esta história não é uma simples brincadeira de escritor e deverá ter todo o potencial para se desenrolar numa série inteira. É um livro de transição entre um primeiro livro, visivelmente despreocupado, e um livro perfeitamente ciente de que faz parte de uma saga com princípio, meio e fim, que espero que seja o terceiro livro.

Domingo, 28 de Outubro de 2012

A Manopla de Karasthan, de Filipe Faria

Na imensidão cósmica existe um mundo, Allaryia, de grandes heróis e vilões infames, de seres de uma beleza indescritível e criaturas maléficas de uma fealdade atroz, nações poderosas e impérios tirânicos. Depois de muitas eras que alternaram entre a paz e a discórdia, encontramos neste primeiro volume das Crónicas de Allaryia, um tempo de aparente tranquilidade, de uma calma inquietante, semelhante ao silêncio que antecede a tempestade. Algures, numa câmara escura, subterrânea, algo se move, tentando libertar-se de anos de cativeiro, algo monstruoso, inumano, sedento de sangue e dor. O povo de Allaryia perdeu o seu campeão – Aezrel Thoryn, provavelmente morto numa batalha contra o Flagelo, a força das trevas, em Asmodeon – e mais do que nunca precisa de protecção. Aewyre Thoryn, o filho mais novo do saudoso rei, pega em Ancalach, a espada do seu pai, decide descobrir o que realmente lhe aconteceu e parte a caminho de Asmodeon. O que o jovem guerreiro não podia prever era que a sua demanda pessoal se iria transformar, à medida que os encontros se vão sucedendo, na demanda de um grupo particularmente singular, que reunirá a mais estranha e inesperada mistura de seres - Allumno, um mago, Lhiannah, a bela princesa arinnir, Worick, um thuragar, Quenestil, um eahan, Babaki, um antroleo, Taislin, um burrik, Slayra, uma eahanna negra e o próprio Aewyre. O ritmo a que se sucedem as aventuras é absolutamente alucinante, a cada passo surgem perigos mais tenebrosos, seres aterradores que esperam, ocultos nas sombras, o melhor momento para atacar e roubar a tão desejada Ancalach… Mas os laços de amizade que unem o grupo estão cada vez mais fortes e, juntos, sentem-se capazes de enfrentar qualquer inimigo. Um livro extraordinário, vencedor do Prémio Branquinho da Fonseca atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian e pelo semanário Expresso, que promete conquistar um lugar privilegiado na literatura portuguesa.

Volto mais uma vez a embrenhar-me numa saga. Não consegui ficar longe. Depois de ler de seguida os dez livros já publicados de "Crónicas de Gelo e Fogo", de George R. R. Martin, em vez de ficar cansado fiquei com vontade de voltar a embrenhar-me numa outra jornada! Escolhi "Crónicas de Allaryia". Felizmente, esta já está acabada.

Tratam-se de sete volumes, dos quais já li os cinco primeiros. Como essas leituras já ocorreram há bastante tempo, muitos pormenores foram esquecidos. A vontade de os reler tem sido grande ultimamente e aproveito para seguir até ao último livro.

Apesar de já ter lido o primeiro livro há muito tempo (bolas, receio que o li pouco tempo depois de ter sido publicado, ou seja há 10 anos!), fiquei ligeiramente surpreendido por me lembrar bem da história. Talvez porque a minha bagagem literária naquela altura ainda era bastante pequena (hoje em dia já li tanto que acabo por filtrar bastantes leituras), talvez porque foi o primeiro livro do género high fantasy que li. Lembro-me que, apesar de ter gostado do livro, não me marcou particularmente de forma alguma. Esta releitura, apesar de não me impressionar, proporcionou-me uma leitura bastante agradável.

A inspiração em grandes obras como "O Senhor dos Anéis" é inegável. Mas como não o seria? São raras, muito raras, as obras de high fantasy que não se inspiram no clássico de Tolkien, simplesmente porque "O Senhor dos Anéis" é a definição de Fantasia! O grupo de amigos prontos a combater pelo Bem é uma imagem clássica. Os seres fantásticos, os bons e os maus, também o são. Tal como a gravidade, há certas forças em Allaryia que respeitam as mesmas forças de qualquer outro mundo fantástico. Portanto, esta não é de todo uma leitura diferente de tantas outras e mesmo as ideias relativamente originais estão um pouco rebuscadas e elaboradas de forma bastante ingénua.
Ainda assim, o esforço em criar um mundo de raiz é incrível. Os seres fantásticos acabam por referenciar clássicos como os Elfos, Orcs ou Anões, mas algumas divergências tornam os eahan, os drahreg ou os thuragar merecedores de alguma atenção. Personagens como Coillen (um tirano com o corpo de correntes metálicas) ou Hazabel (uma mulher maléfica de hábitos horríveis e com intenções muito misteriosas por enquanto) parecem honestamente únicas. A mente de Filipe Faria prova ser capaz de nos entreter no seu mundo, e neste momento é só isso que peço.

A imaturidade do livro, porém, não deixa de saltar a olhos vistos. Claramente escrito por um indivíduo bastante jovem (16 anos!), as aventuras que os companheiros vivem ao longo da sua jornada precipitam-se e parecem demasiado propositadas. Sejam personagens, sejam quaisquer ideias nascidas em Allaryia, são parcamente desenvolvidas. Raramente nos é explicada a origem de certos seres ou mesmo as motivações das personagens principais, e se o são acabam por ser razões dolorosamente simples ou cliché. Os elementos mais misteriosos e que parecem trazer algo de sinceramente diferente à obra não são sequer abordados, portanto resta esperar que os próximos livros o façam.
Impressionante é a velocidade astronómica com que tudo se desenrola. Acontece tudo de forma tão rápida que o leitor mal consegue reter tudo. Em poucas páginas, os companheiros juntam-se, batalham com a pior raça de Allaryia, desenvolvem as complexas relações entre si, são capturados, são atacados por monstros com cabeças de javalis, andam para a frente e para trás repetidas vezes porque um dos companheiros está constantemente a mudar de bom para mau (coisa que ele dificilmente consegue controlar), encontram-se com uma mulher maquiavélica e mudam a vida de uma cidade inteira. Não só tudo isto soa da forma mais ingénua possível como acontece tudo em poucas páginas, ainda antes de chegarmos a metade do livro. Tão rápido que um leitor acaba de ler com a sensação de que não leu tudo! Não admira que, mesmo depois de acabar a releitura, sinta que precise de reler mais uma vez...
Parece que, ao escrever o livro, Filipe Faria não tinha a noção de que esta se prolongaria, seriamente, por uma saga de sete livros. Resultado disto, a história vai-se construindo sucessivamente de forma um pouco descuidada, sem preocupação com a formação dos futuros livros.

Contudo... O livro está incrivelmente bem escrito, sobretudo se nos lembrarmos que Filipe Faria o escreveu com 16 anos. É verdade que tudo parece ocorrer ao mesmo tempo, é verdade que descura muitas descrições e é verdade que se pedia que muitas coisas sobre Allaryia não fossem simplesmente deixadas ao leitor para imaginar o que quisesse (é que sem uma enciclopédia sobre Allaryia, há coisas que são muito pobremente faladas, e como fã de Fantasia não gosto disso...). Mas também é verdade que Filipe Faria escreve como nós lemos, sem parar. Muito simples, muito fluido, muito fácil de prosseguir. Para um rapaz de 16 anos, é incrível. Sem nós querermos, criamos uma empatia com o livro que vai para além da história em si. Receio bem ser uma sensação que apenas um bom escritor é capaz de proporcionar.

É com vontade que prossigo para os próximos livros. Não pela história em si, porque essa não tem por enquanto nada de especial que se lhe diga. As aventuras vão acontecendo ao longo do caminho, pouco é explorada a história que nos deverá acompanhar a saga inteira, e uma vez que nada de novo traz (por enquanto!!!) não é mais do que um entretenimento para quem, como eu, adora Fantasia. Sigo a leitura pelas personagens. É impossível não criar um enorme carinho pelas personagens de Filipe Faria. Para mim, isso prova que estamos perante um excelente escritor e é garantia que os próximos livros serão tão bons quanto este. Pela boa disposição de Taislin, pelo temperamento de Worick, pela relação de Quenestil e Slayra, por Kror, por Hazabel e os seus misteriosos planos. Esses sim são o melhor conseguido.


Sexta-feira, 19 de Outubro de 2012

Abaddon, de Rui Madureira

Sedento de poder e cegado pelo seu próprio orgulho, Lucifer – o primeiro anjo criado por Deus e o mais belo de toda a estirpe celestial – decide rebelar-se contra o Pai divino após a misteriosa e muito polémica criação do Homem. Persuadindo uma enormíssima falange de anjos guerreiros com as suas ideias de revolta e usurpação do trono divino, o primogénito dos anjos avança sobre as muralhas do imponente palácio de Deus com um vasto exército de anjos rebeldes nas suas costas. Porém, travado pelas brilhantes tácticas defensivas dos Arcanjos Michael, Gabriel, Raphael e Uriel, Lucifer acaba por tombar e ver os seus desígnios megalómanos cortados pela raiz, sendo aprisionado no Inferno para toda a eternidade conjuntamente com os seus seguidores. 
Os milénios passam, mas nem por isso o revoltado Príncipe dos anjos esquece a sua sede de vingança. Pretendendo desforrar-se do ser humano e do Pai que o deserdou, começa desde logo a arquitectar uma invasão ao reino do Homem com a ajuda do demónio Abaddon, a única criatura capaz de despoletar o Apocalipse em solo terrestre. E como tentativa desesperada de evitar o fim do mundo, Deus envia o Arcanjo Gabriel à Terra com a incumbência de liderar uma legião de guerreiros celestiais capaz de fazer frente ao Diabo e às suas hostes de monstros oriundos do Abismo. Poderá o Homem salvar-se no seu maior momento de provação? Ou sucumbirá para sempre ante as trevas orquestradas pelo colérico Rei do Inferno?

Apresento-vos um novo escritor no panorama da Literatura em Portugal: Rui Madureira. Tendo em conta os tempos que vivemos, é de louvar alguém novo, diferente, publicar um livro em Portugal e seguir um sonho como este. E creio que tem tudo para ser bem sucedido.

Abaddon é um enorme livro (600 páginas) sobre a vingança de Lucifer. Depois de se ter recusado a aceitar a nova criação de Deus, o Homem, decide rebelar-se, embora sem sucesso, sendo enviado para o Inferno. Aí, conspira com Abaddon (o Rei dos Infernos) a sua vingança, sobre o Pai e sobre o Homem, espécie que levou à sua queda. O livro passa-se sobretudo em Londres, onde Abaddon decide despoletar o Apocalipse (já que ele é o único capaz de unir o Inferno e a Terra) e o Arcanjo Gabriel procura respostas junto desse demónio, evitando que o Dia do Juízo Final seja mais trágico do que se espera.

Abaddon, apesar de tudo, é uma personagem relativamente secundária. Suponho que "Gabriel" faria mais sentido, já que é sobre ele que a maior parte do livro se debruça. De qualquer forma, este é um livro sobre o Apocalipse, sobre vingança, sobre o objectivo das Trevas, pelo que o nome do demónio é a única escolha possível.

Apesar da nota inicial nos avisar disso, fiquei muito surpreendido por notar tantas influências no clássico O Exorcista. Abaddon, apesar de Fantástico, tem uma carga enorme de Terror, o que foi inesperado mas bastante positivo. A luta entre Gabriel e o demónio, as cenas de meter medo, lembram o tipo de terror que O Exorcista apresenta.

Mas ainda está longe de ser um livro perfeito. Infelizmente, neste caso, 600 páginas significam uma coisa: repetitivo. Muitas vezes senti que tinha lido a mesma coisa repetidas vezes seguidas, como se o autor quisesse reforçar um certo ponto de vista. Ok, nós percebemos, quer que o leitor compreenda que Abaddon é uma criatura extremamente terrível, ou que Gabriel é um anjo gloriosamente valoroso. Mas não é necessário repeti-lo capítulo a capítulo. Página a página. Parágrafo a parágrafo.
Este é, sem dúvida, o maior erro deste livro. Demasiado repetitivo nas suas descrições, demasiado repetitivo na caracterização das suas personagens. Para além de que, para muita pena minha, para um livro tão extenso acho que as personagens podiam ter sido muito mais desenvolvidas. Poderíamos ter explorado muito mais a psique de Lucifer, ou os motivos de Gabriel, muito para além do que nos é oferecido. Esta exploração é relativamente superficial, as personagens acabam por ser pouco multi-dimensionais. Há uma história por detrás dela, mas dada a magnitude destes intervenientes, pedia-se algo mais complexo, que acabasse por despertar conflitos na mente do leitor, conflitos que nos fizessem reconsiderar a nossa posição nesta batalha. Apesar de tudo, não senti esses conflitos.
Esta história traz consigo tantos temas interessantes, sobretudo de carácter mais filosófico, que no entanto são postos de parte em prol da história em si, que aliás demora a avançar.

Aliado a isto, a história demora tanto a desenvolver que, a partir de certa altura, perde-se muito do entusiasmo inicial da chegada do Apocalipse. Arrastar a história pode resultar em duas coisas: o aumento da expectativa ou o cansaço. Por isso, o livro acaba por ser mais extenso e demorado do que a princípio se julgaria, pedindo ao leitor alguma paciência.

Mas uma vez chegado o Apocalipse, o livro brilha: a emoção da batalha, as cenas macabras, a expectativa, será que aqueles sobrevivem, será que não?, como será que aqueles morrem, como será que se vão encontrar, o que vem a seguir?. Em pleno Apocalipse, Rui Madureira prova que consegue evocar as cenas mais épicas, transportando-nos para um outro plano. Compensa a longa espera, pode-se dizer. Vi-me em Londres, vi-me no meio da batalha, vi o horrível cenário à minha volta e senti as forças do Bem e do Mal chocarem. Senti e vi a fé dos Anjos, o desespero dos Humanos. Ansiei pela conclusão, ansiei pela Batalha Final, curioso para saber como raio iria tudo acabar.

Quando as personagens entram em acção, o livro agarra-nos. Agarra-nos muito.
Uma coisa é certa: o autor escreve, e bem. Pelo que, apesar de tudo, mesmo nos momentos mortos, a leitura decorre normalmente, lenta mas nunca verdadeiramente cansativa. A influência do Cinema está bastante presente na escrita de Madureira, o que nos ajuda bastante a visualizar a história e a percorrer as suas páginas. Eu diria que está demasiado presente, visto que isto é um livro e não um filme pede-se uma linguagem um pouco mais adaptada, mas já estou a ser demasiado picuinhas certo?

Para além disso, não percebo como é que ninguém se lembrou de escrever isto mais cedo. A premissa é extremamente interessante, é assunto com pano para muitas mangas, dá asas à imaginação. Qualquer tema da Bíblia serve de inspiração para escrever imensos romances, o Apocalipse é apenas um deles! Ver o Dia do Juízo Final retratado neste livro é o que mais empolgado me deixa. Ler o livro já vale a pena pela sua história-base. É desde o início algo previsível (com um final bastante rebuscado, a meu ver), mas isso não tira de todo a emoção da batalha ou o simples prazer da leitura. Fico à espera do segundo romance, seguro de que trará evoluções positivas!



Domingo, 23 de Setembro de 2012

Os Reinos do Caos, de George R. R. Martin

 "A mais importante obra de fantasia desde que Bilbo encontrou o Anel."


-SF Reviews.net

O inverno aproxima-se de um mundo mergulhado no caos. No norte dos Sete Reinos está iminente uma batalha decisiva pelo que resta do antigo domínio dos Stark. Ainda mais a norte, Jon Snow luta por encontrar um equilíbrio entre as tradições da Patrulha da Noite e o que o seu instinto lhe diz ser o caminho correto a seguir. A sul, velhas alianças esperam o tempo certo para serem reveladas, enquanto os homens de ferro assolam os mares e as costas dos domínios Tyrell. Do outro lado do mar estreito, tudo converge para a Baía dos Escravos, onde Daenerys Targaryen tarda em ganhar a paz na inquieta cidade de Meereen. E os dragões? Qual será o seu papel no meio de tudo isto? Muitos estão certos de que a tão temida reconquista de Westeros está prestes a começar...


"Agarra-nos e nunca mais larga. Brilhante!
-Robert Jordan


Wow. Wow...
O que acabou de se passar?

George Martin, pergunto-me se este livro é tolerável. Já nos deste muitos choques, muitas surpresas, e já nos deixaste esperar durante muito tempo. Mas o que fizeste neste livro não passaria pela cabeça de ninguém. É injusto e pergunto-me se satisfatório.

Durante 500 páginas, acontece rigorosamente nada. Nada de novidades, nada de surpresas, nada de nada. Nas últimas 50 páginas tudo acontece. Pior, o que acontece é de tal forma inconclusivo que nos deixa aborrecidos. O fim deste livro seria o que se esperava na metade de um livro normal. Não sabemos o que acontece às personagens, todas ficam à beira de um final incrivelmente inacabado. Grandes, importantes, batalhas, ficam por começar. Apesar de estarmos a falar de uma série, seria de esperar que cada livro terminasse de uma forma apropriada. Este não tem absolutamente nenhuma conclusão. Isto tudo depois de 500 páginas sem ter dito rigorosamente nada.
O objectivo pode ter sido deixar-nos demasiado excitados com o próximo livro. E conseguiu. Mas, ainda assim, parece-me que o autor poderia ter aproveitado um livro tão extenso para abranger mais acontecimentos. Um livro tão extenso trata demasiado pouco. 500 páginas de escrita, nada mais, pouca história, mais uma vez as personagens a ruminar sobre os mesmos assuntos, e finalmente as últimas páginas dedicadas a estragar todas as nossas expectativas para a série. É frustrante, os últimos acontecimentos são demasiado importantes para serem deixados desta forma.

E quando pensávamos que a história se estava a organizar, quando pensávamos que finalmente o desenlace estava cada vez mais próximo... As últimas 50 páginas colocam tudo numa confusão ainda maior do que alguma vez esteve, e o final parece mais longínquo do que alguma vez foi.

Demasiadas questões em aberto foram deixadas, demasiadas para serem aceitáveis. Demasiadas páginas foram escritas só para tornar o livro um pouco maior. Demasiadas personagens e demasiado pouco desenvolvimento. Pensava que este livro iria trazer-nos grandes acontecimentos, grandes revelações, e quiçá aproximar-nos definitivamente do clímax. Mas nada, nada disso. Espero agora que The Winds of Winter seja esse livro.
De qualquer forma... Queira ou não, Martin envolve-nos na sua escrita, nas deambulações das suas personagens, e as últimas páginas são de tal forma sufocantes que nos fazem esquecer aquelas 500 páginas de palha.


Sábado, 22 de Setembro de 2012

A Dança dos Dragões, de George R. R. Martin

 "A mais importante obra de fantasia desde que Bilbo encontrou o Anel."

-SF Reviews.net

O Norte jaz devastado e num completo vazio de poder. A Patrulha da Noite, abalada pelas perdas sofridas para lá da Muralha e com uma grande falta de homens, está nas mãos de Jon Snow, que tenta afirmar-se no comando tomando decisões difíceis respeitantes ao autoritário Rei Stannis, aos selvagens e aos próprios homens que comanda. 
Para lá da Muralha, a viagem de Bran prossegue. Mas outras viagens convergem para a Baía dos Escravos, onde as cidades dos esclavagistas sangram e Daenerys Targaryen descobre que é bastante mais fácil conquistar uma cidade do que substituir de um dia para o outro todo um sistema político e económico. Conseguirá ela enfrentar as intrigas e ódios que se avolumam enquanto os seus dragões crescem para se tornarem nas criaturas temíveis que um dia conquistarão os Sete Reinos?

 Eis o regresso muito aguardado das Crónicas de Gelo e Fogo, a melhor série de fantasia da atualidade!

"Agarra-nos e nunca mais larga. Brilhante!
-Robert Jordan
 


Rever as nossas personagens preferidas dois livros depois é de uma extrema satisfação. Melhor ainda, estas personagens estão num cenário completamente diferente, os seus destinos mudaram radicalmente desde A Glória dos Traidores.

Não se pode dizer que ao longo deste extenso livro a história avance, mas a verdade é que estamos a falar da primeira metade do livro original (A Dance With Dragons), portanto estou à espera de grandes revelações no próximo livro.

Parece-me que Martin está a voltar à fórmula que perdeu em O Mar de Ferro: maior variedade de personagens, mais pontos de vista. Gosto disso. Quando a história não avança muito, é preciso isto. A Dança dos Dragões não é mais do que voltar a apresentar as antigas personagens, relembrar-nos do que lhes aconteceu e dar-nos a conhecer onde elas foram parar. As surpresas continuam a vir, e a sensação de que se aproxima um desenlace é cada vez maior. Tudo nos leva a entender que neste livro tudo se encaminha por um caminho: encontrar Daenerys e com ela regressar a Westeros. Finalmente, a história parece ter sido de novo alinhada para aquele que é um dos maiores enredos dentro da saga.

Sempre uma leitura entusiasmante, sempre das melhores personagens já criadas, sempre muitos segredos e conspirações que vão sendo revelados aos poucos, Martin continua a sua eterna saga. Mas cada vez mais se nota um arrastar da história. Já tinha discutido isto com outros leitores, mas até agora nunca me tinha incomodado. Neste livro, nota-se demasiado o quanto o autor tenta esticar a história, capítulos e capítulos a andar à volta da mesma coisa, sem nunca avançar de posição. Já não se trata de desenvolver a história pormenor a pormenor, trata-se de acrescentar pormenores que não existem. Parece-me provável que a série acabe por ter mais livros do que o número original (sete, em Portugal catorze) ao passo que Martin escreve.


Domingo, 2 de Setembro de 2012

O Mar de Ferro, de George R. R. Martin

 "A mais importante obra de fantasia desde que Bilbo encontrou o Anel."
-SF Reviews.net

Quando Euron Greyjoy consegue ser escolhido como rei das Ilhas de Ferro não são só as ilhas que tremem. O Olho de Corvo tem o objectivo declarado de conquistar Westeros. E o seu povo parece acreditar nele. Mas será ele capaz?

Em Porto Real, Cersei enreda-se cada vez mais nas teias da corte. Desprovida do apoio da família, e rodeada por um conselho que ela própria considera incapaz, é ainda confrontada com a presença ameaçadora de uma nova corrente militante da Fé. Como se desenvencilhará de um tal enredo?

A guerra está prestes a terminar mas as terras fluviais continuam assoladas por bandos de salteadores. Apesar da morte do Jovem Lobo, Correrrio ainda resiste ao poderio dos Lannister, e Jaime parte para conquistar o baluarte dos Tully. O mesmo Jaime que jurara solenemente a Catelyn Stark não voltar a pegar em armas contra os Tully ou os Stark. Mas todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou não será bem assim?


Descubra a melhor fantasia da actualidade em mais um volume de As Crónicas de Gelo e Fogo.

"Agarra-nos e nunca mais larga. Brilhante!
-Robert Jordan


O Mar de Ferro vem continuar a história de O Festim dos Corvos, com as mesmas personagens, a mesma trama. Não posso dizer, contudo, que o entusiasmo desta leitura tenha sido igual à anterior.

Trata-se do livro mais pequeno da série e já é grande o suficiente. O Festim dos Corvos foi excelente porque ofereceu-nos novas personagens, novos pontos de vista, e sobretudo a história avançou, novos destinos são traçados, com novas personagens surgem novos acontecimentos pelos quais podemos estar ansiosos, novas conspirações, e velhas personagens vêem-se perante novos desafios.
Infelizmente, este livro (a segunda metade do livro original) perde essa novidade. A maior parte das surpresas parecem estar todas reunidas em O Festim dos Corvos. Brienne, Jaime e Cersei são as personagens principais deste novo livro e todos os capítulos giram à volta deles. Torna-se bastante aborrecido estar constantemente a ler sobre estas personagens enquanto o autor se esquece de todas as outras, depois de tanta novidade. Se há surpresas neste livro, estão reservadas para os últimos capítulos, enquanto ao longo do livro as personagens parecem andar às voltas sem ir dar a lado nenhum.

Apesar de tudo, é impossível resistir ao encanto da escrita de Martin ou à profundidade das suas personagens. O enredo que ele desenvolve, com uma série de conspirações, é do sumo mais saboroso que já provei. Há sempre a vontade de continuar, sempre a expectativa do que vai acontecer. Mais uma vez, foram precisos sete livros (quatro no original) para sentir que a história avança e estamos cada vez mais próximos da conclusão, mas valeu bem a pena. Esta é uma série para absorver todos os pormenores, mesmo os mais insignificantes, uma série para mergulharmos com vontade.

Quarta-feira, 8 de Agosto de 2012

O Festim dos Corvos, de George R. R. Martin

 SPOILERS

"A Guerra dos Tronos é a mais importante obra de fantasia desde que Bilbo encontrou o Anel."
-SF Reviews.net

Continuando a saga mais ambiciosa e imaginativa desde O Senhor dos Anéis, As Crónicas de Gelo e Fogo prosseguem após o violento triunfo dos traidores.

Enquanto os senhores do Norte lutam incessantemente uns contra os outros e os Homens de Ferro estão prestes a emergir como uma força implacável, a rainha regente Cersei tenta manter intacta a força dos leões em Porto Real.
Os jovens lobos, sedentos por vingança, estão dispersos pela terra, cada um envolvido no perigoso jogo dos tronos. Arya abandonou Westeros rumo a Bravos, Bran desapareceu na vastidão enigmática para além da Muralha, Sansa está nas mãos do ambicioso e maquiavélico Mindinho, Jon Snow foi proclamado comandante da Muralha mas tem que enfrentar a vontade férrea do rei Stannis e, no meio de toda a intriga, começam a surgir histórias do outro lado do mar sobre dragões vivos e fogo...
Numa terra onde muitos se proclamaram como reis e rainhas, todos estão convidados para O Festim dos Corvos. Venha descobrir quem serão os sobreviventes!

"Agarra-nos e nunca mais larga. Brilhante!
-Robert Jordan


FIM DOS SPOILERS


A Glória dos Traidores foi tão chocante, tão cheio de eventos, que praticamente marcou o fim de uma parte desta série. O destino de todas as personagens mudou radicalmente. A história que acompanhámos desde o início da série acabou, em grande parte, com A Glória dos Traidores.

O Festim dos Corvos, quarto livro na versão original, marca então o rescaldo de tudo o que temos testemunhado e marca o início de uma nova era na nossa história. Este livro faz o ponto da situação "depois da tempestade", mas sobretudo traz-nos novas personagens, novos cenários, e as próprias personagens antigas mudam completamente de cenário e destino.

Não podia estar mais entusiasmado. Finalmente, finalmente, sinto que o autor decidiu arriscar e trazer novas personagens (todas sempre bastante interessantes), decidiu arriscar e dar-nos as perspectivas de personagens antigas (e quem diria que acabaríamos por gostar daquelas personagens que sempre considerámos vilãs?), decidiu arriscar e levar-nos para novas cidades, decidiu arriscar e dar novas aventuras aos antigos protagonistas, mudar o curso do seu destino. Sim, finalmente, a história avança!
E isso é altamente entusiasmante.

O Festim dos Corvos é considerado o pior livro da série. Porquê? Porque é de um ritmo muito, muito mais lento (relembro, explora sobretudo o ponta da situação depois da turbulência dos livros anteriores, sobretudo a situação política), porque o livro anterior teve tantos acontecimentos, tantas surpresas, tantos choques, que o leitor não consegue sequer respirar, e porque todas os grandes protagonistas até agora não aparecem no livro (mas aparecem novas personagens, é uma nova era da saga e isso deveria ser suficiente por agora!).

Pessoalmente, atrevo-me a dizer que gostei tanto ou mais de O Festim dos Corvos do que de A Glória dos Traidores. Acho que os leitores tendem a confundir "chocante" com "entusiasmante". O Festim dos Corvos não é, de todo, chocante (tem as suas surpresas, e que surpresas!). Mas um livro não precisa de chocar para surpreender! Sobretudo os fãs desta série estão muito habituados a que Martin dê as suas famosas reviravoltas e surpresas que acabam sempre em mortes, pelo que quando um livro é mais lento, não se debruça tanto na acção, acabam por sair desiludidos.
Mas O Festim dos Corvos tem tudo! Mortes inesperadas, imensas surpresas, planos arruinados, e para além disso ficamos a conhecer muito mais sobre os Sete Reinos, sobre as suas personagens e sobre o seu passado! Será só porque as personagens preferidas de todos não fazem parte dessas surpresas? Talvez, mas eu facilmente ganhei novas personagens preferidas, e continuei a sair absolutamente surpreendido.

Sim, sou um total apoiante a este livro. Novas personagens, novas direcções, não choca mas é  surpreendente como todos os livros da série. Foi um risco que Martin decidiu publicar e aplaudo-o por isso. Vou ficar um pouco triste quando Martin decidir voltar às velhas personagens de sempre, por muitas saudades que tenha delas.




Novas compras!

Não estava a brincar quando disse que ia ler As Crónicas de Gelo e Fogo até ao último livro publicado!



Nem sei bem como parar. A simples noção de que ainda terei de esperar anos pelos próximos livros é perturbante.
(já comecei a ler "O Mar de Ferro")
De louvar as edições lindas da Saída de Emergência. Só pelas capas, vale a pena a quantidade de livros com que estão a publicar a série em Portugal!

Domingo, 29 de Julho de 2012

A Glória dos Traidores, de George R. R. Martin

 SPOILERS

"A Guerra dos Tronos é a mais importante obra de fantasia desde que Bilbo encontrou o Anel."
-SF Reviews.net


O bafo cruel e impiedoso do Inverno já se sente. Quando Jon Snow consegue regressar à Muralha, perseguido pelos antigos companheiros do Povo Livre, não sabe o que irá encontrar nem como será recebido pelos seus irmãos da Patrulha da Noite. Só tem uma certeza: há coisas bem piores do que a hoste de selvagens a aproximarem-se pela floresta assombrada.

O Jovem Lobo também está em viagem, na companhia da mão e do tio, numa tentativa de reconquistar duas coisas fundamentais para os Stark: a aliança da Casa Frey e o Norte. A primeira parece bem encaminhada, mas é sabido como o velho Walder Frey é traiçoeiro. Quanto à segunda, é uma incógnita, pois a tarefa que lhe cabe é quase impossível: conquistar Fosso Cailin a partir do sul.

Em Porto Real, há dois casamentos em perspectiva, qual deles o mais importante para o destino dos Sete Reinos. Mas quem sabe o que os caprichos do destino têm reservado para os noivos? Jaime Lannister, agora mutilado, regressa para junto dos seus sem saber o que o aguarda. E do outro lado do mar, o poder dos dragões renasce, com Daenerys à cabeça de uma hoste de eunucos treinados para a guerra e finalmente rodeada de amigos. Mas serão esses amigos... dignos de confiança?
 "Agarra-nos e nunca mais larga. Brilhante!
-Robert Jordan

 FIM DOS SPOILERS
Começo assim a ler aquilo que nunca cheguei a ler. Avanço finalmente nesta saga que já é das melhores alguma vez escritas.
E que livro. Que livro! Aqui está tudo aquilo que Martin prometeu: fazer-nos arrancar os cabelos, fazer-nos gritar, parar o nosso coração.
George R. R. Martin desde o início que nos prometeu que não seria piedoso com as suas personagens. E não é. Há muitas mortes, mortes inesperadas, mortes que mudam drasticamente todas as esperanças que tínhamos para a história. Mas a verdade é que nada é manipulado, toda a história soa tão real quanto possível, e na realidade nem sempre os "bons da fita" conseguem escapar.
Nem os maus.

Tal como A Tormenta das Espadas, não existe um único capítulo aborrecido, as surpresas vem atrás de surpresas, profecias são concretizadas. Cada vez mais amamos certa personagem, cada vez mais odiamos outra, e algumas surpreendem-nos, começamos a nutrir sentimentos por algumas que costumávamos odiar. É assim este livro, uma miscelânea de emoções à flor da pele. E, finalmente, muitos segredos são desvendados. Finalmente, a história parece verdadeiramente avançar e sentimos que é dada às personagens (as sobreviventes pelo menos) uma oportunidade de uma conclusão, por agora! Praticamente perfeito em todos os sentidos.

O único ponto negativo (sim, por incrível que pareça, há um) é que, apesar das muitas surpresas, quem agora vai ler o livro já sabe que vai esperar essas mesmas surpresas. Ou seja, mesmo não sabendo quem morre ou como morre, sabemos que vai haver muitas mortes, mortes que nos vão desagradar, portanto de certa forma estamos mentalmente preparados para o que vamos encontrar.
Apesar de tudo, e como já disse anteriormente, continuo irremediavelmente fascinado não por acontecimentos presentes mas mais ainda pelas profecias prometidas, pela história passada (a verdadeira origem das Crónicas de Gelo e Fogo, aquando o fim dos Targaryen e o nascimento de algumas personagens) e o seu destino futuro. Não consigo parar de roer as unhas de excitação ao tentar imaginar o que ainda está reservado para todas as personagens.

Avanço já para o próximo, O Festim dos Corvos. Dizem que é bastante mais fraco do que os anteriores, mas mal posso esperar por pegar nele! O próximo livro tem de ser diferente, há demasiadas reviravoltas e a vida das personagens muda drasticamente, e estou ansioso por ver qual será o seu novo destino.


Releitura de "A Tormenta das Espadas", de George R. R. Martin


Existem livros praticamente perfeitos. Este deve ser um deles.
Continuamos a seguir as mesmas personagens desde o início da saga, contudo também surgem novos pontos de vista. Apesar de se tratar do início do livro original, A Storm of Swords, a história desenrola-se sem parar e não existe um único capítulo aborrecido. Quer a história quer a escrita parecem cada vez mais aprimoradas à medida que o livro avança.

Mais uma vez, não consigo deixar de admirar o autor por se preocupar em desenvolver todos os pormenores que pode dar. É impossível acabarmos de ler o livro e pensar que o escritor poderia ter desenvolvido melhor certa personagem ou certa cena. Alguns podem pensar que a obra é demasiado extensiva por isso mesmo, mas eu adoro. Adoro quando leio um livro e não tenho a sensação de que poderia ler mais sobre certo sítio ou certo acontecimento porque, bem, o escritor escreveu tudo aquilo que podia escrever sobre o assunto.

Várias surpresas, mais profecias e mais promessas de que o que está para vir vai fazer explodir a nossa cabeça.

E, a partir de agora, todos os livros que ler da série serão lidos pela primeira vez. A partir de agora, são tudo surpresas e acontecimentos que nunca tinha lido alguma vez... Estou mais do que ansioso. Por favor Martin, escreve depressa até ao fim, eu não quero outra coisa senão saber como todos acabam.

Terça-feira, 26 de Junho de 2012

Releitura de "O Despertar da Magia", de George R. R. Martin

"O Despertar da Magia". Bem, um despertar, mas ainda não acordou de facto.
Apesar do título parecer enganador, sem dúvida a presença de magia começa-se a notar cada vez mais. Mas, atenção, muito pouca magia. Apenas uma sugestão.
Isto é algo que o autor vem reafirmando ao longo do tempo e fãs de Literatura Fantástica devem sempre ter em atenção: não é objectivo desta obra trazer magia. Isto é "alta fantasia" e é um mundo onde a magia praticamente desapareceu. Daí As Crónicas de Gelo e Fogo serem consideradas uma das melhores obras de fantasia de sempre: não recorre a magia. Desengane-se aquele que estiver à espera de grandes feitiços. Há magia: há sombras místicas, há profecias, há visões, há pessoas com poderes sobrenaturais. O suficiente para fazer desta obra tão fantástica quanto real. Honestamente, a única altura em que surge magia a sério acaba por parecer um caminho "fácil", coisa que não queremos desta série.
Mais uma vez, esta releitura continua a agradar-me imensamente. Continuo a encontrar cenas e pormenores dos quais já me tinha esquecido. Este livro é em quase todos os capítulos capaz de nos fazer roer as unhas de excitação, quer seja pela guerra, quer seja pelas visões que vamos conhecer (e que, embora por enquanto não façamos ideia como, vão ser a chave para chegar ao fim da série).
Curiosamente, e como já tinha verificado, continuo sem me sentir especialmente atraído pelas cenas bélicas. Talvez porque já conheço quem será o vencedor, talvez porque são as cenas cujos pormenores menos são fundamentais para acompanhar a história. São, sim, as imensas profecias que surgem neste livro, ou as personagens novas que entram ou que saem misteriosamente, que me interessam. É a intriga política, que abunda nesta saga, que me tem chamado a atenção.
De alguma forma, não consigo deixar de sentir que este livro (segundo da série na versão original, em Portugal constituído pelo terceiro e quarto livros) se afasta um pouco daquilo que o primeiro livro se propôs a contar. Enfim, não é bem afastar, mas expande-se por caminhos secundários. A própria história não é tão bem organizada, os enredos confundem-se um pouco, como se estivessem eles próprios perdidos, à espera do momento em que possam avançar. O que não é bom para um livro tão grande.
Talvez se deva ao facto da história ter sido planeada para três/quatro livros na primeira ideia do autor. Para mim, "As Crónicas de Gelo e Fogo" são a história de Jon e Daenerys, são eles os dois as verdadeiras personagens principais. Tyrion, o anão, talvez seja a personagem com mais "tempo de exposição", e portanto também acaba por pertencer ao leque de protagonistas, contudo não são as suas Crónicas.
Por isso mesmo, para ocupar os sete livros a história tem de se estender por todas as personagens, por todos os caminhos possíveis. A algumas personagens são só dedicados um par de capítulos, comparado com outras personagens (nomeadamente Tyrion) que ocupam praticamente o livro todo.
Da minha parte não me queixo. Os pormenores acabam por estar todos lá, a excitação à volta da série aumenta com o avançar dos livros, é uma obra plena, muito completa, gosto disso. Continuando!

Quarta-feira, 20 de Junho de 2012

Releitura de "A Fúria dos Reis", de George R. R. Martin

Continuo na minha jornada de "As Crónicas de Gelo e Fogo".
A partir de agora, já tenho de encarar os livros de outra forma. Em primeiro lugar, os livros que a partir de agora ler, incluindo este, li apenas uma única vez (enquanto já tinha lido A Guerra dos Tronos e A Muralha de Gelo duas vezes). Em segundo lugar, já não me lembro de muitas coisas da primeira leitura (apenas muito geralmente, e por vezes não de forma ordenada, assim como ainda não vi os episódios televisivos correspondentes a este livro).

Quando li este terceiro livro pela primeira vez, perdi muito do fascínio pela série. Aborreceu-me, confundiu-me ainda mais, e nunca cheguei a recuperar aquela "chama" que senti com os primeiros livros. É curioso verificar que aquilo que não gostei dessa leitura foi talvez aquilo que mais me agradou nesta releitura.

A Fúria dos Reis não é mais do que a primeira metade do segundo livro da série, A Clash of Kings, portanto é justo desculpar o seu ritmo mais lento. Muito, muito pouco acontece. Tudo aconteceu no final de A Muralha de Gelo, e portanto nesta parte encontramos apenas os nossos personagens favoritos a tentar não só reflectir sobre os acontecimentos passados como a prepararem-se para o futuro. A guerra está mais do que instaurada e os Sete Reinos estão completamente divididos. Todos querem ser rei, mas quem será o legítimo herdeiro?
Portanto, para todas as guerras, cada Casa deve preparar bem os seus movimentos, cada um deve procurar defender-se, saber em quem confiar ou não. E, já que estamos a ler uma obra fantástica, convém encher o leitor de alguma expectativa certo? Acentuar um pouco mais alguns mistérios que continuam sem resposta, desenvolver mais algumas personagens, sem nunca verdadeiramente dizer alguma coisa. Nada disto seria aborrecido se não se estendesse por mais de 400 páginas, o que infelizmente acontece neste livro.

Na primeira leitura, isso foi a morte da minha leitura. É tão fácil deixarmo-nos aborrecer com este livro. É preciso gostar muito da série e estar muito atento a tudo e todos para se ultrapassar esta parte. Nesta releitura foi diferente: foi precisamente o seu ritmo mais lento que me levou a gostar muito, mesmo muito mais do livro.
Como já tinha referido no livro anterior, são as pequenas intrigas que nesta releitura mais me fascinam. É conhecer as personagens com mais pormenor, é pensar com elas sobre o que se está a passar, que me leva a ficar mais ligado aos livros. Ao contrário do que aconteceu a primeira vez que li os livros, já não me esqueço de qualquer personagem, já não me esqueço das histórias que contam, não me esqueço das pequenas cenas. Ver o anão Tyrion (uma das minhas personagens favoritas) a tecer os seus planos, a prevenir-se para o que aí virá, e a falar com os vários membros do Conselho, cada um deles com os seus pequenos esquemas (temos de estar muito atentos para os conseguirmos apanhar) empolga-me mais do que uma batalha. Continuo a adorar quando Martin nos dá a conhecer um pouco mais da história com milhares de anos deste mundo fantástico que ele criou. Cada vez mais me apaixono por algumas personagens. Continuo a ler a estudar esta saga. Por essas razões, A Fúria dos Reis foi a leitura extraordinária que não tive antes.

O meu único desagrado tem apenas a ver com aquilo que eu gostaria de já saber e ler, coisa que o autor só deve dar muito, muito mais à frente. Muitos dos mistérios e perguntas que o autor levantou no primeiro livro são completamente esquecidos neste livro, dando lugar à Guerra Civil que está a acontecer. Há poucos ou nenhuns flashbacks que ajudam a adensar as várias "teorias de conspirações" que nós leitores tanto gostamos, e facilmente nos esquecemos das perguntas colocadas à volta de alguma personagem (e que são os grandes segredos da série) porque há maior preocupação naquilo que está a acontecer no momento ou que vai acontecer. Também é um livro que se debruça demasiado nas mesmas personagens (não que me queixe demasiado porque os capítulos da Arya e de Tyrion, de longe os mais abundantes, são os meus preferidos). Enfim, pouca coisa de novo.
Por isso, tenho um pouco de medo que o autor se vá estender demasiado na sua história e adicionando mais e mais problemas para que só no último livro nos revele as perguntas que foram colocadas logo ao início. Enfim, desde que nada seja em vão, continuemos.


Quinta-feira, 14 de Junho de 2012

Releitura de "A Muralha de Gelo", de George R. R. Martin

Sem fôlego. É assim que continuo a ficar depois de ler "A Muralha de Gelo". É a terceira vez que leio o livro e fico sempre sem respiração, de tal forma os acontecimentos se desenrolam. Os últimos capítulos são não só de uma velocidade estonteante, com situações que mudarão o decurso de toda a história e das suas personagens, como estão muitíssimo bem escritos.

Nesta segunda parte do primeiro livro (A Game of Thrones, no original, que foi dividido em A Guerra dos Tronos e A Muralha de Gelo cá em Portugal), já estamos bastante familiarizados com os Sete Reinos e os seus intervenientes. Agora assistimos às consequências do primeiro livro: uma nova guerra. Com muitas, muitas surpresas pelo caminho. Surpresas chocantes aliás. Para o primeiro livro de uma série, é talvez o mais chocante que alguma vez foi escrito. A fama do escritor já é bem conhecida: não é nada misericordioso com as suas personagens.

Apesar dos acontecimentos presentes, as partes do texto que remetiam ao passado, à altura em que os Targaryen ainda reinavam, no início da Guerra do Usurpador, continuam a ser os que mais me atraem. Talvez porque já conheço todas as surpresas, estes flashbacks são essenciais para vir a descobrir a verdade que o autor provavelmente só revelará nos últimos livros. Aqui e ali vamos identificando algumas pistas que me levam a crer que Martin sabe como o sétimo livro irá acabar.

Para além da guerra nos Sete Reinos, Daenerys, herdeira Targaryen, continua a sua vida no outro continente, e desta vez tem um crescimento muito grande. Aliás, os seus últimos capítulos são emocionantes (dos mais bem escritos para mim) e torna-se uma personagem completamente diferente, não uma rapariga mas sim uma mulher mais forte, mais ambiciosa, a verdadeira Herdeira dos Dragões.

O livro chama-se "A Muralha de Gelo", mas não por alguma razão em especial. Jon, o bastardo Stark, assume o seu destino nessa Muralha e aquilo que se encontra para lá dela parece estar cada vez mais próximo. A magia continua a ser apenas uma lenda, algo desaparecido há milhares de anos, mas tudo indica que no futuro isso deixe de ser assim.


Talvez porque já conhecia o que ia acontecer neste livro (e, acreditem, acontece muita coisa, muitas reviravoltas e muitas cenas de cortar a respiração!!!), acabei por me sentir mais envolvido por outros elementos. As cenas de guerra pouco me chamaram a atenção, ao contrário por exemplo das conversas entre as várias Casas e os seus planos. Talvez por isso sinta que a primeira releitura foi ligeiramente melhor do que esta. Como já referi, continuo bastante interessado pelos acontecimentos passados, que Martin dá a entender serem cruciais para entender a história e o que poderá vir aí. De qualquer forma, encontro-me viciado nesta saga. Leio As Crónicas de Gelo e Fogo como se estivesse a ler uma história e, ao mesmo tempo, como se estivesse a estudá-la. O que me deixa mais empolgado, o que me põe verdadeiramente em pulgas, é saber que ainda há tanta coisa que vem aí e querer ler os livros o mais rapidamente possível, não consigo aguentar a excitação de saber o que acontecerá no futuro (continuo, contudo, a estar a reler os livros até ao quinto).


Domingo, 3 de Junho de 2012

Releitura de "A Guerra dos Tronos", de George R. R. Martin

É a terceira vez que leio esta obra épica fantástica. A primeira vez que li (há quatro anos) ainda não havia série televisiva, ainda nem sequer se falava de tal ideia e o livro não era tão popular (em Portugal) como é hoje. Já era bastante popular na blogosfera, o que me deu o empurrão necessário para pegar nele. Como fã de Literatura Fantástica, "As Crónicas de Gelo e Fogo" foram uma grande novidade e realmente diferentes do que tinha lido até aí.

Entretanto, com o avançar da série, confesso que perdi o entusiasmo. O terceiro livro não foi tão empolgante quanto os primeiros dois (terceiro em Portugal, que decidiu dividir os livros originais em dois), o que fez com que perdesse aquela chama que me atraía para a leitura. Para além disso, o número de personagens desta série é avassalador: cheguei ao quinto livro sem me lembrar de metade das personagens, algumas delas pelos vistos importantes.
Felizmente, tive o bom senso de parar de forçar a leitura. Passado um ano, li pela segunda vez o primeiro livro. Em boa hora o fiz! Achei a releitura muito mais empolgante (embora tenha ficado pelo segundo livro).
Com a série televisiva (neste momento na segunda temporada), decidi voltar a pegar nesta série e lê-la até ao último livro publicado (dez livros, em Portugal). Como é óbvio, voltei a pegar em A Guerra dos Tronos, o primeiro livro, não só para me lembrar das suas personagens e trama mas também para fazer algumas comparações com a série (que está absolutamente fiel ao livro!).

Parece-me que quantas mais vezes releio os livros, mais gosto deles. A Guerra dos Tronos é uma magnífica introdução a um mundo medieval onde a magia não é mais do que uma lenda (embora presente), com cidades formidáveis, terras sem fim, histórias encantadas dos Tempos Antigos e personagens fascinantes que temos o prazer de seguir. Estas personagens são reis e rainhas, príncipes e princesas, cavaleiros e conselheiros, pretendentes ao trono dos Sete Reinos e povos das várias terras e cidades. Todos entraram na História destes Reinos (e na história que este livro conta) quando, há quinze anos, a dinastia dos Dragões caiu e Robert Baratheon subiu ao trono depois de uma guerra sangrenta.
Mas a subida do novo rei nada resolveu. Quinze anos depois, cada Casa conspira a seu próprio favor, e todos têm segredos que podem levar a uma nova guerra. Os herdeiros da dinastia dos Dragões preparam-se para reconquistar o seu Trono de Ferro; a rainha e a sua família escondem segredos e engendram planos cuja motivação nos é desconhecida; Eddard Stark, amigo do rei, é convidado a ser braço direito do Rei depois do anterior ter morrido em circunstâncias muito misteriosas, e arrisca a sua vida, e da sua família, quando decide descobrir a verdade. Ninguém pode confiar em ninguém, o leitor não sabe em quem confiar também, e não conseguimos antever o que vem aí. Só temos a certeza de que o mistério é o principal ingrediente deste livro e o passado não ficou enterrado.

Creio que, depois de mais uma leitura do livro, posso afirmar que conheço muito bem cada personagem e é difícil voltar a esquecer-me delas, mesmo das mais secundárias! É um livro muito fácil de ler, viciante, que nos arrasta ao longo das páginas, sempre na ânsia de descobrir o que se passa. George R. R. Martin tem um dom e não o desperdiça nesta saga, que já é uma obra intemporal na Literatura Fantástica. Com personagens cativantes (um anão, príncipe real, boémio, sarcástico mas muito sábio; a princesa da Dinastia dos Dragões, inocente, longe de casa, mas cuja importância promete aumentar; um bastardo de Stark, que decide ingressar na Patrulha da Noite, que defende o limite norte do Reino, o "fim do mundo"; as filhas e filho de Eddard Stark, tão diferentes entre si, mas cuja motivação poderá ter grande importância no futuro; o próprio Eddard Stark, na sua busca pela verdade no meio de uma corte feita de conspirações, e a sua mulher, determinada a proteger os seus filhos), é através dos seus olhos que vamos descobrindo um enredo que nos promete deixar de boca aberta.

Esta é uma obra a ser lida. Preparem-se para amar e odiar, para não pensar noutra coisa senão nesta série, preparem-se para ficar abismados e delirar. Para quem não é fã de Fantasia, não se preocupem: este livro, estas personagens, são de tal forma reais, e a magia está tão ausente, que custa a encaixar a obra nesse género.


Segunda-feira, 23 de Abril de 2012

A Possibilidade de Uma Ilha, de Michel Houellebecq

Um romance que é um relato da vida de Daniel, humorista de sucesso que está a envelhecer e que evoca os seus amores e o encontro com os adeptos de uma seita secreta que, prometendo a imortalidade através da clonagem e de manipulações genéticas, acabará por se impor como a religião do futuro. Este relato de vida é comentado, mil anos mais tarde, por Daniel24 e Daniel25, dois dos seus clones.
Um livro que mistura de forma magistral e provocadora, a narrativa filosófica e a meditação sobre as misérias inerentes à condição humana. Duro e ácido, como merecem os nossos tempos, mas que nos diz, contudo, que existe sempre "a possibilidade de uma ilha".

É difícil encontrar autor mais polémico actualmente. Amado por uns, odiado por outros, não há um meio termo. Alguns vêem-no como um génio, um observador da sociedade e da condição humana; outros vêem-no como um puro provocador, vulgar escritor de pornografia, racista.
 Eu pertenço às pessoas que o vêem como um génio. Este homem consegue ver o mundo de uma forma que ninguém tem a coragem de fazer. Sim, é provocador, sim, recorre muito frequentemente à sexualidade, à obscenidade, por vezes com desprezo por certas pessoas. Mas de que outra forma seria possível mostrar aquilo que quer? A crua realidade de que é feito o humano, das suas limitações, das suas ambições, da sua decadência. Houellebecq é puramente genial na sua observação crua à nossa espécie, e isso é tão visível neste "A Possibilidade de Uma Ilha" (cujo título, aliás, remete para uma certa "esperança", sentimento que, chegamos à conclusão, é a verdadeira essência do que faz de nós humanos).

Daniel é uma personagem curiosa: apesar de humorista, apesar dos seus sketches serem todos provocativos, apesar de acreditar que tudo se resume a sexo, é um sentimental. Um terrível sentimental, um amante, que procura tanto o sexo como o amor. Ao longo do livro percorremos a sua vida e as suas divagações, até atingir a meia-idade: essa idade terrível, em que o corpo começa a trair-nos, em que o sexo já não é fácil e em que encontrar o amor é cada vez mais improvável.
Ao mesmo tempo, lemos a narrativa de dois dos seus clones, dois mil anos depois. Estes clones são neo-humanos, um estádio evolutivo posterior ao humano, e portanto muito diferente da nossa psicologia. É com a sua narrativa que vai ser possível olharmos para o cinismo de Daniel e perceber que por detrás do desprezo pela condição limitante da nossa espécie, está aquilo que faz de nós únicos, diferentes, admiráveis. Depois de escrever este livro, não consigo perceber como é que há pessoas que julgam que Houellebecq tem o maior desprezo pela raça humana.

É muito difícil ler um livro que praticamente nos diz que a vida a partir dos 50 anos não é vida digna. Para quem é jovem, acaba por matar quaisquer perspectivas para o futuro. Para quem já tem essa idade, suponho que obriga a fazer uma introspecção muito dolorosa. Contudo, não encontrei ainda livro que melhor ilustre a condição humana actual, e aquilo para o qual tendemos a evoluir. Pode parecer algo cínico, mas em boa verdade é a realidade que não queremos admitir. O efeito que as pessoas têm sobre nós. Sobretudo o efeito que nós temos sobre nós próprios. Houellebecq não fecha os olhos à realidade dos anos, à decadência do corpo, à perda da tensão sexual juvenil. A nossa psicologia gira toda à volta da ideia de que um dia vamos querer sentir aquilo que já não sentimos. Vivemos tentando atrasar a morte; vivemos tentando prolongar o prazer; vivemos procurando um equilíbrio. E seguimos qualquer fé que nos prometa tudo isto... (não falta nada neste livro, até discussão sobre a religião!)

Não será o livro mais ácido do autor, parece-me. Pareceu-me até bastante sentimental! O amor é um tema muito procurado nas suas páginas. De certa forma, depois de conhecermos os neo-humanos percebemos o quão gloriosos nós somos nas nossas limitações, nas nossas procuras, na nossa esperança. Fora alguns termos que remetem a correntes filosóficas que o leitor pode não conhecer, acho que o livro até se lê bastante bem. Sim, não digo que tenha sido uma surpresa, mas sem dúvida um dos melhores livros que me lembro de pegar, pelo menos nos últimos tempos.


Domingo, 8 de Abril de 2012

Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac

"Havia em redor um ar de mistério. O carro rolava numa estrada lamacenta, elevada sobre os pântanos, que aluía de ambos os lados e deixava pender gavinhas. Ultrapassámos uma aparição: um negro com uma camisa branca que caminhava com os braços levantados para um céu de tinta.
Talvez rezasse ou invocasse uma maldição.
Passámos que nem setas a seu lado; voltei-me para olhar através do óculo traseiro e ver os seus olhos brancos."

Voltei, voltei com mais uma grande leitura!

Apesar de uma pequena febre pelo ciclo arturiano, depois de ter lido o pequeno livro "Tristão e Isolda" percebi que talvez fosse perigoso avançar para outro livro extensivo sobre a lenda de Artur e acabar por me cansar.
Avancei portanto para um livro que já tinha há muito tempo guardado na estante e para o qual tinha grandes expectativas.

Quem me acompanha há algum tempo certamente vai-me conhecendo. E mesmo aqueles que estão a chegar agora aqui, facilmente vão conseguir conhecer-me. É impossível não colocar um pouco de nós nas nossas críticas (afinal, não estou aqui a avaliar propriamente a qualidade do livro, estou sim a transmitir aquilo que EU senti durante a leitura) e facilmente descobrimos com que pessoa estamos a lidar quando conhecemos os seus hábitos de leitura e os seus livros preferidos.

Este é um livro impossível de falar sem falar sobre o leitor. O que ao início pode parecer contraditório. Este é um livro muito especial. É um livro autobiográfico. É um livro sem enredo. É um livro que não precisa de um leitor para acontecer. Mas é um livro sobre uma geração, sobre um grupo muito específico de pessoas, e os próprios ideais do leitor vão afectar a sua leitura.

Eu sou uma pessoa muito idealista. Não, não acredito em todos os seres mágicos e que o mundo amanhã pode-se transformar na Terra do Nunca. Gosto, sim, da vida que Kerouac nos apresenta: espíritos livres, sem amanhãs, tentando viver tudo até à exaustão. A ideia de que a vida é o presente, de que não nos devemos retrair mas sim ir sempre em frente. Portanto, as expectativas para este livro eram enormes.

Escrito nos anos 50, conta a experiência do autor (no nome de Sal Paradise) pelas estradas da América, numa aventura sem fim onde o que conta é a viagem e não o destino, acompanhado do seu amigo Dean Moriaty, a personificação perfeita do espontâneo, da aventura, da paixão por tudo que exista, a loucura da vida em pessoa. Juntos conduzem por uma América vibrante, inspirados pelo jazz e o bop, o amor, a bebida e as drogas. O livro inspirou a chamada "Geração Beat", pessoas que rejeitaram a sociedade comum para se dedicarem à pura experimentação, a nível sexual, criativo, pessoal. O grito de liberação e expressão pessoal pelo qual por vezes somos atacados.
São os boémios puros, vistos por alguns como obscenos, imorais, mas no fundo são precisamente pessoas "vencidas" pela vida que procuram um sentido para a sua vida, aparte das limitações que uma vida na sociedade provoca.

Acho curioso lembrarmo-nos de "Revolutionary Road", que se passa exactamente na mesma época. Talvez ambos os livros sejam a mesma história, mas contadas de maneira diferente. No caso de Kerouac, é a perspectiva daqueles que viveram o espírito Beat. No caso de Yates, temos a perspectiva daqueles que acabaram por se deixar prender pela sociedade, impedidos de exteriorizar o seu espírito Beat.
Talvez todos devamos, em determinada altura da nossa vida, ter estas experiências. Enquanto somos jovens sobretudo, talvez devêssemos reservar algum tempo da nossa vida a deixarmo-nos perder, deixarmos que a estrada nos leve e conhecer o mundo como Sal e Dean o conheceram.

Como disse, o livro não tem enredo propriamente. Está dividido em várias partes, cada uma correspondendo a uma viagem que Sal (o próprio autor, narrador na primeira pessoa) realiza, sendo a maioria com Dean a seu lado. O livro é apenas o testemunho de uma experiência, uma grande experiência. O número de personagens com as quais eles se cruzam é enorme, o que foi no meu caso a minha maior dificuldade. Foi-me difícil lembrar das personagens todas. Até mesmo no fim precisei de voltar atrás para me lembrar do impacto de cada personagem nas viagens de Sal e Dean.

Sendo um "testemunho", não está escrito com qualquer pretensão. Certamente alguns vão achar mais fácil de ler do que outros.

Eu adorei. Cheguei ao fim a querer ser um Dean, esse demónio da vida. As noites a suar ao som do saxofone, conduzir por estradas intermináveis, a espontaneidade, é um sonho.
Infelizmente, o sonho de "Pela Estrada Fora" pertence ao passado. Quem é que hoje em dia seria capaz de andar à boleia por um continente inteiro? Como seria possível sobreviver sem dinheiro no bolso? O tipo de vida mudou, a sociedade mudou. Há tantos hábitos, tantas situações, que actualmente são impraticáveis.
E, já agora, quem não é da América convém ter um atlas ao lado.

Quarta-feira, 7 de Março de 2012

Tristão e Isolda, de Joseph Bédier

A missão do cavaleiro Tristão é muito simples: tem de viajar até à Bretanha e levar consigo Isolda a Loira, uma bela princesa que deverá casar com o Rei Marco da Cornualha. Mas um desafortunado incidente faz com que Tristão e Isolda bebam uma poção do amor e fiquem irremediavelmente apaixonados. Juntos, deverão enfrentar a ira do Rei Marco, fugirão pelas terras da Cornualha e demonstrarão a todo o mundo a força do seu amor.


Joseph Bédier, um dos romancistas mais importantes do século XX, popularizou a história de amor entre Tristão e Isolda ao escrever esta novela, que reunia todos os detalhes da lenda numa só obra.

Bem, não podia esperar por continuar a minha aventura medieval pois não? Decidi, antes de avançar para "A Morte de Artur", pegar neste pequeno livro, que fala de uma lenda que é referida brevemente em "O Rei Que Foi e Um Dia Será", já que Tristão deverá pertencer à Távola Redonda.


O livro apresenta a lenda completa, sem resumos. O estilo de escrita é tipicamente do século passado, com um narrador sempre do lado dos apaixonados, como um singelo trovador. É mais uma tragédia, que na verdade se assemelha muito à própria história de Artur, Lancelot e Guinevere. Por isso mesmo, acho que vou ler mais um ou dois livros antes de avançar para a obra de Malory (tenho medo de me aborrecer, já que vai ser mais uma repetição da história).

A lenda repete-se. É como um ciclo: Tristão e Isolda apaixonados, alguém tenta desmascará-los perante o rei Marco, eles safam-se. A cena repete-se ao longo do tempo. O rei Marco acaba por ser a personagem mais interessante, dividida entre o amor que nutre por ambos e o direito que tem sobre a mulher.

Uma novela medieval. Não é difícil de acompanhar, mas não me empolgou por aí além. A lenda tem as suas cenas fascinantes, únicas, e chegamos ao fim relembrando amores como Romeu e Julieta. Foi sobretudo um livro para finalmente ficar a conhecer esta lenda tão famosa. Pouco mais.