Neste seu primeiro romance, o psiquiatra Augusto Cury narra a trajectória de Marco Polo – não o navegador e aventureiro veneziano do século XIII, mas um jovem que embarca na grande aventura que é a vida.
Marco Polo é um estudante de Medicina, um espírito livre cheio de sonhos e expectativas. Ao entrar para a faculdade, é confrontado com uma dura realidade: a da insensibilidade e frieza dos seus professores, que não percebem que cada paciente é, mais do que um conjunto de sintomas, um ser humano com uma história complexa e única de perdas e desilusões. Indignado, o jovem desafia profissionais de renome internacional para provar que os pacientes com perturbações psíquicas precisam de mais que remédios e diálogo – precisam de ser tratados como pessoas, como iguais. Numa luta constante contra a discriminação, Marco Polo vai provocando uma verdadeira revolução de mentalidades...
Já há algum tempo que procurava este livro e finalmente comprei-o por uma pechincha na Feira do Livro (num alfarrabista. Não, eles não têm só livros do século passado, têm até livros bastante recentes, usados mas em excelente estado, e mais baratos!!). Creio que desde que saiu (2005) que criei as minhas expectativas em relação a este livro. O título é muito apelativo (eu próprio sou um pensador) e as críticas têm dito maravilhas do livro.
Marco Polo é um estudante de Medicina invulgar: prefere olhar para as pessoas do que para a Anatomia, especificamente. Tentado conhecer as pessoas que os cadáveres nas aulas de Anatomia foram, acaba por travar amizade com um sem-abrigo, que se revela um autêntico génio da vida.
Mas este é só o princípio do livro. Trata-se, de facto, de uma saga, desde que Marco começa a faculdade até muitos, muitos anos depois.
Infelizmente, não me encheu as medidas, como esperava. Estava à espera de um livro que discutisse a Psiquiatria e a Psicologia, o Ser Médico, o Ser Pessoa e o Ser Doente, muito mais actualizado aos tempos de hoje (o livro foi escrito em 2005). Ter-me-ia marcado muito mais se o livro tivesse sido escrito em 1975, quando saiu "Voando Sobre um Ninho de Cucos" (com Jack Nicholson e Louise Fletcher).
Parece-me que o escritor se baseia num apanhado de estereótipos no mundo psiquiátrico (o doente maluco, o médico técnico, até o sem-abrigo inculto), reunindo assim uma história que tenta emocionar qualquer um. Com o passar da leitura fui-me deixando embrenhar cada vez mais nas simpáticas personagens criadas, e confesso que foi capaz de mudar ligeiramente a minha mentalidade. Conseguiu-me fazer ver a vida de uma outra forma, sentir a vida da maneira que tenta pregar. Mas, por muito que o livro discuta um bom tema, por muito que seja a dose filosófica e "life changing" presente (que eu gosto), por muito que me tenha agradado o fim, não consigo deixar de olhar friamente para o livro.
De facto, temos muitas situações de médicos que não vêm a "pessoa" mas sim o "doente", que receitam medicamentos sem saberem o contexto cultural do paciente, empresas farmacêuticas que fazem de tudo para vender esses fármacos. Mas não vivemos em meados do séc. XX. No séc. XXI dá-se MUITA preocupação à formação do médico não apenas como técnico de saúde, mas também como educador, agente de progresso. Há uma preocupação na relação médico-doente e na comunicação. A medicina cada vez mais é feita "para" a pessoa, "pela" pessoa e "com" a pessoa. Este livro parece apresentar uma mentalidade já muito distante. Absolutamente fora do tempo, e que acaba por parecer algo pretencioso.
A escrita consegue ser lindíssima e muito, muito poética. Talvez por isso se torne demasiado artificial. O autor (também ele médico) expressa as suas personagens numa linguagem tão poética, tão florida, que muito rapidamente parece algo artificial.
O enredo por si é um pouco forçado, e mais uma vez descura a realidade presente (demasiadas coincidências, demasiados "clichés"), mas suponho que foi o necessário para que conseguisse transmitir os seus pontos.
Honestamente, gostava muito mais de ter lido não-ficção de Augusto Cury. Talvez nesse caso admirasse de facto o trabalho feito. Como ficção, acaba por cair numa certa artificialidade e estereótipos deslocados da mentalidade do séc. XXI. Não quero dizer que certas situações não sejam bem apontadas, mas no geral acaba por fornecer uma imagem exagerada.
Contudo, não deixou de mudar a minha visão do mundo. Quando pomos o livro de lado, é impossível não olhar para além do material, para além de toda a sociedade onde nos inserimos. Sim, o livro marcou-me!! Os ideais corresponderam às minhas ideias!! Mas talvez tivesse o mesmo resultado num livro de não-ficção, e literariamente talvez me agradasse mais.
Nome de Código: Leoparda, Ken Follett
Há 4 horas

































