sexta-feira, 28 de junho de 2019

25 de Abril, Corte e Costura, de João Cerqueira

Celebram-se os 40 anos da revolução. A Direita propõe uma tourada, a Esquerda um desfile gay. Entretanto, chegam à cidade um antigo inspector da PIDE decidido a acabar com a festa, um toureiro espanhol que sonha com a União Ibérica, um guru tarado sexual e as Brigadas Indignadas com a missão de fazer explodir uma bomba.

"O estilo de João Cerqueira é irreverente e cheio de humor para o leitor sofisticado" Reader's Favorite

"A Escrita de João Cerqueira é altamente recomendável para quem gosta de histórias alternativas. A não perder!" Midwest Book Review






João Cerqueira é dos poucos escritores a quem imediatamente acedo ler um novo livro seu. Gostei imenso da experiência absurda de A Tragédia de Fidel Castro e A Segunda Vinda de Cristo à Terra continuou a ser uma leitura com muito humor e perspicácia à mistura. Esses dois livros aconselho.

Este 25 de Abril é no entanto um tiro completamente ao lado.

A história passa-se na cidade de Augusta (fictícia), que quer festejar os 40 anos do 25 de Abril em grande. O problema é que ninguém se decide como é que o querem fazer: a Direita política quer uma tourada, a esquerda política um desfile gay e um teatro histórico, e o presidente da Câmara tem as suas próprias ideias revolucionárias; para se juntar à festa, um antigo inspector da PIDE quer acabar com os valores de Abril, o toureiro quer uma Ibéria unida, um casal quer abalar o sistema económico, um guru sexual quer doutrinar a cidade, e um artista plástico quer exibir a sua própria versão de Abril.

Como é que isto se vai resolver? Quem vai conseguir fazer a sua revolução?

Os ingredientes para uma divertida salganhada estão todos lá. Faltou misturá-los devidamente e cozer a massa.


João Cerqueira aproveita para satirizar todo o mundo moderno português, desde os grandes poderes às pequenas pessoas, todos os extremos e todos os centros, e quiçá aí está o seu primeiro erro: se queria uma sátira tão abrangente (onde de facto ninguém é poupado, e a ideia é ambiciosa), não o deveria ter feito num livro tão pequeno.
O escritor perde-se na necessidade que sente de apresentar exaustivamente tantas personagens e tantas perspectivas. No fim, o que temos é isto: um livro que começa a apresentar a sua panóplia de personagens, uma de cada vez. Quando finalmente já não há mais introduções a fazer, o livro acaba. E pronto, assim uma ideia relativamente ambiciosa cai numa comum amenidade e discrição, sem uma história que faça comichão.

Mas as personagens são pelo menos interessantes o suficiente para justificar esta abordagem? Nem por isso. A maior parte dos protagonistas pouca curiosidade suscita. É esperado que sejam caricaturas, algumas bastante vulgares, num livro de comédia, mas o encadeamento das suas ideologias é bastante forçado, e a interacção entre elas pouco inteligente.

Teve piada pelo menos? Meh. Talvez ver as pessoas a puxarem os cabelos umas das outras não seja bem o meu género de comédia (não, não é mesmo), mas esperava uma comédia mais inteligente.

O final deste tipo de livros é sempre muito complicado. É difícil de concluir uma história com tantas linhas que prometeu abordar tanta polémica. Infelizmente, acho que de facto falha em elevar-se. Não é uma conclusão descabida ou fora de série, mas não surpreende nem perdura. É uma coisinha muito discreta e previsível, e não compensa ter aturado as páginas anteriores.

Um livro que parece querer afirmar-se como "desperto", atento às discordâncias de Abril e do mundo social e político dos nossos dias, mas que acaba por ser um chorrilho de personagens que andam por ali, uma quantidade de divagações que mesmo sendo correctas e atentas estão bastante forçadas no discurso todo, e nada fica connosco.


Com muita pena minha, uma perda de tempo. Este escritor já me fez rir, já me surpreendeu. Desta vez não.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

10 livros que sempre quis muito muito ler mas ainda não calhou

O blogue nlivros, veterano nesta blogosfera literária e cujo autor é um querido amigo cibernáutico, lançou uma nova rubrica: chama-se "10 livros..." e promete ser uma forma divertida de se dar a conhecer através de uma lista de 10 livros sobre diferentes temáticas. Já podem ler os seus "10 livros favoritos" e mais recentemente os "10 livros que sempre quis muito muito ler mas ainda não calhou". É também uma excelente oportunidade para irmos tirando dicas!

Fui desafiado a fazer a minha própria lista de 10 livros que sempre quis ler mas nunca calhou. E aqui está ela (desculpa a demora Miguel, mas cá está!).

Hoje começa a Feira do Livro, portanto é a minha forma de o celebrar (e quem sabe de tentar comprar alguns destes livros).

A ideia é um mimo, e por alguma razão nós leitores adoramos listas! Mas seleccionar estes livros é efectivamente mais difícil do que pensava. A verdade (agora vou contradizer-me um bocadinho) é que vou-me esquecendo de muitos desses livros... Até ao dia em que me cruzo com eles de novo.
Portanto, como sempre, esta não será uma lista fixa, e quiçá existe algum livro de que me estou a esquecer que devia estar aqui, mas estes de certeza são alguns dos que sempre quis muito muito ler, mas nunca calhou.



As Benevolentes
Um calhamaço verdadeiramente assustador, com letras pequeninas e tudo. É uma autobiografia fictícia de um oficial nazi, que promete explorar as atrocidades do Holocausto e a condição humana aos olhos desse vilão. O livro tem sido amplamente discutido, é considerado um clássico moderno e parece ser extremamente complexo, não na sua história mas sim na captura das estranhas motivações do ser humano. Lembro-me de quando foi publicado em Portugal, e sinceramente não tinha interesse nenhum (porque suspeito que possa ser tão aborrecido quanto parece). Mas depois comecei a pegar nele e, o que querem que diga, tenho um fraquinho por calhamaços.


A Divina Comédia
Fora o facto de ser um clássico da Literatura Mundial, acho a edição portuguesa traduzida por Vasco Graça Moura muitíssimo bem tratada. E por vezes isso basta para querer pegar num livro.







Baudolino
Não é certamente o livro mais popular de Umberto Eco, nem parece ser o mais aplaudido. Também é verdade que ainda não li um livro deste afamado escritor, e O Nome da Rosa poderia muito bem figurar nesta minha lista também. A verdade é que lembro-me de Baudolino desde muito jovem, de vê-lo nas estantes da biblioteca da escola, sem alguma vez ter pegado nele, e o bichinho atrás da orelha cá ficou. Talvez fosse mais inteligente ler primeiro o clássico O Nome da Rosa. Mas é difícil contrariar aquela curiosidade que vem de menino.


Metamorfoses
Eu tenho este livro cá em casa, e isso sim é chocante. E gostaria imenso de pegar nele, mas é um clássico da Antiguidade que parece exigir uma boa dose de dedicação e ainda não me senti disponível para o atacar. É um livro com centenas de histórias da mitologia grega, e quero de facto dedicar toda a minha atenção a cada uma. Portanto, continua aqui, ao meu lado, à espera que eu respeite as suas exigências. (e atenção, poderia muito bem servir de "livro de cabeceira", daqueles que se vai lendo um bocadinho de cada vez, mas eu ainda não funciono com esse ritmo de leitura).


Istambul
Mais um livro que tenho cá em casa... Aliás, a minha paixão por Orhan Pamuk é, devo dizer, perfeitamente infundada: nunca tinha lido nada dele quando comprei não um mas quarto livros dele! Pura e simplesmente porque durante uns tempos andei absolutamente fascinado por Istambul, de onde o escritor é natural e onde se passam grande parte das suas histórias. Li Uma Vida Nova e gostei muito, sem se ter tornado um dos meus livros preferidos (a escrita e a atmosfera são muito pesadas, mas a conclusão foi para mim brilhante na altura). Este Istambul é um livro de um escritor e de uma cidade pelos quais tenho um estranho fascínio (e tal como ainda não li muito de Pamuk, também nunca visitei Istambul). Ainda não peguei propriamente nele porque, mais uma vez, não calhou, e porque de facto a escrita de Pamuk não é a mais convidativa.


Quando Nietzsche Chorou
Sinceramente, um daqueles livros sobre o qual não sei absolutamente nada, nem quero saber, porque sempre quis imenso lê-lo e vou gostar de ir sem quaisquer expectativas. Ainda não calhou porque, como quase sempre, outros livros se puseram à frente no carrinho de compras.


Assim Falava Zaratrusta
E se falo de Nietzsche, não posso deixar de falar de um dos clássicos filosóficos do escritor. Das minhas aulas de Filosofia, muitos foram os livros que apontei para ler, mas este mantém-se como aquele que mais me chama a atenção.





Os Miseráveis
Este quase que se explica a si próprio: é uma das maiores obras da Literatura Mundial, amplamente conhecida, nem que seja pelo popular musical, o qual aliás já tive o prazer de ver em West End, em Londres, e adorei. Por isso mesmo, mas posso esperar pelo dia em que vou ter tempo suficiente para o ler.


O Elogio da Sombra
Um ensaio que me parece belíssimo sobre o simbolismo da sombra na cultura nipónica e a discrepância com a cultura ocidental da luz. Conheci este livro a partir de um pequeno curso que fiz sobre História Japonesa e desde então quero muito ler. Sem o ter lido, deixo aqui como sugestão para quem tenha interesse em compreender melhor alguns elementos da estética da cativante cultura japonesa (e não estou a falar dos animes ou das metrópoles, este livro foi escrito no início do séc. XX, ainda antes da invasão dos EUA, quando ainda se lutava pelos valores tradicionais japoneses).









Fogo do Céu
É o primeiro livro de uma trilogia de ficção histórica sobre Alexandre O Grande. É um clássico esquecido, mas não por mim. Apesar de supostamente apresentar um Alexandre demasiado perfeito, é bastante aplaudido pela exactidão histórica da sociedade grega da época. Também um livro que conheço desde muito jovem mas que nunca calhou comprar.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

A Vida de Pi

«Uma fabulosa incursão por uma imaginação a um tempo arrebatadora, astuta, desesperada e inabalável, este romance é uma obra impressionante. Martel revela uma voz inteligente e um espantoso talento para contra histórias.» Publishers Weekly

Filho do administrador do jardim zoológico de Pondicherry, na Índia, Pi Patel possui um conhecimento enciclopédico sobre animais e uma visão da vida muito peculiar. Quando Pi tem dezasseis anos, a família emigra para a América do Norte num navio cargueiro juntamente com os habitantes do zoo. Porém, o navio afunda-se e Pi vê-se na imensidão do Pacífico, a bordo de um salva-vidas, acompanhado de uma hiena, um orangotango, uma zebra ferida e um tigre de Bengala. Já considerado uma das mais extraordinárias criações literárias da última década, A Vida de Pi é um livro mágico, onde o real e absurdo se misturam numa história intemporal. Agora, este bestseller de enorme sucesso mundial, cuja adaptação cinematográfica foi durante muito tempo considerada uma impossibilidade, chega finalmente agora ao grande ecrã, pela mão do realizador Ang Lee.



Ora aqui está algo que nunca me aconteceu: sinto-me culpado. Sinto-me teimoso, e sinto que fui muito injusto com este livro desde o início.
Sinto que este livro me deu uma lição de vida, daquelas que nos fazem baixar as orelhas porque fomos orgulhosos demais e pensávamos que sabíamos melhor. Nunca acabei uma leitura a sentir-me assim.
E não, não tem nada a ver com "carpe diem" ou "acredita no Destino". Tem a ver com "lê até ao fim antes de te armares em esperto".

A história começa com Pi a apresentar-se. É filho do dono de um jardim zoológico na Índia, e bastantes páginas são autênticas dissertações sobre comportamento animal. 
Mais tarde, descobre as manias e histórias de cada religião e decide ser hindu, muçulmano e cristão ao mesmo tempo, e ninguém percebe muito bem porquê.

Assim se passam sensivelmente cem páginas do livro. Cem páginas a coçar a cabeça, a tentar perceber porque é que tantas pessoas gostaram do livro. As particularidades dos animais chegam a ser exaustivas e sem qualquer interesse, para além de nem sequer concordar muito com as opiniões do autor sobre a sociologia dos bichinhos. Quanto à religião, que até é um tema sobre o qual gosto de ler, parece cair um bocado de pára-quedas e nem sequer chega a pousar no chão. Ficamos sem perceber para que serviu quase metade do livro todo.
O que vale é que a escrita é bastante simples e acessível, por isso apesar de não ser muito interessante lê-se bem.

Entretanto, por questões políticas, o pai de Pi vende o zoo e a família decide ir viver para o Canadá. Mas a tragédia acontece quando o navio que os transporta afunda. Pi consegue safar-se num barco salva-vidas, acompanhado de um orangotango, uma hiena, uma zebra e um magnífico tigre (que é, como qualquer pessoa já percebeu, o animal mais importante deste maralhal todo). Ao longo das semanas, Pi vai-se safando com uns truques e inteligência de sobrevivente, e de vez em quando lá acontecem uns sobressaltos que abanam a situação dele.

E assim chegamos a duzentas páginas do livro. Desta vez, já não estou tão aborrecido com o livro. É interessante ler as provações de Pi no meio do mar. Sim, ainda me questiono porque raio acham o livro tão impressionante, mas já se percebe os traços de um clássico moderno. Uma espécie de O Velho e o Mar com mais divagações e mais fantasia. A história é muito original. Finalmente percebemos que existe muito simbolismo detrás de Pi, da sua história de sobrevivência, do tigre, do pequeno barco salva-vidas no meio da vastidão do oceano, e é um aspecto principal do livro. Faz-nos pensar um pouco na pequenez daquele barquinho, e isso é bonito de se ler. De qualquer forma, o livro está quase a acabar e não estou nada arrebatado. Sim, reconhecemos que o livro é muito bom, cheio de significado intemporal, mas não entretém muito.

Fico com a sensação de que o livro não começa muito bem, até um bocado confuso, sem ideias bem definidas do que é suposto ser. Parece que estamos perante uma introdução um bocado forçada e que não interessa muito para a história, mas alguma coisa tinha de abrir o livro. Com o avançar da história, parece que o escritor chega finalmente onde quer chegar, com os objectivos mais concretos, e o leitor consegue finalmente perceber algum sentido nesta quase-fábula sobre sobrevivência.

Até que chegamos às últimas cem páginas do livro. E as palavras faltam.
Não quero adiantar muito mais sobre a história, porque isso seria estragar a surpresa que eu próprio tive (graças a Deus fugi do filme). Não estou sequer a falar de grandes revelações ou conclusões. É muito mais profundo do que isso.
É só quando chegamos às últimas páginas do livro que percebemos o quão errados estivémos. Sinto um embaraço enorme por ter sido demasiado crítico. Devia saber melhor. Mas o escritor sabia isso, sabia que eu ia ser teimoso. É por isso que me obrigou a ler duzentas páginas de devaneios. É por isso que no fim dá aquilo que quero. Nós somos tal e qual o jornalista desta história: aturamos conversa da chacha, reviramos os olhos de vez em quando, insistimos em saber a verdade, e no fim ele faz-nos a vontade: ele vai para a frente, até ao fim de tudo (e até aí se distingue de outros livros, que preferem deixar o leitor a divagar nas suas próprias reflexões). E quando sabemos tudo, baixamos os olhos, derrotados pela nossa própria arrogância

E tudo muda. De repente, a história sem sentido das religiões, as aborrecidas teses sobre zoologia, tudo cresce e ganha um novo sentido. Não, não é bem novo, porque esteve sempre lá. Nós é que pensámos que éramos mais espertos. 

Chegamos à última página. Quero chorar com as últimas palavras, e sinceramente nem sei bem de onde vem esta emoção toda. Só há uma coisa a fazer: voltar ao início e reler o livro, porque uma segunda leitura é mesmo obrigatóriaE talvez não nos faça acreditar em Deus, mas está perto.

É um livro especial. Mesmo, muito especial. Mas é preciso ler até ao fim para perceber o verdadeiro simbolismo da Vida de Pi. Se eu tivesse parado a meio, teria achado o livro aborrecido e nunca teria percebido o sentido disso. Teria sido ignorante. É incrível como poucas páginas finais conseguem tornar todo o livro arrebatador.

sábado, 23 de março de 2019

O Amor nos Tempos de Cólera, de Gabriel García Márquez

Desde que li Cem Anos de Solidão que não pego em mais nenhum autor senão Gabriel García Márquez. Por vezes tento, acreditem. Mas não consigo. E não me importa se vou ficar cansado de tanto Gabo seguido, é difícil concentrar-me em outras histórias que não sejam por ele contadas. É amor.

O Amor nos Tempos de Cólera é talvez o segundo grande romance de Gabo (não que ele tenha muitos de qualquer forma). É a história de Florentino Ariza, que se apaixona por Fermina Daza e promete esperar por ela, mesmo que para isso espere a vida toda. E é a história da vida de Fermina Daza, mulher que viverá o amor nas suas muitas formas e pela qual Florentino esperará uma vida inteira.

Dizer que esta é uma bela história de amor eterno é incrivelmente redutor. Aliás, dificilmente esta é sequer uma bela história de amor: é uma história de frustações, de violências, de fidelidades mas também de infidelidades, de teimosias e resignações. Sim, existem serenatas ao luar e cartas de amor; mas isso são apenas os desvarios de um amor adolescente. Depois disso, vem tudo aquilo que faz do amor tudo menos uma história de amor.

Não sei bem qual a reacção da maioria dos leitores a esta obra, mas tenho a certeza que muitos ficarão desiludidos por não encontrar a história apaixonante que a premissa parece apontar. É que não é mesmo nada disso. O livro é um enorme tratado ao amor, em todas as suas estranhas vertentes, e sobretudo aquelas mais complicadas. E conseguir reunir nestas páginas, numa única história, tudo aquilo em que o amor se transforma, é a genialidade que faz de Gabriel García Márquez um dos grandes. É um livro enorme, não há palavras para tão completo tributo à paixão.

Amor... Tão estranho e controverso é que afinal parece outra coisa que não amor. Mas é-lo sempre.
Por cá, não há prova de maior amor do que oferecerem-me a obra completa do Gabriel García Márquez. Fica a dica.

domingo, 28 de outubro de 2018

Memória das minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás."

Prémio Nobel de Literatura, 1982




Li Cem Anos de Solidão, considerada obra-prima deste escritor Nobel colombiano, e ainda estou encantado com o livro. O que decidi então fazer? É claro, ler todos os livros do Gabriel García Márquez.

Felizmente, tenho vários livros dele espalhados cá por casa, por isso decidi continuar a descobrir o maravilhoso mundo de Gabo com este conto, que se lê num dia e tem uma premissa muito curiosa: um velho de noventa anos decide, no seu aniversário, ter uma relação sexual com uma adolescente virgem. Vá, uma espécie de última ceia.

E desde já vamos arrumar o assunto da controvérsia: é uma história de ficção, não uma bíblia nem uma manifesto a defender a pedofilia. Ninguém denuncia um livro sobre dragões porque os dragões não existem. É a mesma situação, é apenas uma história diferente.

Para além disso, se lerem o livro perceberão que o propósito não é levantar uma espécie de controvérsia sexual, mas sim fazer uma belíssima reflexão sobre o amor em todas as idades, a sexualidade e o seu amadurecimento. O velho, perante a rapariga nua e adormecida, apaixona-se, e vai finalmente viver o amor como nunca teve oportunidade de o fazer, depois de uma vida de putas atrás de putas.

É uma história sobre um homem que teima em não envelhecer. E talvez isso não seja tão bonito quanto parece. Recusar a encarar a sua própria velhice é recusar amadurecer. Mas, aos noventa anos, é-lhe dada uma oportunidade de começar de novo, como se agora fosse apenas o início dos próximos noventa anos. Vale a pena aprofundar nesta poética reflexão, que apenas Gabriel García Marquéz poderia escrever tão sem esforço.

E as putas talvez sejam tristes, o seu passado talvez o seja também, mas não senti que esta tivesse sido uma leitura triste. Muito pelo contrário: é um livro que oferece esperança, que procura a felicidade mesmo quando a Morte conta os nossos últimos segundos. É uma leitura feliz.

Não está ao nível de um Cem Anos de Solidão. Também fala sobre solidão, porque afinal é nela que nos guardamos, evitando encarar os espelhos que mostram as rugas, as pessoas que as vêem. Mas está ao nível de um Nobel da Literatura.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

Anna Karenina, de Leão Tolstoi

Se nunca ouviu falar de Anna Karenina... Provavelmente nem sequer está a ler isto. Qualquer leitor que tenha a pretensão de se caracterizar como leitor conhece este enorme clássico, considerado por muitas publicações um dos melhores livros alguma vez escritos (ou mesmo o melhor). Quis perceber porquê, e se concordo.

A minha primeira incursão na Literatura Russa foi com os contos de Gogol, há muitos anos, e adorei (repito, a-d-o-r-e-i). Um Gentleman em Moscovo, que li no início do Verão, apesar de escrito por um americano voltou a despertar a vontade de conhecer mais sobre autores russos, para além de me ter ajudado com alguns conhecimentos básicos sobre a sociedade russa da época. Finalmente, este Verão quis enriquecer um pouco a minha cultura literária lendo mais clássicos (confesso que é raro pegar num). Anna Karenina, há tanto tempo na lista de espera (numa edição de capa dura da Círculo de Leitores, daquelas que os meus pais recebiam em casa e que hoje enfeitam as estantes), foi assim o meu escolhido.



O livro é a história de um triângulo amoroso na alta sociedade russa entre uma mulher, o seu marido e o seu amante. Mas não só. É também a história de um homem em conflito com a sua própria existência e a sociedade à sua volta. É a história de duas cidades, e do campo. É a história de uma mulher em busca do seu papel. E são ainda muitas outras pequenas histórias, abraçando toda a sociedade russa da época e apresentando dezenas de diferentes pessoas, de diferentes mentalidades. Anna Karenina é muito mais do que Anna Karenina. Aliás, Anna Karenina é provavelmente uma das personagens com menos tempo de antena (é a sua influência na vida dos outros a verdadeira protagonista).


É, provavelmente, o livro com as melhores personagens de sempre: Tolstoi expõe os seus pensamentos, as suas motivações, o seu estado de alma, de tal forma complexa, e conflituosa, que é aqui que o seu verdadeiro génio reside. As suas personagens vivem, como se elas próprias tivessem escrito o livro, tal é a forma com que as suas essências são expostas. Creio ser muito difícil encontrar o mesmo exemplo noutros livros.

Ora, o que provavelmente desencanta alguns leitores é que, na verdade, nenhuma das suas dezenas de personagens é particularmente simpática. Por duas razões: por um lado, a sua caracterização é tão completa que também os seus defeitos e manias são expostos, tornando as personagens... Realistas demais. A verdade é que nós humanos raramente somos as melhores pessoas que andam por aí.
Segundo, o livro não é apenas uma história passada na sociedade russa da época, é uma crítica a essa sociedade, e como tal toda a caracterização das personagens encaixa nessa crítica. Basicamente, em todos somos capazes de encontrar alguma forma de hipocrisia, todas as diferentes formas de ver o mundo são satirizadas, apesar de o ser muitas vezes de forma bastante subtil. O livro critica, expõe a hipocrisia da sociedade, revela todos os seus vícios, mas não é uma sátira. E aqui entra a genialidade da escrita de Tolstói, mestre literário que dá voz a essa crítica mantendo-se sempre num tom muito muito realista.

Pelo que, apesar de brilhantemente escrita, apesar da complexidade dos seus protagonistas, das inúmeras reflexões políticas, filosóficas, religiosas e existenciais, na verdade foi-me difícil torcer verdadeiramente por quem quer que seja... Os conflitos são muitos, mas não me senti particularmente ansioso por eles. E isso torna toda a leitura muito menos entusiasmante do que talvez esperamos.

E quando o autor se põe com exortações políticas (num estilo de escrita que claramente não foi feito para quem nada percebe sobre a política russa da época), a leitura torna-se um pouco mais aborrecida. Aliás, as divagações são imensas (uma coisa de qualquer forma bastante vulgar nos grandes clássicos de época), apesar das filosóficas serem muitas vezes repetitivas.

Ainda assim, apesar de extenso, o livro lê-se muito bem, sobretudo porque os capítulos são tão pequenos (acabamos por querer sempre "ler mais um"). Por isso, não se assustem com o tamanho. Não vão encontrar descrições extenuantes, mas sim muitas divagações por parte das suas personagens. Aliás, fiquei surpreendido em ter demorado menos de um mês a ler o livro.


Para mim, este não é o melhor livro de sempre. Aliás, reflectindo sobre o assunto, considero Os Maias, de Eça de Queiróz, um livro ainda superior, com personagens igualmente interessantes (ainda que não sejam exploradas de forma tão complexa) mas com uma história ainda mais envolvente, também atento à situação da época (ainda que não tão transversal a todas as classes da sociedade), e uma escrita ainda mais cuidada, já que não encontrei em Tolstói descrições tão brilhantes quanto as do nosso Eça. Por isso, para mim, o melhor livro de sempre é português.


O livro é, de facto, genial, sobretudo na construção das suas personagens. Acredito mesmo que é até hoje impossível encontrar igual na Literatura Mundial. Mas, genialidade e complexidade à parte, não é envolvente, e a falta de empatia com as personagens não ajuda a tornar esta a melhor leitura de sempre. O melhor livro, talvez, mas a minha melhor leitura não.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Um Gentleman em Moscovo, de Amor Towles


Vyshinski: Qual é a sua profissão?
Rostov: Um cavalheiro não tem profissão
Vyshinski: Muito bem. Então, como é que ocupa o seu tempo?
Rostov: Com jantares, conversas, leituras, reflexão. O habitual.
Vyshinski: E escreve poesia?
Rostov: Já me aconteceu esgrimir a pena, sim.

Por causa de um poema, um tribunal bolchevique condena o conde Aleksandr Rostov a prisão domiciliária. Ficará retido, por tempo indeterminado, no sumptuoso Hotel Metropol. A prisão pode ser dourada. Mas é uma prisão.
Estamos em Junho de 1922. Despejado da sua luxuosa suíte, o conde é confinado a um quarto no sótão, iluminado por uma janela do tamanho de um tabuleiro de xadrez. É a partir dali que observa a dramática transformação da Rússia. Vê com tristeza os magníficos salões do hotel, antes animados por bailes de gala, serem agora esmagados pelas pesadas botas dos camaradas proletários. E vê-se obrigado a negociar a sua sobrevivência, num ambiente subitamente hostil.
Aos poucos, porém, o aristocrata descobre aliados no hotel, com quem partilha o seu amor pelo belo - e a defesa de valores morais que nenhuma ideologia poderá vergar. Faz-se amigo do chef, dos porteiros, do barbeiro, do encarregado da garrafeira, e com eles conspira para devolver ao Metropol a sua antiga e majestosa glória. Ao mesmo tempo, toma sob a sua proteção uma menina desamparada, a quem provará que a vida não se resume à luta de classes.
Amor Towles oferece-nos um dos mais requintados (e melancólicos) romances dos últimos anos.
Uma obra épica, habitada por uma galeria de personagens inesquecíveis e servida por uma escrita de uma elegância cada vez mais rara nas letras contemporâneas.

Melhor Livro do Ano
Chicago TribuneWashington PostPhiladelphia InquirerSan Francisco Chronicle, NPR.


Várias vezes falo sobre expectativas. Não querendo dar a entender que sou uma pessoa demasiado repetitiva ou incapaz de outras divagações, a verdade é que a expectativa é uma grande constante da condição humana. Não há momento das nossas vidas, desde um encontro romântico a um simples dia de trabalho, ao sucesso dos filhos, ao sabor do pão que vamos comer, que não seja antecipado por esse sentimento de promessa, seja ela boa ou má. Todas essas experiências serão ditadas, antes de mais, pela expectativa que lhes é reservada.
Não querendo comparar uma leitura a uma experiência de vida marcante (e, ainda assim, pode marcar-nos ao ponto de mudar as nossas expectativas de futuro), é também marcada pela expectativa e esta tem o poder de tornar um livro algo prazeroso ou algo completamente abominável. Algumas vezes, a promessa é grande: vemos um best-seller com críticas fenomenais e esperamos que seja uma leitura emocionante. E o livro até pode ser muito bom: mas a nossa expectativa era tão elevada que acabamos por nos sentir defraudados.
Depois, há livros para os quais reservamos poucas expectativas. Foi o meu caso neste Um Gentleman em Moscovo. A encadernação está muito gira e é uma surpresa encontrar hoje em dia livros novos a receber este tipo de tratamento (parabéns D. Quixote); os críticos têm reverenciado o livro. Só coisas boas. Ainda assim, não posso dizer que estivesse com grandes esperanças. Em parte, acuso a sinopse na contracapa, que explora mesmo muito mal o que o livro é. Mas ainda bem que assim é, pois vi-me perante uma leitura verdadeiramente deliciosa que me agarrou até à última página noite adentro.

O Conde Aleksandr Rostov é um aristocrata, um exemplo de etiqueta, tradição e gosto pelo charme e elegância que caracterizava a Nobreza. Após a Revolução na Rússia no início do séc. XX, é preso por tempo indeterminado no luxuoso Hotel Metropol. E isso é tudo o que precisam de saber. O livro desenrola-se ao longo dos anos, das décadas, descobrindo pequenas aventuras pelas quais o Conde e o próprio Hotel passam, e encontros com personagens únicas que vão marcando a nova vida do Conde neste mundo dentro do mundo.

Todo o livro é encantador, escrito com uma jovialidade que contrasta com a dura realidade da Rússia na época. O Conde é uma personagem sempre educada, conhecedora das boas maneiras, e facilmente somos atraídos pela sua disposição. De capítulo a capítulo, sem aviso e sem momentos aborrecidos, somos surpreendidos com pequenos gestos que nos provam que há sempre mais a esperar desta leitura, como uma gaveta secreta ou uma história por contar. E é disso que este livro é feito: os pequenos gestos, os encontros, o acumular de pequenas experiências que tornam o Metropol uma existência digna de ser lembrada.

O contexto histórico é, claro, importantíssimo. O nosso Conde, resguardado na sua prisão luxuosa, sofre apenas indirectamente os efeitos da nova Rússia. E mesmo nisso o livro é uma leitura maravilhosa, a fazer lembrar o estilo de O Rapaz de Pijama às Riscas ou A Rapariga que Roubava Livros. A realidade, brutal, é apenas discretamente apresentada, com a ingenuidade inerente àqueles que não a sentem na pele. No caso do nosso Gentleman, apenas percebemos o efeito da História pelas pessoas que passam no Metropol, as mudanças na gerência e nos costumes, nos zunzuns dos corredores, mas sem nunca presenciar verdadeiramente os horrores que se viveram. Ainda assim, lá estão esses pesadelos, arranhando a porta do hotel. E se o nosso Conde é sempre uma personagem tão convidativa, será talvez porque esta “prisão” conservou a sua aura, alienada dos sofrimentos nas ruas do seu país (que, ao longo das décadas, é cada vez menos seu).

É um livro muito descontraído. Apesar das suas 500 páginas, lê-se num ápice. A sua grande proeza é ser capaz de ser descontraído e elegante ao mesmo tempo. O escritor prova que uma escrita apurada, rica, de qualidade digna de clássicos, pode ser uma escrita descontraída, sem presunções. E se não nomeio desde já este livro como um clássico da Literatura Moderna, será talvez pelo seu estilo talvez demasiado propagandista (claramente defensor das aristocracias do séc. XIX), que várias vezes se torna tão evidente que quebrou um pouco a minha leitura.


Tenho muita, muita dificuldade em classificar o livro. Quatro estrelas ou cinco estrelas? A verdade é que foi uma leitura soberba e com uma característica que, para mim, distingue os grandes livros: faz-nos querer reler. Por isso, talvez merecesse cinco estrelas. Não obstante, guardarei as cinco estrelas para aqueles livros nos quais não encontro qualquer falha, qualquer que ela seja. O livro peca, como disse, por um saudosimo dos tempos da aristocracia que, em certos momentos, soa a alguma propaganda, e apesar de ser suposto simpatizarmos com esse estilo de vida creio que era desnecessária. A propaganda pode ser dissimulada no enredo, inteligente, e é-lo a maior parte das vezes. Mas nem sempre. Para além disso, várias vezes o narrador da história quebrou a minha dedicação à leitura, e aqui encontro a maior falha deste livro. Frequentemente varia entre um narrador não participante, contando a história como se fosse um mero observador omnisciente e omnipresente, e um narrador que aparenta fazer parte do próprio hotel, como se ele próprio lá vivesse. O conflito é grande, a dúvida interrompe o ritmo da leitura e chegados ao fim conclui-se que estas variações no estilo foram completamente inúteis e nada acrescentam à qualidade da escrita.

Não me vejo a adquirir os restantes livros do autor na sua edição original (não fiquei fã a esse ponto), mas espero sinceramente que a D. Quixote decida editar os seus outros livros. Um Gentleman em Moscovo é um livro soberbo, que na sua postura sempre elegante conquistará os leitores portugueses este ano.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Samarcanda, de Amin Maalouf

Numa época de obscurantismo e fanatismo religioso, Omar Khayyam, o grande livre-pensador do Oriente, foi capaz de oferecer ao mundo uma mensagem hedonística e heterodoxa. Este poeta, filósofo, astrónomo e matemático persa do século XI deixou escrita uma colecção de poemas dedicados ao vinho, os célebres Robaiyat, nos quais aflora o mais refinado da perdida civilização persa. Seguindo este manuscrito durante quase um milénio, Maalouf introduz-nos na apaixonante história da Pérsia através de um espectacular fresco em que a cidade de Samarcanda se destaca como protagonista.
Amin Maalouf nasceu em Beirute, Líbano, em 1949. Trabalhou como jornalista e foi enviado especial em diversas zonas de conflito, como o Vietname e a Etiópia, até ao princípio da guerra civil no Líbano em 1975, momento em que se mudou para Paris como refugiado. Conhecedor da língua árabe e da francesa, de família muçulmana e cristã, a sua narrativa mistura inevitavelmente as culturas do Oriente e do Ocidente. Vencedor em 1993 do Prémio Goncourt, o mais prestigioso das letras francesas, é autor de romances universalmente aplaudidos como Leão o Africano, O Rochedo de Tanios, Os Jardins de Luz, O Périplo de Baldassare ou Samarcanda, publicado em 1988 e para muitos a sua obra-mestra.




Quando escolhemos um clássico, esperamos desde logo uma boa leitura. Aliás, é essa a razão pela qual o escolhemos: é um livro que sobreviveu ao teste do tempo, reuniu ao longo de décadas seguidores e críticas formidáveis. Se pegamos num clássico, queremos uma leitura de qualidade. Não esperamos encontrar menos do que isso.
Portanto, vamos já despachar esse assunto: sim, Samarcanda é um clássico, reconhecido pelo mundo inteiro, um livro único na Literatura. Sem questões.
Avançando. Aqui vai a minha crítica sobre o aclamado livro.
Samarcanda tem um grande trunfo a seu favor: não há romances sobre o mesmo tema. Na Literatura Internacional, não encontramos livros de ficção que falem sobre o grande pensador Omar Khayyam, nem sobre Hassan Sabbah, nem especificamente sobre a História milenar da Pérsia, ou as grandes revoluções desse país que é hoje conhecido como Irão (e que continua a sofrer grandes mudanças). Sendo um livro único naquilo que aborda, torna-se automaticamente uma obra de referência.
Originalidade: nota máxima.

Dito isto, tenho a certeza de que, se existissem mais livros sobre o tema, Samarcanda não seria tão admirado.

Na verdade, este livro não é sobre Samarcanda, uma cidade histórica da Pérsia. Esta cidade não se destaca como protagonista, como o título ou a sinopse levam a crer. O papel desta cidade é até bastante pequeno. Há uma certa simbologia associada a Samarcanda, que envolve o encontro com o destino, mas que foi muito mal explorada (como aliás a maior parte dos simbolismos que me parecem ligar os vários elementos da história) e, se não fosse uma única frase no livro, seria pouco relevante. O verdadeiro protagonista é um manuscrito. Nesse manuscrito, Omar no séc. XI escreve poemas dedicados à vida e seus prazeres. Esse manuscrito, após a morte do pensador, viajará pela Pérsia até ao séc. XX, quando voltará a atrair a atenção de um jovem orientalista, metido no meio da Grande Revolução Constitucional no início do século. É o manuscrito que atravessa toda a História, é ele o pano de fundo do livro. Não a cidade.

Estava ansioso por algumas descrições bonitas que me transportassem para o Oriente, para Samarcanda, para as grandes cidades que nós, Ocidentais, não temos a noção do quão imponentes foram. Mas não encontrei nada disso. É mesmo uma pena. No risco de ser chacinado pela maior parte do mundo, achei que aquilo que mais faltou ao livro foi equilíbrio. E equilíbrio é precisamente o elemento essencial. A ligação entre passado e presente, ficção e realidade, pessoas e cidades, parecia a base fulcral do livro. No entanto, se em alguns (poucos) momentos Maalouf capta o espírito poético de As Mil e Uma Noites, rapidamente cai num relato aborrecido, jornalístico, que se estende ao longo de toda a última metade do livro (algo corre mal quando, à medida que as páginas avançam, ficamos cada vez mais aborrecidos). Apesar de pretender ser um romance histórico, as partes ficcionais são tantas e tão díspares com a realidade que se torna muito difícil sentir-me impressionado. Quanto às personagens, precisamente por sofrerem tantas ficcionalizações, e pela linguagem pouco emotiva, sabem a subdesenvolvidas. Não entusiasmam. Aliás, o segundo protagonista (do séc. XX) é uma das personagens mais pobres e passivas que já li num "clássico".


Enfim, estou muito mal habituado depois de ler a série histórica fenomenal de Colleen McCullough (essa, sim, combina com enorme mestria a mais completa e fiel descrição histórica e a prosa de um romance). Samarcanda mistura muito factos com ficção e isso não me agrada, de todo. Tratando-se de um livro histórico, gostaria de ter a certeza que estou a ler algo de facto verídico. Em vez disso, temos uma mistura que roça a História Alternativa.
Tudo parece muito mal aproveitado. Tendo em conta a história milenar das cidades da Pérsia, tenho pena que Samarcanda não tenha sido de facto o verdadeiro pano de fundo da história. Mas não sei se isso mudaria alguma coisa.

Falta estilo. Algo que, num clássico da Literatura, esperaria encontrar. Falta estilo que combine com mestria as diferentes personagens, o passado e o presente, e ofereça a cada elemento um simbolismo que flua com a história.
Aprendi, apesar de tudo, algumas coisas sobre a História da Pérsia e alguns dos seus protagonistas. Literariamente, o livro foi uma desilusão.


Gostaria de terminar aplaudindo a esquecida colecção Biblioteca Sábado, publicada pela revista Sábado, que reunia vários clássicos da Literatura Internacional. Há anos que não são lançados novos títulos, o que muito me entristece porque dá a conhecer obras muito variadas em edições muito bem tratadas. Com alguma sorte, a revista Sábado sentir-se-á agradecida com este comentário e voltará a apostar nesta grande colecção.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Homem Que Preferiu Não Sentir, de Gonçalo Alves da Cunha


O Homem que preferiu não sentir retrata o percurso existencial do jovem pintor Sebastião que, numa autoanálise constante, evoca as memórias do menino feito homem, dotado de um excesso de sensibilidade materializada em todas as particularidades da sua essência.
Inserido na categoria de romance existencial, O Homem que preferiu não sentir conduz-nos numa viagem ao interior de nós mesmos, onde não faltam o confronto com a inevitabilidade da morte, as reflexões sobre famílias que se desestruturam e reestruturam ou as dúvidas que questionam os dogmas religiosos. A arte e a sua finalidade, a reescrita irónica de páginas da História e sobretudo as vivências de uma geração qualificada, mas desajustada à mediocridade da sociedade que os sistemas políticos teimam em perpetuar, brotam em páginas vivas de verdadeira prosa poética. É a afirmação da individualidade contra a subserviência de quem segue estandartes com sebastianismos imorredouros e por isso nos exige uma redescoberta de nós mesmos.



Publicado pela Chiado Editora, O Homem Que Preferiu Não Sentir é mais um pequeno livro escrito por um jovem aspirante a escritor, realizando um (talvez) sonho de ver uma obra sua nas estantes da nossa literatura.

Gonçalo Alves da Cunha sabe escrever. É certo que tanta palavra cara por vezes pode soar a forçado, mas pelo menos não são despropositadas. O discurso neste livro é próprio de um romance existencialista: divagador, difuso, pouco directo, com muitas expressões caras e um desafio à gramática, próprio de um intelectual tentando escrever no português mais difícil que consegue arranjar. Ao percorrer estas páginas, não entramos numa história, mas sim numa reflexão sobre o estado do mundo, os valores das gerações, ou apenas na aflição que atinge tantas vezes o nosso protagonista. Poético também, muito poético aliás, numa manifestação de ideias e reflexões que apesar de tudo não são difíceis de seguir. De facto, apesar das palavras caras, tudo aqui faz sentido, não existem embelezamentos ou floreados mas sim ideias concretas e bem expressas. Se é certo que o discurso usado é tão erudito que pode aborrecer certos leitores, pelo menos é um discurso com significado, onde as ideias estão bem formuladas e expostas. Não há enche-chouriços neste livro. Gonçalo Alves da Cunha escreve muito bem.

Infelizmente, aparte a sua escrita quase académica, Sebastião, o protagonista, não é uma personagem simpática, e a sua história não comove. Aliás, Sebastião exaspera-nos. Estão a ver aqueles jovens adultos, convencidos de que são mais iluminados que o resto do mundo, constantemente aborrecidos com o estado das coisas, e que apesar de passarem o dia sentados no sofá a ver televisão se questionam porque é que o mundo não lhes dá a glória que o seu talento merece? Aí está o Homem que Preferiu Não Sentir.

Um jovem pintor, acabado de sair da faculdade, é assaltado por mudanças de humor muito repentinas e sem aparente sentido (alguém precisa urgentemente de visitar um psiquiatra) e queixa-se frequentemente de um mundo que não tenta mudar, das pessoas e das suas atitudes quando ele é na verdade o pior de todos. Ó rapaz, passas a vida a queixar-te da inércia e inaptidão dos que te rodeiam, quando tu ainda menos fazes pela tua própria vida? Talvez a sua frustração nasça precisamente de se ver reflectido nas falhas e fracassos dos outros, talvez seja essa a interpretação deste livro. Não obstante, chegado ao fim do livro e ao fim da sua história, só me surgem duas palavras: drama queen.
Mesmo as suas divagações, ideias e pensamentos, nada oferecem de novo. São reflexões muito populares na era em que vivemos, não sugerem nada que não tenha sido dito. São os mesmos pensamentos que ouço de qualquer outro jovem na mesma situação. Pior do que isso, este jovem em particular é tão pouco activo que nada faz para se mudar a ele próprio ou a vida que ele tanto despreza, o que faz toda a sua situação e queixume parecer demasiado ridículos. Torna-se, por todos estes motivos, difícil sentir simpatia pelo que estamos a ler
Talvez seja esse precisamente o objectivo: um retrato da juventude de hoje, protegidos durante os seus anos de estudos e sonhos, frustrada por se deparar com uma realidade que só demasiado tarde lhes é apresentada. E nesse caso, este livro será certamente um excelente exemplo para os estudiosos de hoje a cinquenta anos estudarem um pouco a geração de hoje.

Infelizmente, para mim, o livro não é mais do que uma repetição de ideias contestatárias proferidas centenas de vezes por aqueles que vêem o fim da sociedade nesta geração, e pior do que isso não oferece qualquer tipo de ajuda ou solução. O protagonista não tem motivações aparentes que devessem despertar tantas oscilações de humor (a sério, ou há muita coisa que não foi dita ou todas aquelas depressões não têm qualquer sentido e deveriam ser caso para psiquiatria) e tudo soa a um queixume de barriga cheia, cujo clímax parece demasiado precipitado.
Resumindo: muito boa escrita, pouco inovador em tudo o resto. Uma personagem pouco simpática e muito frustrante, cujas motivações não fazem muito sentido, com ideais que nada sugerem de novo.
Sebastião, o que tu és a mais do que os outros é dramático.



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

César, de Colleen McCullough

Entre 110 a.C. e 48 a.C., Colleen McCullough revela-nos, com uma clareza psicológica notável, os homens e as mulheres que haviam por detrás dos heróis: o seu rosto humano em contraste com o retrato que a lenda nos deixou.
Em César, assistimos à queda de um mito (Pompeu,
O Grande) e ao nascimento de outro (César, O Divino). A luta pelo título de O Primeiro Homem de Roma encontra neles dois protagonistas insuperáveis.
No entanto, a vida é implacável, até mesmo, ou sobretudo, para os heróis. Pompeu morre miseravelmente vítima de uma cilada numa praia do Egipto e, quatro anos mais tarde, César morrerá às mãos do seu protegido Bruto e de mais vinte e dois conspiradores.
Com César, a República chega ao fim, mas a luta pelo título de
O Primeiro Homem de Roma continuará e não só em Roma.
De facto, esta obra em cinco volumes não nos proporciona apenas uma visão de Roma, pois ilumina toda a história da humanidade.
Roma, afinal, não está nada longe de nós.




Há quem diga que não há amor como o primeiro, nem paixões como as adolescentes. Não querendo reduzir a complexidade das relações humanas a uma leitura, com os livros acontece um pouco o mesmo. Quando entramos no mundo fantástico das letras, conhecemos um livro que nos converte. Seguem-se vários outros, todos diferentes entre si, todos capazes de nos deixar acordados noite dentro com o coração acelerado. Até que um dia já lemos demasiado: torna-se mais difícil surpreendermo-nos, tornamo-nos mais críticos. Perseguimos páginas à procura daquele entusiasmo que outrora sentíamos com as reviravoltas que hoje já antecipamos. Os livros continuam excelentes, continuamos a não ver onde colocamos os pés apenas para acabar o capítulo, mas nós crescemos. Já não somos virgens.


Eu não acredito que seja assim. Acho que as paixões adolescentes não têm de ser as mais intensas. É possível viver um grande, grande amor a qualquer idade. Porque, de vez em quando, encontramos alguém que talvez, esperamos, seja o amor da nossa vida. E com trinta, cinquenta ou setenta anos, voltamo-nos a sentir adolescentes de coração cheio. Com os livros, acontece um pouco o mesmo também. De vez em quando, lá encontramos um livro que nos arrebata e desafia aquela lista de livros preferidos que mantemos há anos.

Tenho lido a série histórica O Primeiro Homem de Roma de Colleen McCullough com alguma reverência. Tenho adorado por todos os motivos possíveis. Acredito que não haja no mundo uma série de ficção histórica tão completa quanto esta. O detalhe histórico é impressionante, a um nível académico. A escrita é fabulosa: directa, sem demasiados embelezamentos, mas tão nítida e aprazível que raramente nos aborrece em milhares de páginas. A história, apesar de predominantemente política, agarra-nos, ao jeito de uma novela repleta de intrigas mas bem real.
Assim tem sido nos quatro primeiros livros de uma série composta por sete. Nos dois primeiros, conhecemos Caio Mário e Cornélio Sila, ambos dois dos maiores generais da República Romana, responsáveis por uma série de acontecimentos marcantes em Roma, que influenciaram drasticamente a sua sociedade. Nos terceiro e quarto livros, surge Pompeu Magno, outro grande comandante cuja carreira vai influenciar a queda da República Romana. Mas há uma personagem transversal a toda a série, que acompanhamos desde o nascimento à sua morte, que é no fim de contas o nosso protagonista: Júlio César, o ditador, o génio romano talvez mais famoso de sempre.

Chegamos, assim, ao quinto livro, o livro onde César se ergue acima de tudo e todos e concretiza o destino que hoje conhecemos.
E César, quinto livro da série, excede todas as expectativas. Uma série que já se tinha revelado uma leitura extraordinária, atinge em César o seu auge, um pouco como a sua personagem principal. Pela primeira vez em anos, agarrei-me a um livro que nem um louco, capaz de ficar acordado até os olhos me arderem, capaz de discretamente abrir o livro em qualquer ocasião só para dar aquela espreitadela e saber o que vai acontecer. César não é apenas um livro de emoções fortes, não tem dramas nem reviravoltas que desafiam uma Guerra dos Tronos, mas é um livro de decisões fortes, um registo dos acontecimentos que mudaram a História Mundial e sem os quais o nosso mundo seria muito diferente.

E reconheço, este era talvez o livro para o qual menos expectativas tinha. É um livro sobretudo bélico: primeiro, as batalhas de César na Gália, e depois as batalhas de César contra Pompeu e os boni. Eu aborreço-me com cenas de batalha. Prefiro a intriga política, a batalha de palavras, as conspirações dentro do Senado, em vez dos cercos a cidades, as perseguições e os encontros que resultam em batalhas colossais. Sou um Cícero, não um Pompeu (uma piada privada para quem leu o livro ou conhece a História da Roma Antiga). Mesmo assim, este foi sem dúvida o livro que mais gostei de toda a série até agora. Porquê? Talvez precisamente pela força de carácter que César transmite. Ou talvez porque o livro representa alguns dos momentos mais icónicos da História Mundial, como a travessia do rio Rubicão. De qualquer forma, não larguei o livro até o acabar. E apesar de querer começar a ler os seguintes da mesma série, está a custar avançar e colocar este de lado.

Uma breve nota para a escritora: escrito por Colleen McCullough, autora do romance Pássaros Feridos, seria de esperar uma escrita mais emocional (porque por alguma razão esperamos sempre uma perspectiva mais ternurenta de escritoras femininas). Tal não é o caso: é sim, uma escrita emocional na medida em que constrói personagens muito fortes e sérias. Mas é, isso mesmo, uma escrita muito séria, muito racional na sua narração. Pode ser um pouco estranho em bastantes passagens, tanto as que envolvem momentos mais pessoais das personagens (onde a escritora não dá espaço para uma prosa mais floreada e apaixonada) como nas descrições que aproximam o livro de uma tese académica sobre Roma. Mas é isto um problema? Não de todo. A verdade é que na sua escrita sem rodeios, McCullough equilibra seriedade e emoção, personagens muito fortes e descrição história completa. Para um livro que se compromete a descrever da forma mais realista possível a verdadeira história de César e da queda da República Romana, apenas uma escrita assim tão racional impede que o livro se torne enfadonho e ainda mais longo.


Depois de ler um livro como este, fica a tristeza de saber que dificilmente voltarei a encontrar uma série histórica tão boa quanto O Primeiro Homem de Roma. Não existem livros tão completos quanto estes. Quase todos os romances históricos são antes de mais romances, ficções que inventam personagens ou distorcem acontecimentos para apelar mais ao leitor ou moldar a História à sua história. Colleen McCullough não cai nessa tentação. Acredito que sejam extremamente raros os momentos que ela escreve que ela não tem a certeza que aconteceram (de facto, o trabalho de investigação que McCullough dedicou a esta série valeu-lhe um doutoramento honoris causa em Letras).


Não há outra forma de o dizer: peguem nesta série. Se se consideram bons leitores, leitores que não gostam de deixar escapar grandes obras, leiam esta. Mas leiam a série desde o primeiro livro, porque vale a pena acompanhar a progressão e crescimento das personagens. Apesar de os livros serem independentes entre si, apenas uma leitura que acompanhe a cronologia dos acontecimentos permite notar o seu impacto.


Infelizmente, não será fácil seguir este conselho. Esta série já não se encontra publicada em Portugal. A editora Difel encarregou-se de publicar os sete livros, mas há vários anos que fechou portas e levou consigo várias obras muitíssimo boas, incluindo estes livros. A editora Bertrand editou entretanto o primeiro livro da série, intitulado O Primeiro Homem de Roma, mas não há qualquer indicação que venham a publicar os restantes seis livros. Poderão encontrar alguns livros usados à venda, em alfarrabistas ou plataformas online... Mas é muito, muito difícil completar a colecção. Os três primeiros livros são relativamente fáceis de encontrar em segunda mão. O sétimo livro só encontrei uma vez. Demorei anos a reunir todos os livros. É uma situação muito triste. Esta é uma obra estrondosa cujos direitos estão nas mãos de uma editora que não é conhecida por se comprometer em publicar obras tão extensas.

Deixo aqui o meu apelo à Bertrand para promover esta grande obra (e não só, que ficaram para trás no nosso país). No que depender de mim, gostaria muito de apoiar qualquer editora a mostrar esta obra aos leitores portugueses.

domingo, 11 de outubro de 2015

O Prisioneiro da Árvore, de Marion Zimmer Bradley

O presente volume constitui a segunda parte do monumental romance As Brumas de Avalon. Significativo da sua qualidade e simultânea popularidade, é o facto de alguns paises já se terem atingido a vigésima edição desta obra tão favoravelmente acolhida pela crítica mundial.


«Lemos o primeiro livro,
A Senhora da Magia. Esperamos pelos restantes para preencher a nossa avidez de mistério e de saudade daquela sabedoria inicial, que fomos perdendo na assimilação de culturas, quando éramos um com a terra.»
João Mattos e Silva,
Letras & Letras, Mai. 88

«Uma perspectiva alucinante e vertiginosa, de uma época onde tudo era possível através dos poderes das mulheres.»Mulheres, Fev. 88


«O ponto de vista das mulheres, sobre este ciclo de lendas, é, de facto, original e cativante. A prová-lo está o enorme sucesso editorial que a obra de Bradley suscita em toda a parte.»
A Capital, 26 Nov. 87

«Uma fascinante visão do mágico, do místico, do fantástico de eras perdidas do mito.»
D. S. Bruno,
Semanário, 22 Dez. 87 

«... um livro a reter como um retrato relativamente fiel de uma tradição, onde o fio da lenda (haverá coisas tão agradavelmente reais como as lendas arturianas?) é contado a partir de outra perspectiva, de outro olhar sobre o destino da História e do sentido de Avalon.»
Francisco José Veigas, Expresso, 5 Mar. 88 




Eis que chegamos ao fim do famoso clássico sobre a lenda do Rei Artur. A fama de As Brumas de Avalon é brutal, não só na forma como esta versão se tornou tão popular mas também no seu impacto na Literatura.
Inúmeros, inúmeros livros foram e são altamente influenciados por Marion Zimmer Bradley ter explorado tanto a tradição celta, o paganismo, o misticismo e a perspectiva feminina e feminista na acção.
Depois de ter lido As Brumas de Avalon, posso dizer que gostei de ter ficado a conhecê-las. Entreteve-me, como acho que deveria. Mas não creio que Bradley esteja livre de falhas na sua perspectiva, sobretudo na forma como encara este suposto feminismo (que para mim pouco de feminista tem) e como explora este culto místico ao acompanhá-lo com fortes ataques à tradição cristã (que para mim se aproxima do fanatismo). Aliás, apesar da interessante e original ideia, não me entusiasmou tanto quanto estava à espera. Será que é mesmo preciso ser-se mulher para nos apaixonarmos por Marion?


Nunca, em todas as páginas desta obra, a autora deixou de ser fiel à sua premissa: contar a história de Artur numa perspectiva feminina. Louvo-a imenso por isso. Por vezes teve de pôr de parte acontecimentos importantes como batalhas ou aventuras pessoais do próprio Artur e dos seus cavaleiros, mas nem por isso se desviou do seu intento. As Brumas de Avalon são uma obra única no panorama literário sobretudo por isso. O seu impacto era previsível e inegável, certamente uma abordagem única quando foi lançado.

Gostei muito de voltar a pegar numa obra sobre o Rei Artur, cuja vida habita desde sempre na minha imaginação. Bradley ofereceu-me uma leitura que entreteve e me deu a conhecer novas personagens. Desde sempre conheço Morgaine, Guinevere, Lancelot ou Artur, mas a cada nova versão elas são alteradas, tornando-se novas pessoas, possíveis de serem redescobertas. E esta versão sem dúvida traz novas luzes, sobretudo no que toca aos sentimentos que nutrem entre si (alguma vez alguém explorou Lancelot como homossexual? A exploração sexual das personagens nesta obra está muito interessante).

Não foi a minha interpretação preferida. Não achei que tivesse sido a mais completa sobre a história, de todo (apesar de, mais uma vez refiro, ter sido a mais completa de acordo com o que seria de esperar de uma perspectiva das mulheres). Foi completa dentro daquilo a que se propôs, mas nem sempre me senti totalmente satisfeito. Entreteve, sim, mas não me manteve agarrado a cada página, não me fez vibrar como outros já o fizeram (sobretudo a versão de Bernard Cornwell).
Mas gostei. Sobretudo, gostei de ter finalmente conhecido o místico mundo de Avalon, que nunca foi tão bem explorado quanto aqui.

Quanto ao final, a este último livro, dirijo-me a Marion: mais valia teres ficado quieta. Apesar de algumas surpresas que me agradaram esperava muito melhor na conclusão.
Mais uma vez, são inúmeros os acontecimentos mais do que importantes que não assistimos (sobretudo os que envolvem Mordred e o seu contacto com Artur - só porque Mordred não é mulher) e isso torna-se especialmente frustrante nesta última parte. É certo que foi uma opção inevitável para manter a perspectiva puramente feminina, mas não deixa de ser aborrecido porque o final da lenda de Artur está demasiado ligado à sua relação com Mordred, uma relação muito mal explorada por Marion.

A magia regressa, para meu pesar porque acho a magia de Bradley demasiado fictícia e irreal para se tornar minimamente empolgante. A magia nestes livros, sobretudo a realizada por Morgaine, são como milagres dos Deuses que nunca são explicados, nem são suposto sê-lo para manter a sua aura de misticismo, o que quebra completamente o ritmo da história. Este último livro tem uma falha enorme na sua credibilidade.
E ainda Marion se queixa do cristianismo...

Apenas uma personagem realiza magia que recorre a rituais concretos, uma única vez ao longo destes quatro livros a escritora dedica-se a desenvolver como é que um ritual de magia e adivinhação funciona, o que sem dúvida dá credibilidade ao acto. Mas adivinhem só: esta personagem é completamente ignorante nas artes de Avalon, pelo que a sua magia (que se apresenta mais credível e real do que qualquer outra e não se baseia em fenómenos inexplicáveis feitos do nada por vontade e graça da Deusa), não é considerada verdadeira. É frustrante.

Também mais uma vez, voltamos a encontrar mulheres que apesar de poderosas resignam-se completamente a um destino que acreditam estar escrito pelos Deuses... Este último livro é um enorme retrocesso até ao primeiro livro, para actos de magia milagrosos e mulheres completamente submissas ao culto. Isto é ser feminista? Porque havemos de torcer por mulheres que fazem aquilo que os Deuses dizem para fazer, sem sequer questionarem, onde está a vontade própria? Creio sinceramente que Marion Zimmer Bradley possui umas noções muito erradas do que é ser feminista...

 A resolução pareceu-me relativamente abrupta, sobretudo no que toca ao destino de Artur. Mais uma vez, são os danos de uma perspectiva feminina que fazem com quem assim o seja... Mas fiquei sobretudo desiludido por ter sido um final muito, muito pouco memorável numa obra que fala de misticismo, que fala de Avalon. Esperava algo completamente diferente. Para uma obra tão mágica, tão misteriosa, espera-se que o clímax seja memorável, que faça parte do resto da obra. Pois enganamo-nos, pois é como se a escritora se tivesse esquecido que Avalon existe sequer. Acho que se exigia algo completamente diferente. Fico surpreendido em notar como, com o tempo, a própria autora se afastou de Avalon e perde-se, tornando o que era suposto ser um romance de fantasia histórico para outra coisa... As Brumas de Avalon fica na memória nunca como um livro sobre a lenda do Rei Artur, mas sim sobre o culto pagão da Deusa.

Infelizmente, este último livro não fecha, a meu ver, o livro da melhor forma.

A mensagem final é contudo alegre e esperançosa, pelo que "tem concluído o seu trabalho". Como um todo, a obra vale a pena conhecer, apesar de não me parecer de todo obrigatória. É uma obra única pela abordagem ao misticismo, à espiritualidade e às mulheres na história e na Literatura, mas achei recheada de falsas noções de feminismo (de um pouco de tudo na verdade) e descrições irrealistas de magia.

Será que, de facto, é preciso ser mulher para entrar neste universo? Talvez. Nunca o poderei confirmar por mim próprio, a menos que o faça noutra vida...


sábado, 10 de outubro de 2015

A Senhora de Avalon, de Marion Zimmer Bradley

Depois de As Brumas de Avalon e de A Casa da Floresta, Marion Zimmer Bradley regressa agora com esta nova saga da ilha mágica, contada por três gerações de sacerdotisas que, nos primeiros quinhentos anos da era cristã, protegem o seu reino encantado da avidez do Império Romano. 
A primeira, Caillean, esconde Avalon dos legionários, envolvendo-a sabiamente numa nuvem de brumas intransponíveis; a segunda, Dierna, promove de forma astuta a união de uma das suas noviças com um general romano, transformando-o num potencial imperador bretão que assegurará a preservação do solo sagrado; a terceira, Viviane, guardiã do Cálice Sagrado, partirá da casa dos pais adoptivos na ilha de Mona aos 14 anos para se encontrar com a verdadeira mãe, a senhora de Avalon, e preparar o caminho para o nascimento do rei Artur. 
Rico na descrição de ambientes e na construção de personagens, este romance - onde não faltam guerra, e traições, amores e ódios, profecias e maldições - tem a mesma grandiosidade mítica e épica que caracteriza as outras obras da autora, evocando com igual dinamismo, os mitos, a magia e a história da Inglaterra lendária.



Cá estamos novamente, teimosamente, a explorar Avalon e uma saga que tem tido muita dificuldade em encantar-me. As Brumas de Avalon foi interessante, apesar de extremamente sobrevalorizado na minha opinião; A Casa da Floresta foi por sua vez uma leitura emocionante e Os Corvos de Avalon apesar de ser uma obra literária fraquita deu para ler com alguma satisfação.
Quanto a este A Senhora de Avalon... Bem, é caso para me voltar a perguntar "Porque é que insisto em ler isto?".

A obra divide-se em três contos: um que precede imediatamente A Casa da Floresta, outro que antecede imediatamente As Brumas de Avalon, e ainda um temporalmente situado entre os outros dois. Cailean, Viviane e Teleri, sacerdotisas de Avalon e fundamentais na construção do destino que culminará no nascimento do Rei Artur.
Acredito que este livro seja uma pequena maravilha para os fãs de Marion Zimmer Bradley. Apesar de para mim me parecer inacreditável que um fã possa apreciar uma obra que destrói grande parte do misticismo característico de Avalon. Mas, é um facto, quando somos fãs de uma série adoramos esmiuçar todos os pormenores desse universo fictício, e é isso que este livro faz. Aliás, é para mim a única coisa que faz: encher a barriga dos fãs.

A maior parte das personagens já são nossas conhecidas dos outros livros. O que lemos aqui é o desenvolvimento das suas histórias, aliás a exploração, aliás a sobrexploração. Tenho mesmo muita pena, pois livros como A Casa da Floresta têm um final completo mas que nos deixa a reflectir no futuro das personagens, dando asas à nossa imginação, enquanto A Senhora de Avalon nos mostra esse futuro e destrói a nossa própria magia. Algumas vezes, compensa deixar as coisas entregues à imaginação.

As três histórias assentam na ideia de reencarnação e de que, através dos tempos, os espíritos ligados entre si se reencontram na sua vida terrena. Ou seja, cada conto é apenas uma repetição do anterior. As variações, apesar de existirem, pouco se reflectem na história geral. A melhor história, na minha opinião, foi precisamente a que apresentava personagens nunca antes mencionadas e com um triângulo amoroso muito interessante onde a vontade humana (coisa que Marion Zimmer Bradley irritantemente insiste em desprezar para as suas personagens, coitadas) entrava em conflito com o destino dos seus próprios espíritos. Os restantes contos foram um belo exercício de ludíbrio dos fãs.

É um livro muito repetitivo e dispensável. É uma pena, porque algumas das personagens destes contos são das mais intrigantes (e das minhas preferidas). Mas lá está, desmistifica-as, dispersa desnecessariamente a sua história, destrói o mito e personalidade agradável que se construiu à sua volta. Mais do que triste por não ter gostado do livro, deixou-me desanimado por se ter revelado o que é.

Terá sido a necessidade de continuar a série de Avalon assim tão grande? Continuar histórias que não precisavam, nem pediam, continuação?
Pergunto-me quanto deste livro aconteceu por vontade de Marion e não por vontade dos fãs e das próprias editoras (infelizmente é a realidade).

Uma péssima forma de chegar quase ao fim da minha jornada pelo mundo de Avalon. O que me safa as expectativas é saber que o próximo livro, A Sacerdotisa de Avalon, passa-se precisamente na época do conto que eu mais gostei, com personagens completamente diferentes das que já conheço.



sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Os Corvos de Avalon, de Diana L. Paxson

No centro de Os Corvos de Avalon está a conquista romana da Bretanha e a rebelião conduzida pela Rainha Boudica, a guerreira celta, e por Lhiannon, a sua jovem mentora na ilha dos Druidas.
Quando o exército do Império conquistou o reino Iceno, no século I D.C., Lihannon enfrentou-o enquanto Boudica acabou por se casar com Prasutagus, o Rei Supremo dos Icenos que governou como rei cliente de Roma. Boudica e Prasutagus viveram felizes até à morte deste, um acontecimento que mudou para sempre a vida daquela que se viria a tornar a Rainha Guerreira. Com a morte a morte do marido, as terras Icenas foram definitivamente anexada ao Império, tendo Boudica sido brutalizada e as filhas violadas.
Cheia de raiva e espírito de vingança, Boudica apela às tribos britãs e conduz o seu povo na resistência contra os exércitos ocupantes de Roma. Apesar do insucesso da rebelião, Lhiannon sobrevive e torna-se guardiã das tradições druidas na nova Bretanha Romana, como alta sacerdotisa da Casa da Floresta.
Repleto de notáveis personagens femininas, que sempre habitaram a mítica ilha de Avalon, esta tão aguardada obra, que antecede A Casa da Floresta, é um portentoso épico que expande a saga lendária que encantou milhões de leitores por todo o mundo.



Depois de uma leitura tão cativante quanto A Casa da Floresta, decidi ler a sua prequela. As expectativas eram altas, mas controladas: este livro não foi escrito por Marion Zimmer Bradley, mas sim por Diana L. Paxson (apesar de se basear no imaginário de Bradley). Sabia que devia esperar um estilo mais genérico, não tão idiossincrásico quanto o de Bradley. Contudo, Paxson provou ser ajudar bastante a tornar a escrita de Bradley menos onírica e a melhorar a reconstrução histórica, aumentando o entretenimento da leitura. Estava por isso bastante curioso (e, depois de ter expressado tantas vezes o meu desagrado por Marion Zimmer Bradley, é óbvio que estava à espera que Diana me agradasse um pouco mais).


De facto, "entretenimento" é a palavra que melhor se adequa para descrever o livro. Bastante fácil de ler, com uma história simples e que apesar da extensão do livro se desenrola com bastante tranquilidade, sem desprezar alguma contextualização histórica. O livro histórico perfeito para agradar ao leitor mais comum.

Apesar disso, é um livro de muito pouca imaginação. A sua simplicidade revela-se na forma como pouco explora o enredo, sem criar grandes sobressaltos ou complexos, sem muita criatividade nos seus caminhos. As personagens, apesar de interessantes de seguir (sobretudo Boudica, porque há qualquer coisa de fascinante em mulheres na literatura com um lado guerreiro, rebelde), não são exemplos de personalidades motivadas. É um livro extenso mas a história acaba por ser bastante simples, nunca passando muito de um toma-lá-dá-cá entre os Romanos e Bretões (mais um toma-lá-toma-lá, já que aos Bretões coitados calhou uns Romanos bastante fortes).

Pior do que uma história sem desenvolvimentos que valham a pena apontar, sem emoções fortes, limita-se à reconstituição histórica mais básica. Falta pormenor, sobretudo exploração tanto a nível de enredo como a nível de personagens e de conhecimento. Faltou criatividade a todos os níveis: na História, na estória e nas pessoas que fazem parte delas

Paxson e Bradley juntas são o melhor dos dois mundos. Foi isso que A Casa da Floresta me mostrou, se de facto Paxson teve influência no livro. Sozinhas caem no seu pior.

Os Corvos de Avalon compromete-se a contar a história de Lhiannon e Ardanos, já sugerida em A Casa da Floresta, e de Boudica, que não só marcou esta época na História da Bretanha como foi bastantes vezes referenciada em As Brumas de Avalon. Limita-se assim a colmatar a inexistência de uma história tantas vezes referenciada ao longo dos livros e que ficou por contar, e fá-lo da forma mais simples possível. Sem pretensões, é certo, o que é agradável, mas neste caso talvez o pretensiosismo tivesse feito a autora dar-se ao trabalho de criar uma obra digna desse nome. Porque é isso mesmo que eu senti: uma leitura que não dá muito trabalho ler, um livro que não deu trabalho algum a escrever.
Mas, apesar de tudo, é certo que foi o livro mais fácil de ler de toda a saga de Avalon e por isso mesmo entretém (porque nem sempre um livro precisa de ser um clássico literário escrito por um génio para se apreciar).

Vale a pena ler por aqueles que são fãs da saga precisamente por falar de personagens conhecidas; para quem não o é... Gostaria de dizer que é a obra certa para conhecer mais sobre a História do Mundo e sobre a lendária Boudica, mas não é. Espero que hajam por aí romances mais dignos que tal tarefa. Mas se procuram uma leitura muito simples, que entretém, não dá muitas dores de cabeça e que de forma muito (demasiado) superficial aborda a História do Mundo, experimentem suponho.

Porque, infelizmente, nem posso dizer que tenha ficado satisfeito por conhecer a vida de Boudica. A maior parte do livro concentra-se na sua vida antes de se tornar uma guerreira (como aprendiza em Avalon, e esposa), e essa vida é muito pouco entusiasmante. A exaltação das suas batalhas, a perseguição aos Romanos, ocupa umas meras páginas considerando a extensão do livro. Se querem saber coisas sobre esta Rainha Guerreira, aprenderão mais lendo a sua página da Wikipedia.
Mesmo Lhiannon, outra protagonista, sacerdotisa de Avalon, apesar da vida preenchida pela guerra, pouco passa dessa correria de batalha em batalha. Mais uma vez, um livro sem passos criativos, sem sobressaltos no enredo... Sem emoções fortes.

Entretém bastante mais como romance histórico do que Marion alguma vez conseguiu. Isso, para mim, é certo, apesar de a exploração histórica ser bastante fraca (mas também não acho que a de Marion tenha sido melhor). A escrita é porém bastante mais genérica, pelo que não fiquei sequer com curiosidade de conhecer outras obras de Diana.
A escrita de Marion é mística, quase tão difusa como as suas brumas, e mesmo que eu não goste de ler isso não deixo de apreciar a sua unicidade e diferença. É o que caracteriza a fantasia de Marion, e isso é muito difícil de reproduzir. Pelo menos não o foi aqui.

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Casa da Floresta, de Marion Zimmer Bradley


MARION ZIMMER BRADLEY, que nasceu em Albany, Estados Unidos da América, em Junho de 1930, começou a escrever, adolescente, e até agora escreveu quase 50 livros, um terço dos quais constitui as Darkover novels.
Até à publicação, em 1983, de "As Brumas de Avalon", um novela feita a partir de um ponto de vista das mulheres na lenda do Rei Artur e dos Cavaleiros da Távola Redonda,a sua carreira literária abarcou as histórias que vendeu para revistas de "western", de ficção científica e de mistério dos anos cinquenta, para sustentar o marido e os filhos, os romances góticos que pagaram a sua estadia universitária nos anos sessenta, e os romances de ficção científica, tais como "Seven From The Stars", "Hunters of The Red Moon" e "The Endless Voyage", que continuam a vender-se hoje em dia, anos depois da sua publicação, de um modo muito estável. Com "As Brumas de Avalon" e a sua permanência de três meses na lista de best-sellers do "New York Times", Marion Zimmer Bradley marcou um lugar para si nos corações dos leitores pelo mundo inteiro.



Marion ganhou enorme notoriedade com a sua interpretação da lenda do Rei Artur, As Brumas de Avalon, considerado um clássico da Literatura. Mas desiludam-se os que pensam que a sua obra sobre Avalon fica por aí. Aliás, como já disse quando li As Brumas de Avalon, o livro é mais sobre um culto aos deuses e sobre o mundo de Avalon do que a história medieval de Artur. Uma bíblia religiosa, não um conto de cavaleiros.

Infelizmente, a obra de Bradley não me cativou e as expectativas eram bastante baixas para esta leitura. Felizmente, este revelou-se o meu livro preferido de Marion Zimmer Bradley.
Vou dizer algo que ainda não ouvi ou li alguém, em lado algum, afirmar: gostei muito mais de A Casa da Floresta do que de As Brumas de Avalon.
Leitores à volta do mundo (fãs e não só) olhar-me-ão com desprezo depois de tal afirmação. As Brumas de Avalon é uma obra quase intocável no universo literário, aplaudida em todos os sectores, que quase define um género. Mas para mim, que não achei os livros nada de especial (singular, sim, mas "falhoso") gostar mais de A Casa da Floresta foi bastante fácil.

O enredo passa-se alguns séculos antes da chegada do Rei Artur, antes sequer de Avalon ser importante. Estamos em plena presença romana na Britânia e apenas um pequeno grupo de bretões nativo resiste ao seu domínio. Eilan, uma sacerdotisa nativa, apaixona-se pelo general romano Gaius, ambos quebrando as regras que são impostas pelas suas comunidades e ensinando que o amor é uma linguagem universal.

Em A Casa da Floresta, Bradley atinge o equilíbrio perfeito entre um romance histórico, uma história de amor e uma ode aos cultos espirituais celtas. 
Nada de personagens sem rumo e sem qualquer vontade própria; nada de descrições obscuras e imperceptíveis, nem de magia sem qualquer sentido. Não chegamos ao fim com a impressão de termos lido os devaneios de uma seguidora de um qualquer culto aos deuses pagãos e que despreza a Igreja, mas sim a história dos Homens que lutam por evitar o destino que é, porque assim os deuses o querem, inevitável.
Acredito que Diana L. Paxson, cuja participação no livro não é creditada, teve bastante influência neste casamento perfeito entre História e Fantasia. Sem dúvida, ajudou Marion Zimmer Bradley a empenhar-se mais na reconstrução histórica e menos nas suas fantasias nebulosas.

Fui completamente cativado. É uma história completamente trágica e emocional, com personagens riquíssimas em motivações e complexos que ditam as suas acções, o que as torna bastante interessantes. Sim, é de facto uma história bastante triste. Enquanto folheio estas páginas, lembrando-me daquilo que me fizeram sentir, é tristeza e condenação que guardo delas. Mas um livro não precisa de ser alegre, sequer esperançoso (apesar de tudo este não deixa de o ser) para ser bom.
Apesar de chegar à conclusão que dificilmente simpatizo com qualquer personagem que Bradley crie (porque será que as suas personagens conseguem ser tão tacanhas ou com faltas de espírito tão grandes de vez em quando?), ao contrário de As Brumas de Avalon elas têm vontade própria, lutam pela sua vida ou por aquilo que acreditam e não se limitam a seguir cegamente a vontade dos Deuses. Isso agrada-me imenso.

Um verdadeiro romance histórico fantástico com um enredo que participa activamente nos eventos da História da Bretanha. Sim, é bastante triste, não só na história como nas palavras. Mas é demasiado emotivo para desagradar.
Se depois de As Brumas de Avalon decidi ler os restantes livros dedicados a Avalon mais por obrigação do que por prazer, desta vez é com genuína vontade que quero ler os restantes livros (apesar de, infelizmente, a editora que os publicava em Portugal ter falido e pelo menos um dos livros nunca ter sido traduzido).


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