Sábado, 11 de Fevereiro de 2012

A Saga de um Pensador, de Augusto Cury

Neste seu primeiro romance, o psiquiatra Augusto Cury narra a trajectória de Marco Polo – não o navegador e aventureiro veneziano do século XIII, mas um jovem que embarca na grande aventura que é a vida. 

Marco Polo é um estudante de Medicina, um espírito livre cheio de sonhos e expectativas. Ao entrar para a faculdade, é confrontado com uma dura realidade: a da insensibilidade e frieza dos seus professores, que não percebem que cada paciente é, mais do que um conjunto de sintomas, um ser humano com uma história complexa e única de perdas e desilusões. Indignado, o jovem desafia profissionais de renome internacional para provar que os pacientes com perturbações psíquicas precisam de mais que remédios e diálogo – precisam de ser tratados como pessoas, como iguais. Numa luta constante contra a discriminação, Marco Polo vai provocando uma verdadeira revolução de mentalidades...


Já há algum tempo que procurava este livro e finalmente comprei-o por uma pechincha na Feira do Livro (num alfarrabista. Não, eles não têm só livros do século passado, têm até livros bastante recentes, usados mas em excelente estado, e mais baratos!!). Creio que desde que saiu (2005) que criei as minhas expectativas em relação a este livro. O título é muito apelativo (eu próprio sou um pensador) e as críticas têm dito maravilhas do livro.

Marco Polo é um estudante de Medicina invulgar: prefere olhar para as pessoas do que para a Anatomia, especificamente. Tentado conhecer as pessoas que os cadáveres nas aulas de Anatomia foram, acaba por travar amizade com um sem-abrigo, que se revela um autêntico génio da vida.
Mas este é só o princípio do livro. Trata-se, de facto, de uma saga, desde que Marco começa a faculdade até muitos, muitos anos depois.

Infelizmente, não me encheu as medidas, como esperava. Estava à espera de um livro que discutisse a Psiquiatria e a Psicologia, o Ser Médico, o Ser Pessoa e o Ser Doente, muito mais actualizado aos tempos de hoje (o livro foi escrito em 2005). Ter-me-ia marcado muito mais se o livro tivesse sido escrito em 1975, quando saiu "Voando Sobre um Ninho de Cucos" (com Jack Nicholson e Louise Fletcher).

Parece-me que o escritor se baseia num apanhado de estereótipos no mundo psiquiátrico (o doente maluco, o médico técnico, até o sem-abrigo inculto), reunindo assim uma história que tenta emocionar qualquer um. Com o passar da leitura fui-me deixando embrenhar cada vez mais nas simpáticas personagens criadas, e confesso que foi capaz de mudar ligeiramente a minha mentalidade. Conseguiu-me fazer ver a vida de uma outra forma, sentir a vida da maneira que tenta pregar. Mas, por muito que o livro discuta um bom tema, por muito que seja a dose filosófica e "life changing" presente (que eu gosto), por muito que me tenha agradado o fim, não consigo deixar de olhar friamente para o livro.
De facto, temos muitas situações de médicos que não vêm a "pessoa" mas sim o "doente", que receitam medicamentos sem saberem o contexto cultural do paciente, empresas farmacêuticas que fazem de tudo para vender esses fármacos. Mas não vivemos em meados do séc. XX. No séc. XXI dá-se MUITA preocupação à formação do médico não apenas como técnico de saúde, mas também como educador, agente de progresso. Há uma preocupação na relação médico-doente e na comunicação. A medicina cada vez mais é feita "para" a pessoa, "pela" pessoa e "com" a pessoa. Este livro parece apresentar uma mentalidade já muito distante. Absolutamente fora do tempo, e que acaba por parecer algo pretencioso.

A escrita consegue ser lindíssima e muito, muito poética. Talvez por isso se torne demasiado artificial. O autor (também ele médico) expressa as suas personagens numa linguagem tão poética, tão florida, que muito rapidamente parece algo artificial.
O enredo por si é um pouco forçado, e mais uma vez descura a realidade presente (demasiadas coincidências, demasiados "clichés"), mas suponho que foi o necessário para que conseguisse transmitir os seus pontos.

Honestamente, gostava muito mais de ter lido não-ficção de Augusto Cury. Talvez nesse caso admirasse de facto o trabalho feito. Como ficção, acaba por cair numa certa artificialidade e estereótipos deslocados da mentalidade do séc. XXI. Não quero dizer que certas situações não sejam bem apontadas, mas no geral acaba por fornecer uma imagem exagerada.

Contudo, não deixou de mudar a minha visão do mundo. Quando pomos o livro de lado, é impossível não olhar para além do material, para além de toda a sociedade onde nos inserimos. Sim, o livro marcou-me!! Os ideais corresponderam às minhas ideias!! Mas talvez tivesse o mesmo resultado num livro de não-ficção, e literariamente talvez me agradasse mais.

Sábado, 21 de Janeiro de 2012

Revolutionary Road, de Richard Yates



Corre o Verão de 1955 e Frank e April Wheeler vivem com um cinismo distanciado o que para muitos dos seus contemporâneos representa o sonho americano: uma ampla vivenda nos subúrbios, duas crianças louras e risonhas, uns vizinhos simpáticos e, para Frank, um emprego em Manhattan bem pago e sem responsabilidades. No entanto, o abismo entre o que pensam das suas vidas e a forma como em realidade as vivem acabará por tornar o seu quotidiano insuportável. Quando April concebe um plano que lhes permitirá finalmente sair da situação em que se encontram, as tensões entre o comodismo e a necessidade de mudança provocarão uma crise mais grave do que poderiam ter imaginado.

Richard Yates nasceu em Yonkers (Nova Iorque) em 1926. Lutou no exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial. Ao regressar aos EUA trabalhou como jornalista. Revolutionary Road (1961), o seu primeiro romance foi finalista do National Book Award de 1962. Posteriormente, dedicou-se a ensinar em ateliers literários de diferentes universidades. A sua obra, que questiona o tão publicitado modo de vida americano da chamada "era da ansiedade", foi aclamada pela crítica, mas só gozou do êxito popular após a sua morte em 1992. Entre os seus restantes romances destaca-se Desfile de Páscoa.


Trata-se do último livro que li em 2011 e é complicado dizer se fechou bem ou mal o ano. Por um lado, é sem dúvida dos livros de melhor qualidade que li durante o ano; por outro, os temas que aborda e a maneira como os confronta não são, de todo, apropriados ao espírito esperançoso do novo ano.

Frank e April parecem um casal dos subúrbios absolutamente vulgar, com uma bela casa na idílica Revolutionary Road, dois filhos, ele um empregado de escritório com um emprego estável e ela uma dona de casa. Tudo aparências. Todo o livro é um confronto de aparências com verdade, de idealismos com realidade, de frustrações com sucessos. 
Na verdade, Frank é um idealista, ansioso por explorar o mundo e ser diferente, mas no fundo hipócrita pois tenta ser o "homem da casa", um estereótipo muito na moda na altura e que para ele define a sua masculinidade, com uma esposa obediente e contenta-se sendo apenas mais bem sucedido do que o pai. April é uma mulher absolutamente frustrada, das mais interessantes do livro simplesmente porque nunca chegamos a perceber muito bem o que tem aquela mulher, que tanto se resigna como explode de fúria como sorri para a vida. O amor que ambos têm pelos filhos não é, de todo, o amor que se esperava. Frank considera ter o emprego mais chato do mundo e muito pouco faz. Revolutionary Road é um bairro de aparências, mas ao entrar naquela casa assistimos a uma confusão formidável.

Não se pode dizer que haja uma história no livro. Há apenas personagens. Não só os Wheelers mas também os seus vizinhos e seus amigos. Yates apresenta-no-los ao pormenor, fazendo-nos viver o que eles vivem, a sua vida resignada. Até ao dia em que o casal decide retomar os seus sonhos juvenis e revolucionar a sua vida... Mas tal será bem mais difícil do que eles pensam e poderá ser tarde de mais.

Apesar de ter adorado o livro como um todo, destacando a mestria do escritor, não simpatizei com as personagens. Não vejo como tal é possível. Acho que quando os descrevi mostrei o quão irritado fiquei com a frustração e hipocrisia que eram as suas vidas. Não quero desenvolver muito esta conversa, para que vocês possam ter a oportunidade de conhecê-los também, mas não consegui de todo gostar da sua atitude.
Ainda assim, não deixa de ser impressionante a viagem que Yates nos oferece na vida destas pessoas. Não gostei das personagens em si, mas gostei muito de tê-las conhecido, de ter percorrido as páginas do livro e explorá-las tão exaustivamente.

Infelizmente, não é um livro feliz do início ao fim. Nunca o é. Não só porque, obviamente, as personagens são demasiado frustradas para o permitirem. Talvez a conclusão seja simples: vivemos à base de aparências. Somos todos vítimas de uma sociedade que nos diz aquilo que nos faz felizes. Mesmo quando somos bem sucedidos numa carreira, somos felizes porque a sociedade nos diz que isso é motivo para o ser. Por muito forte que seja o nosso desejo de romper este hábito, de ser "livre", por vezes é demasiado tarde ou simplesmente não conseguimos porque não vivemos isolados do mundo. E quando nos apercebemos disso entramos em choque, acabando na tragédia que é todo este livro.

Para além do drama intenso do livro, não posso aconselhá-lo a quem procure mais do que ler. Só o posso aconselhar a quem gosta de ler, independentemente do tipo de história que vai encontrar ou do tipo de personagens. Mas é sem dúvida merecedor de um lugar nas nossas melhores estantes.


Quinta-feira, 5 de Janeiro de 2012

Balanço 2011

2011 foi um voo atribulado. Muita coisa se tem passado e o meu rating de leituras baixou consideravelmente. Confesso que pus os livros de lado. Continuo a amá-los como a melhores amigos, mas deixei de ser um leitor activo como já fui. Aliás, quantos livros li este ano? Segundo o blogue... 17 livros. Parece-me ridículo, portanto, fazer um Top. Não foi sequer um ano em que tenha lido grandes livros (2010 foi um ano muuuuuuuuuuuuito melhor).

Realço:

- Sentença de Morte, de Val McDermid: um policial estrondoso, uma leitura inesperada que me captou absolutamente a atenção e que aconselho vivamente a qualquer leitor. Acredito que, mesmo que este ano tivesse lido muitos bons livros, este continuaria a destacar-se;
- Dead to the World, de Charlaine Harris: o melhor livro de 2011. Desde o primeiro livro que esta série é cada vez melhor e neste quarto livro atinge o seu auge, com das melhores personagens que alguma vez encontrei, enredos originais, muita emoção, muito mistério, de cortar a respiração e pedir por mais. A autora ainda não conseguiu atingir, para mim, o que atingiu com este livro;
- Dead Until Dark, Living Dead in Dallas e Club Dead, de Charlaine Harris: os três livros que antecedem o que referi acima. A construção de uma história fantástica, a descoberta de personagens fascinantes e a preparação para uma grande série, mais uma vez com o culminar no quarto livro. Porém, bastaram estes três primeiros para me deixarem fã da série;
- O Barbeiro, o Chef e o Artista, de Ceridwen Dovey: se este ano tivesse sido mais forte em leituras, de certeza que não destacava este livro. Mas não foi, e Dovey revelou-se a minha escritora-revelação do ano.  Não apenas um enredo que se mostra bem pensado mas sobretudo uma escrita que tem muito para dar.
- Revolutionary Road, de Richard Yates: ainda não escrevi a minha opinião, mas posso já dizer que é um livro digno de ser lido. Se não se importam de ler um livro mais preocupado a andar por cima das suas personagens do que a contar uma história, este é o livro. Gostei bastante da maneira como os intervenientes são apresentados, alguns deles explorados até ao seu fundo. Não são, contudo, personagens pelas quais nos apaixonemos, muito pelo contrário (há demasiada frustração e tragédia nas suas cabeças para conseguirmos gostar deles).

O prémio de Maior Desilusão do Ano vai para No Reino de Glome, de C. S. Lewis. Está longe do imaginário criado em Nárnia, essa sim uma verdadeira obra-prima. Infelizmente, é uma leitura dispensável.

É isto. A todos desejo um feliz 2012 e que os livros continuem a ser os vossos melhores amigos. Infelizmente, prevejo mais um ano em que as leituras vão ser muito poucas (talvez menos ainda do que 2011), mas continuarei por cá. Boas leituras!

Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2012

Outliers, de Malcolm Gladwell

Neste seu espantoso novo livro, Malcolm Gladwell empreende uma viagem intelectual pelo mundo dos Outliers - os melhores e mais inteligentes, os mais famosos e mais bem sucedidos. O autor coloca a questão: o que torna estas pessoas diferentes? A resposta que oferece é que damos demasiada atenção ao modo de ser dos bem sucedidos e ligamos pouco à sua proveniência, isto é, à sua cultura, família, geração e experiências idiossincráticas da sua educação.
E, no desenvolvimento desta «tese», Gladwell ainda nos revela os segredos dos milionários do
software, explica-nos porque os asiáticos são bons a matemática, o que é preciso para se ser um bom jogador de futebol e diz-nos ainda o que fez dos Beatles a maior banda de rock.

Este livro foi na verdade sugerido por um professor universitário. Não sei bem em que sentido, mas depois de ler o livro sei que só pode ter sido de duas formas: ou nos quis dar uma lição de que o sucesso que atingimos na vida é grande parte devido a "coincidências" que nos são alheias; ou nos quis humildemente abrir a mente para uma nova forma de encarar o sucesso que podemos vir a alcançar na nossa vida futura.

Creio que hoje em dia é cada vez mais fácil termos perspectivas muito diferentes em relação às pessoas e a tudo aquilo que constitui a vida. Num mundo globalizado, "regulado" pela Internet, toda a gente está próxima de todos e, sobretudo, de todo o tipo de ideias e visões do mundo. Portanto, o que vamos encontrar neste livro não será novidade para alguns. Não foi para mim. Mas ver a sua perspectiva reunida num só livro, com dignos exemplos a acompanhar, faz dele uma leitura interessantíssima e que recomendo vivamente.

O que faz uma pessoa ter sucesso? A sua inteligência? A sua capacidade inata para qualquer coisa? Também certamente, mas este livro sugere uma verdade mais complexa e desagradável para alguns: a sociedade é responsável pelo sucesso de cada um. Será isso novidade? Parece-me bastante óbvio que uma criança inteligente num meio rico terá muitas mais probabilidades de ganhar o prémio Nobel do que uma criança inteligente num meio pobre (ainda mais hoje com tantos problemas financeiros, quem consegue pagar propinas e tudo o que uma faculdade pede?).
Mas Gladwell vai ainda mais longe: o dia em que a pessoa nasce pode determinar o seu sucesso. Não só o local, mas também a data, o ano, a época. Não, não se trata de astrologia (como eu também pensava ao início), mas mais uma vez devido a um fenómeno social aparentemente simples (que, na verdade, vai de encontro à minha filosofia e maneira de ver a vida: não acreditando em coincidências).

Vários são os capítulos e cada um analisa o sucesso individual, justificando-o por um fenómeno social. Desde a família à data de nascimento, passando hábitos diários e a famosa regra das 10 000 horas. Tudo isso defendido por uma série de exemplos, alguns bastante famosos como The Beatles, Steve Jobs, Bill Gates ou Oppenheimer. Escrito da forma mais acessível ao mais comum dos leitores, é uma leitura no mínimo curiosa e que não desilude. E como já disse, em geral vai ao encontro da minha maneira como eu vejo o mundo, pelo que foi bom ver os meus pensamentos aqui reflectidos.

Peguem neste livro e leiam sobre ele. É muito interessante pegar neste livro, escrito para a pessoa comum, e ir depois pensar nele como uma análise de um fenómeno social bastante complexo (na verdade, algumas críticas apontaram precisamente a simplificação desse fenómeno). E não digo que nos faça mudar a maneira de ver o mundo (fá-lo-á a alguns), mas sem dúvida faz-nos pensar um pouco mais para além da pessoa que temos à nossa frente.

Terça-feira, 13 de Dezembro de 2011

No Reino de Glome, de C. S. Lewis

«Agora já estou velha e não temo a fúria dos deuses… irei escrever neste livro tudo aquilo que uma pessoa que é feliz não se atreveria a escrever. Vou acusar os deuses, especialmente o deus da Montanha Cinzenta. Vou contar tudo o que ele me fez, como se estivesse a apresentar a minha acusação perante um juíz. Eu sou Orual, a filha mais velha de Trom, rei de Glome.»

O reino de Glome, situado nas montanhas, na fronteira com a antiga Grécia, é uma terra bárbara onde se segue o culto obscuro à cruel deusa do amor, Ungit, e do seu filho, o deus da montanha, a que os gregos chamam Afrodite e Cupido. Quando Trom, o rei, casa novamente e dessa relação nasce Psique, a sua irmã mais velha, a princesa Orual, está longe de imaginar que esse nascimento irá modificar a sua vida e o curso da história.
Psique é de uma beleza inigualável, tão bela, inteligente e bondosa que o povo se esquece do culto a Ungit. A deusa enraivecida, exige que a princesa seja oferecida em sacrifício ao deus da montanha, mas ninguém poderia antecipar o que se iria seguir... Em breve os segredos escondidos na montanha vão ser revelados e Glome não voltará a ser o mesmo.

Do criador de "As Crónicas de Nárnia", este livro reconta a história de Psique e Cupido, um romance grego bastante famoso. C. S. Lewis considerou este livro como um dos seus melhores, ainda que tenha sido dos menos bem sucedidos no mundo editorial. Já tive a oportunidade de ler "As Crónicas de Nárnia" e depois de ter pegado neste, com alguma expectativa, creio que Lewis devia ter levado Nárnia um pouco mais a sério quando disse que "No reino de Glome" era o seu melhor...

Este livro tem como narradora Orual, irmã mais velha de Psique. Creio que ler a sinopse que deixei em cima é suficiente para perceber a história. Mas esta não é a história de Psique: é de Orual. Não acho que seja sequer a história de Deuses vs Homens (neste caso Orual) mas sim uma luta dentro da cabeça de Orual.
Não achei que este livro se comparasse, de todo, à fantasia criada com Nárnia, essa sim genial em toda a sua acepção.
Se o livro começa bem, com o passar das páginas vai-se tornando cada vez mais aborrecido. Orual é a irmã mais velha que adora Psique, Redival a irmã do meio, Trom um rei e pai tirano. Raposa é o escravo grego, tutor das três irmãs, que oferece uma visão do mundo mais realista, descrente em deuses como Ungit. Psique, devido à sua beleza, é oferecida ao deus da Montanha, filho de Ungit. Mas Orual, que não acredita nas divindades, está determinada em salvar a irmã... Sem esperar o que vai encontrar.

O livro seria espectacular se se resumisse a um conto. É o tipo de história que, num livro de 250 páginas, se vai arrastando até perdermos o entusiasmo inicial. Tive muita pena que praticamente todo o livro se debruçasse na luta pessoal de Orual e não houvesse mais momentos fantásticos, nomeadamente que de facto apelasse aos deuses. O livro arrasta-se indefinidamente nos pensamentos repetitivos de Orual sobre os deuses, sem eles alguma vez participarem de facto. Tudo acontece a passo de caracol, mais uma vez fazendo-me desejar que isto se resumisse a um conto.

Finalmente, cheguei ao fim confuso. Confesso que, se não fosse a nota do autor, que conta a história de Psique e Cupido "normalmente", não teria percebido. Não fiquei, pois, satisfeito. Ao contrário do que a Locus Magazine escreveu, sim, Tolkien teria escrito melhor, mesmo mantendo o ritmo lento e monótono da história de Lewis. Dispensável.

Sábado, 26 de Novembro de 2011

O Barbeiro, o Chef e o Artista, de Ceridwen Dovey

 Um barbeiro, um chef e um artista são feitos reféns num golpe executado para depor o seu líder, o presidente. São aprisionados num retiro palaciano nas montanhas, sobre a capital da cidade. Em baixo, longe dali, o caos invade as ruas. A filha do chef, a mulher do artista e a amante do barbeiro observam na sombra os seus homens. Em tempos tão precários, as relações íntimas são tão perigosas quanto as políticas. À medida que a ordem antiga se desmorona, também cai o véu que esconde a verdade sobre as paixões secretas destes homens e mulheres. Conduzindo magistralmente o leitor em direcção ao clímax devastador do romance, Ceridwen Dovey revela como os impulsos humanos mais ancestrais - a vaidade, a vingança e a ganância - se agitam permanentemente sob o verniz da sociedade.

“Um romance de estreia meticuloso e aterrador [que oferece] visões francas e arrepiantes da natureza sedutora do poder […]”
The New York Times Book Review 

“A prosa de Dovey confere aos acontecimentos um ar de magia e permite que esta pequena história que se assemelha a uma fábula ilustre de forma clara a velha máxima sobre a capacidade do poder para corromper.”
Publishers Weekly

"Parte thriller erótico, parte alegoria política ameaçadora, [este romance é] a estreia inesquecível de Dovey [...] Dovey imbui cada personagem de humanidade e revela de forma brilhante como actos banais como cozinhar e barbear podem revestir-se de desejo e intenção política." Vogue


Este foi um livro-oferta na Feira do Livro. Fui eu aliás que escolhi. A lista por si não tinha muitos livros que me chamassem a atenção. Este pareceu-me a melhor leitura, não que prometesse ser uma grande leitura, mas não pensei que fosse dar o meu tempo por perdido.

Depois de ter decidido interromper a leitura da série de Charlaine Harris, peguei neste livro. Mais uma vez, por nada de mais. É um livro pequeno, era o que tinha ao lado e não deixava de me despertar alguma curiosidade.
As três personagens que o título refere trabalham para o Presidente. Até ao dia em que se dá um golpe de estado. O Presidente cai e percebemos que cada um dos três tem uma vida única que assume um papel diferente: não só no decurso do golpe mas na vida de todas as pessoas envolvidas.

Li este livro aquando a queda de Kadafi e não consegui deixar de relacionar as duas situações. Não há nomes próprios neste livro, nem para as pessoas nem para a cidade, pelo que não é muito difícil fazê-lo.

Foi uma agradável surpresa e creio que temos aqui uma verdadeira escritora. São-nos apresentadas personagens muito distintas e desenvolve-se um enredo bem trabalhado e aliciante, em que os destinos de todos se tocam. Como eu gosto de ver. Adorei a forma como o livro e a história se organiza. Se encontrar um segundo livro da autora, não deixarei de tentar saber mais sobre ele.

A minha desilusão prende-se ao final. Em parte previsível, em parte não, mas não acho que esteve à altura do que esta autora prometeu ao longo do livro. Depois de um enredo tão bem construído, tenho a certeza que a autora conseguiria encontrar um final mais chocante, mais inesperado e uma reviravolta muito mais triunfal. Trata-se de um enredo que envolve não só estas três personagens mas também o Presidente, o Comandante (que tomou posse) e a mulher do Comandante, e todos eles se ligam numa perfeita teia de destinos e acontecimentos. O final é em parte previsível, em parte inesperado, dependendo sempre das expectativas que o leitor cria com as personagens ao longo da leitura. Ainda que, bem visto, seja uma verdadeira reviravolta no esquema da história, não achei que estivesse à altura da extraordinária capacidade da autora.

Não deixa de ser, contudo, um livro muito bom do início ao fim. É, sem dúvida, uma estreia que prova um grande talento na escrita. Fico à espera de mais!

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Definitely Dead, de Charlaine Harris

Mais um livro. Depois de "Dead as a Doornail" pensei em interromper a leitura da série e intercalar com um livro completamente diferente. No entanto, ainda que o volume anterior não me tenha agarrado tanto quanto os outros, não me tirou a vontade de continuar a ler esta série deliciosa. Peguei assim neste sexto volume, desta vez sem as expectativas que se criaram nos primeiros livros.

Para quem já se afirma fã da série, como eu, vai mais uma vez gostar muito deste livro. Aliás, é possível que vá gostar ainda mais, pois este "Traição de Sangue" (como está traduzido em Portugal) tem muitas surpresas e novidades em relação às personagens principais, quando pensávamos que sabíamos quase tudo sobre elas...

Ainda assim, não foi este livro que me fez suspirar de novo, como bem sei que a autora é capaz de fazer. Infelizmente fiquei demasiado agarrado à história do quarto livro, enquanto Harris decidiu deixar alguns desses assuntos um pouco pendurados ou referi-los de vez em quando, mas não com a mesma intensidade. Há alturas em que só queremos ler aquilo, só queremos um curso na história, mesmo que se gaste rapidamente (daí que compreenda o que a autora está a fazer). Para mim, essa é uma daquelas alturas.

Mais uma vez, as personagens secundárias que a autora nos apresenta, com especial destaque neste volume para a Rainha, são talvez o ponto mais forte do livro. Também gostei bastante que o foco se tenha direccionado de novo para a sociedade vampírica, ao contrário do livro anterior.

Por outro lado, pareceu-me que este livro demorou algum tempo a começar. A história central passa por Sookie ir até Nova Orleães reunir os pertences da sua falecida prima, que se tinha tornado uma vampira. Mas, como é típico nestes livros, essa é apenas uma pequena parte da história. Senti contudo que neste livro não existiu sequer esse tema central, acabando por se perder por todos os outros assuntos secundários (a nova relação de Sookie não é de todo má, mas depois de ler "o tal" quarto livro não era o que queria... E o que me mais me agarrou neste livro foi precisamente o aparecimento da família de Debbie, uma metamorfa que deu muitos problemas a Sookie... No quarto livro!). Quanto aos mistérios, que no fim acabam sempre por ser resolvidos, continuam a despertar a atenção do leitor, embora ache que a autora já tenha conseguido melhor.

Sinto que já passei pelo auge da série. Já assistimos a um clímax. Agora, estamos a atravessar uma nova fase. Resta-nos continuar a ler e esperar por um segundo clímax, pelo auge desta parte da série, que acredito que seja daqui a dois/três livros. Mais uma vez, apesar de tudo acabei de ler com vontade de continuar, por pura curiosidade, até que a autora decida escrever sobre aquilo que quero ler. No entanto, decidi interromper por aqui a minha leitura. Talvez ler os livros desta maneira seguidos não seja também a melhor solução. Voltarei a pegar quando me sentir pronto.

Quarta-feira, 5 de Outubro de 2011

Dead as a Doornail, de Charlaine Harris

Depois do incrível quarto livro, segui imediatamente para o próximo, conhecido em Portugal por "Sangue Furtivo". Se o último deixou-me a querer devorar a série, este acalmou um pouco essa fome...

Os acontecimentos de "Dead to the World" foram tantos e tão importantes que, se por um lado promete muito que falar nos próximos livros, marca o fim de um ciclo desta série. Muita coisa mudou na situação de cada um. Portanto, fui para este livro ansioso por uma continuação de "Dead to the World", mas como já devia ter previsto encontrei sim um novo livro, uma nova história e apenas uma linha de história secundária que remete aos acontecimentos anteriores.

Como Harris já andava a prometer, desta vez o mundo vampírico perde bastante o destaque e entramos em contacto com a sociedade dos lobisomens. Se nos livros anteriores sempre me vi interessado, não gostei de ver o mundo desses seres sobrenaturais estar em primeiro plano. Os vampiros são negros e misteriosos o suficiente para não perderem o protagonismo. Ainda assim, continuo a louvar a mestria com que a autora desenvolve estas comunidades no nosso mundo, tornando-as tão reais.

É um livro muito bom para quem já é fã da série, mas para mim não é tão bom quanto os anteriores. Comparado com os maravilhosos enredos dos livros anteriores, este é um decréscimo visível. Algumas linhas da história já começam a parecer ir buscar uma fórmula que estamos cansados de ver. Não gostei da resolução dos mistérios (parece que são sempre as mesmas pessoas e desta vez pareceu mais rebuscado do que devia). Pela primeira vez, senti-me algo exasperado pela atitude da Sookie, a protagonista. Estar descomprometida tem os seus inconvenientes. No seu caso, torna-a algo mais... Instável. Não é um livro que avance muito na história, ainda que nos apresente mais terreno no mundo sobrenatural. Em conclusão, é um rescaldo dos livros anteriores, especialmente do imediatamente antes. Continua a vontade de prosseguir, mas já percebi que enquanto a autora não voltar a pegar nos mesmos elementos de "Dead to the World", não vou sentir a mesma coisa.

Domingo, 4 de Setembro de 2011

Dead to the World, de Charlaine Harris

 "An increasingly riotous series... Ms. Harris has never been in better form." - The Dallas Morning News

"Charlaine Harris continues her delightful Southern Vampire detective series." - The Denver Post

It's not every day that you come across a naked man on the side of the road. That's why cocktail waitress Sookie Stackhouse doesn't just drive on by. Turns out the poor thing hasn't a clue who he is, but Sookie does. It's Eric the vampire--but now he's a kinder, gentler Eric. And a scared Eric, because whoever took his memory now wants his life. Sookie's investigation into who and why leads straight into a dangerous battle among witches, vampires, and werewolves. But a greater danger could be to Sookie's heart--because this version of Eric is very difficult to resist...

"[A] frothy fusion of romance, mystery, and fantasy." - Publishers Weekly

"Nifty... As fans of Buffy the Vampire Slayer know, a sense of humor helps when dealing with the supernatural." - Orlando Sentinel

Wow.
Dispensa introduções. Este não é apenas o melhor livro da série até agora, é sozinho de tirar a respiração. Ler este livro foi uma experiência completamente fenomenal.


Até agora os livros têm aprofundado este mundo sobrenatural bastante bem. Chegamos ao quarto livro completamente inseridos nesta realidade alternativa, em que os vampiros não só existem como estão “fora do armário”, revelados ao mundo; um mundo onde existem todo o tipo de seres sobrenaturais, mesmo que alguns sejam difíceis de perceber. Metamorfos; bruxas; fadas; lobisomens. Aliás, cada vez mais Harris parece debruçar-se sobre as comunidades de metamorfos, pessoas capazes de se transformarem num certo animal (tal como os lobisomens, ainda que estes se coloquem num outro patamar).
Portanto, numa série normal, estando já tão familiarizados com a história e as suas personagens (como se fossem nossos vizinhos), só podemos esperar novas aventuras e mistérios, sem que as personagens em si se afastem muito da realidade de sempre.

Bem, aqui está o encanto da série. Neste livro somos seriamente surpreendidos: Eric, um vampiro bastante atraente e com uma personalidade algo egocêntrica fica amnésico; o irmão de Sookie desaparece. Harris continua a apostar num enredo com vários mistérios e várias linhas, sem se perder.
A princípio, este novo vampiro Eric, meigo, não foi do meu agrado… Sabem quando se cria aquela tensão entre duas personagens de personalidades fortes, mas no fundo sabemos que queremos vê-los juntos? Assim tem sido até agora (Club Dead foi bastante, bastante forte nesse ponto). Portanto, ver um vampiro tão meigo e “fácil”… Não parece ser a melhor maneira de ver duas personagens juntas.
A verdade é que cheguei ao fim do livro esperando que ele não recuperasse a memória. Não só porque este livro é talvez o mais excitante da série, com cenas sexuais altamente empolgantes, mas também porque nunca até agora presenciámos tanta emoção. Se até agora a acção dos livros me tem tirado a respiração, neste aqui não só é a acção mas também a emoção incutida. A emoção da luta, em que todas as personagens que até agora conhecemos se juntam para lutar contra as Bruxas; a emoção do casal, um amor pleno que não nos tinha sido oferecido até agora. Fiquei apaixonado.

Depois de ler este livro, só posso pedir que dêem uma oportunidade. É um livro muito bem escrito, inteligente, com bastantes personagens e cada uma cativante, com um enredo que não se perde e que só nos deixa largar o livro na última página. Até o facto da personagem principal não ter o mesmo namorado dos livros anteriores é uma lufada de ar fresco.

Eu queria, depois deste livro, ler algo fora da série, mas não consigo. Tenho de continuar. A paixão que fica deste livro é demasiado forte para não querermos continuar logo de seguida.  Não sei se é possível melhor do que isto, mas desde o primeiro livro que a série tem aumentado a fasquia. Sigo imediatamente para “Dead as a Doornail”, e espero bem que pegue no que foi dado agora.



P.S.: em Portugal, o livro está traduzido com o título "Sangue Oculto".

Terça-feira, 16 de Agosto de 2011

Club Dead, de Charlaine Harris

(sinopse em breve)


O terceiro livro desta grande série sobre vampiros. Vampiros? Seres sobrenaturais! Metamorfos, lobisomens, e sabe-se lá que mais haverá afinal neste mundo (porque, se os vampiros existem, porque não existirão todos os outros seres mitológicos?).

Club Dead, de nome Clube de Sangue em Portugal, segue uma fórmula idêntica ao do volume anterior: a aventura de Sookie passa-se numa cidade, fora da pequena vila rural onde vive, dando ao leitor a oportunidade de ter um contacto maior com a sociedade vampírica e de outros seres. Neste livro, temos o prazer de entrar em contacto com os lobisomens, pouco mais do que uns gangsters com a particularidade de se transformarem em lobos aquando a Lua Cheia.

À medida que a série avanço fico mais embrenhado. As personagens que aparecem são cada vez mais interessantes. As velhas personagens tornam-se nossas conhecidas e é impossível deter a curiosidade em saber como será o seu futuro.

Desta vez, Sookie vê-se obrigada a ir ao Mississipi procurar o seu namorado, Bill, desaparecido. E enquanto se envolve demasiado no mundo negro dos seres sobrenaturais, é muito bom saber que a autora promete continuar a renovar a série, não prendendo a sua personagem principal a um namorado para o resto da vida (pessoalmente, gostava muito de ver Sookie envolvida com Alcide, o lobisomem que conhecemos neste livro, ainda que Eric, também vampiro, dê uma paixão renovada).

Várias foram as vezes que me vi a suster a respiração. A acção não pára. Tanto somos agarrados pela sensualidade de uma dança como corremos pela vida. Há surpresas, há coisas esperadas, mas tudo se desenvolve de uma forma bastante real. As personagens são bastante reais e gostemos ou não delas são tão completas como qualquer um de nós. Tenho a noção que continuar com este ritmo numa série que vai com mais de dez livros é complicado, mas até agora tem sido fenomenal. Ler na língua original é um deleite extra.


Quinta-feira, 11 de Agosto de 2011

Preciso de ti, de Luísa Jeremias

Não há nada mais difícil do que revelar um segredo. Violeta Guerra sabia-o, por isso tinha-o guardado a sete chaves, há mais de um ano, com medo de ser julgada, de, ao dizê-lo, torná-lo real. Contudo estava longe de imaginar que, ao abrir as portas do seu coração às suas duas melhores amigas, a sua vida iria sofrer uma tamanha transformação. 

Mas a vida é realmente uma caixa de surpresas. Depois de perder o emprego e de se libertar de uma relação amorosa sem futuro, Violeta, aos 33 anos, está pronta para enfrentar a vida tal como ela é, com as suas alegrias, tristezas, perdas, obstáculos e vitórias. Para isso, conta com a ajuda das suas amigas, Rita, a eterna solteirona, que faz da vida uma festa e não pretende ficar refém do amor, e Inês, casada, mãe de duas filhas, que não se deixa levar nem pela morte nem pela doença que abala a sua família. Amigas que estão sempre presentes, nos bons e nos maus momentos, nas alegrias e na dor, para dar a mão ou puxar por ela quando precisamos de coragem. Juntas estão dispostas a tudo para serem felizes e encontrarem o amor, nas suas mais diferentes formas. 
Preciso de ti é o romance-estreia da jornalista Luísa Jeremias, que, com mestria e um ritmo narrativo empolgante, nos leva numa viagem original ao mundo das mulheres portuguesas, das suas relações de amizade e de amor. Um mundo onde não faltam emoções e sentimentos. Risos e choros. Sonhos e conquistas.
Porque a vida vale sempre a pena e precisamos sempre de alguém ao nosso lado com quem possamos contar.

Este é um livro difícil de opinar... Não porque não saiba o que dizer sobre ele, mas é sem sombra de dúvida um livro dirigido às mulheres. Claro que qualquer homem pode aventurar-se nesta leitura e tentar compreender melhor o sexo oposto. No entanto, da história às personagens, é o pensamento feminino que habita estas páginas e acredito que as mulheres terão bastantes mais probabilidades de se ligar a este livro do que um homem. Por isso, opinar sobre a minha experiência de leitura será trair um pouco a sua visão.


Não é um livro com uma história muito peculiar. É sim um livro sobre a vida. Como todos nós a vivemos. Contado na primeira pessoa, Violeta Guerra é uma jornalista com a sorte de ter duas grandes amigas a seu lado. Cada uma delas têm uma personalidade bastante característica, não deixando de ser as melhores amigas. Cada uma vive os seus problemas do dia-a-dia (aliás, chega a ser um pouco exasperante como capítulo após capítulo surge mais um azar, mais uma surpresa menos agradável, talvez a forma que a autora encontrou de fazer avançar a história) e talvez não seja muito diferente do que nós experimentamos.


Para as mulheres, tenho a certeza que encontrarão neste livro algo que as faça sentir acompanhadas. Como um cúmplice. Personagens femininas com as quais não apenas se identifiquem mas que as façam sentir menos sozinhas. Por não ser uma história com demasiadas peculiaridades, é muito fácil sentirem-se próximas dos acontecimentos, e por cada mulher ser bastante distinta encontrarão alguma característica na qual se identifiquem. 



A juntar a isto, é um livro fácil de ler, com um ritmo bastante fluido. Se lhe apetece ler, apenas ler, não grandes obras, ou histórias muito trabalhadas ou particulares, este é o livro que quer. Muito despretensioso, é uma experiência de escrita sobretudo, sem almejar a um qualquer estatuto na Literatura. A lição é muito simples: precisamos sempre de alguém. Com quem partilhar um segredo. Com quem partilhar a vida. E

O que faltou? Aquilo que, muito pessoalmente, gosto de encontrar no livro: uma introspecção diferente; algo que ligasse o livro todo, sem contar com a simples amizade das três amigas; pela primeira vez, senti falta de uma personagem masculina com que eu pudesse contactar, não apenas o "príncipe encantado" mas sim uma personagem com que pudéssemos também conversar. Daí achar que, por muito boas as intenções, este não é um livro para os homens.


Finalmente, parte da magia do livro é esta: seja estendida na toalha de praia, seja perto da lareira num dia frio de Inverno, este livro é uma leitura para qualquer ocasião. No ponto Luísa! Fico à espera do próximo romance.

Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

Releitura de Living Dead in Dallas, de Charlaine Harris

Continuo a leitura desta maravilhosa saga de vampiros. Até agora só tinha lido até este segundo volume, por isso a partir de agora será tudo novidade.

Quando a Dívida de Sangue (título publicado cá em Portugal), cuja primeira crítica podem ler aqui, surpreendeu-me mais nesta releitura do que me lembro ter feito da primeira vez!

O factor "novidade" que tanto louvei no primeiro livro de alguma forma já não está tão presente neste livro. Pelo menos assim que o começamos. Talvez porque li-o de seguida ou talvez simplesmente porque o primeiro livro serviu de introdução (daí a sensação de ser tão original) e este segundo é nada mais do que um começo sério de uma série que se vai prolongar durante vários volumes.

Sookie começa esta nova aventura de forma bastante abrupta: um colega de trabalho é morto e quase ao mesmo tempo ela encontra-se com um ser mitológico, uma Ménade, que a deixa entre a vida e a morte. Depois de ser salva pelos vampiros, é-lhe dada a tarefa de viajar até Dallas para, com os seus poderes telepáticos, descobrir o que aconteceu a um vampiro desaparecido.

Uma coisa que me incomodou, já no primeiro livro, foi a introdução de mais seres sobrenaturais na série. Estava à espera disso talvez no terceiro livro, mas não logo no primeiro (os "shapeshifters", pessoas que se transformam em animais, são desde o primeiro livro abordados)! Pelo que mais um ser sobrenatural na história como a Ménade foi, para mim, um bocado abrupto. Felizmente, ao longo do livro mudei completamente a minha opinião. De alguma forma, Harris consegue levar-nos até ao fim e deixar-nos fascinados com a variedade de seres sobrenaturais que vão aparecendo. É a diferença entre a Fantasia e um fascinante Mundo Alternativo.

Carregado de muita acção e muito contacto com o mundo vampírico, comparado com o primeiro livro é bastante mais completo. Temos um contacto muito maior com a sociedade que os vampiros formam e ficamos a saber mais alguns dos seus hábitos. Uma vez que a maior parte do livro se passa numa grande cidade, temos esta perspectiva incrível da maneira como os vampiros e os humanos se relacionam. Como já no primeiro livro referi, esta relação está extremamente bem desenvolvida, tão realista que ao ler não consigo deixar de pensar em todos as "minorias" da nossa sociedade actual, como a comunidade LGBT. A presença dos vampiros e as suas complicações na sociedade humana são tão presentes quanto qualquer outra comunidade da nossa sociedade.

É de nos deixar sem respiração. Conhecemos uma quantidade de personagens novas em Dallas, completamente deliciosas de seguir. É um livro com um enredo tão abrangente que sem dúvida reforça o poder que a série pode vir a ter. Não há um único momento morto e continua a ser de fácil leitura. Harris promete, com este livro, uma série com várias reviravoltas e "mudança de ares" (ou de vampiro) de vez em quando, por isso mal posso esperar para continuar.

Sábado, 16 de Julho de 2011

Releitura de "Dead Until Dark", de Charlaine Harris

A editora Saída de Emergência parece estar a fazer um excelente trabalho na tradução desta série de vampiros, que considero absolutamente irresistível e a melhor que poderão encontrar actualmente. Por muito cansado que esteja da avalanche da febre dos vampiros (que parece-me já ter acalmado), garanto que esta série revela-se uma leitura compulsiva. Infelizmente, acaba por ser, pelo menos no nosso país, "mais uma" dentro das múltiplas publicações que existem. Poderão encontrar 9 dos 11 livros escritos já cá publicados.

Também já ganhou uma adaptação para série televisiva. Ainda não assisti a nenhum episódio, mas segundo as opiniões dos espectadores tem bastantes desvios dos livros.

Adquiri as edições inglesas quando a série tinha acabado de chegar a Portugal. Na verdade, podem ler a minha crítica aqui, e estou espantado como foi em 2009!! Estou abismado em como já foi há dois anos que peguei pela primeira vez neste livro. Li este primeiro, li o segundo, mas acabei por afastar a série para dar prioridade a outras leituras. Desta vez, estou decidido em continuar a ler até ao fim, ou pelo menos perto disso.

Como já disse, este é sem dúvida um dos livros que mais gostei de ler. Absolutamente original. Mesmo já tendo lido bastantes livros de "vampiros modernos", este continua a parecer o mais original de todos, o melhor escrito e o com a melhor premissa.
Sookie é uma empregada de mesa em Bon Temps que consegue ler os pensamentos dos outros humanos. Ainda que a impeça de ter uma vida social satisfatória, não deixa de ser um dom que ela consegue controlar. O grande abalo da sua vida acontece quando conhece o vampiro Bill, um "não-morto" que decidiu, por sua vez, ter uma vida social. É que, nesta série, os vampiros são legalmente aceites como cidadãos do mundo. Para perceberem a situação, vou comparar a situação dos vampiros à situação dos homossexuais. Nesta série as questões sexuais são completamente aceites, aliás há uma grande carga sexual tanto na maneira como os vampiros são como na maneira como Harris desenvolve a história. Os vampiros acabam por ser o que os homossexuais são actualmente, cidadãos "diferentes" do que a norma da nossa sociedade estipula, que lutam pelos seus direitos e alguns procuram viver abertamente junto dos humanos.

A relação entre Sookie e Bill é intensa, mas o vampiro dificilmente se integra em Bon Temps quando há um assassino à solta que anda a matar raparigas. E todas elas têm marcas de dentes de vampiro (convém dizer que sexo entre um humano e um vampiro é altamente exótico... E viciante).

Não se podia pedir que o livro estivesse escrito de outra maneira. É uma excelente introdução à série. Parece-me óbvio que há muita coisa que ficou por desenvolver, principalmente dentro do mundo dos vampiros, mas isso é precisamente aquilo que deve ser deixado para os próximos volumes. Por enquanto, tudo aquilo que foi dito chegou para nos deixar a querer conhecer este mundo alternativo. Escrito na primeira pessoa, é uma leitura simples e que se desenrola sem problemas, sempre com aqueles momentos mais picantes que dão à obra um ar mais exótico. Difícil não gostar, na minha opinião. Sempre original, fico muito feliz por ter relido um livro tão apetecível e que nunca quebra o ritmo.


P.S.: fui ler a minha opinião da primeira vez que li o livro. Não mudou nada. Aliás, convido-vos a ler. Talvez na altura me tivesse "empolgado" na questão mais sexual do livro, que nesta releitura me soube a algo mais "natural". Como se o tema "vampiro" estivesse automaticamente associado a sexo, portanto ele ser abordado sem qualquer tabu não parece novidade ou chocante. Quanto à relação entre Sookie e Bill, de facto é tão instável que chega a irritar... Vampiro ou não, é uma relação que parece mais aberta do que se gostaria.

Domingo, 10 de Julho de 2011

Nove Semanas e Meia, de Elizabeth McNeill

 Sim, provavelmente já viu o filme. mas ao ler o livro que lhe deu origem, a imaginação permite outros voos, que não passam necessariamente pelas caras (e corpos) de Mickey Rourke e Kim Basinger. Elisabeth McNeill é um pseudónimo que oculta a identidade de uma mulher de negócios nova-iorquina que, em 1978, revelou aqui as memórias de uma aventura sexual obsessiva, com padrões próximos do sadomasoquismo, com um homem que conheceu casualmente.

Bem, eu não vi o filme, mas espero pegar nele em breve!
Talvez alguns de vocês questionem o interesse da Literatura Erótica. Na verdade, eu respondo que livros eróticos são dos poucos livros que oferecem uma análise tão profunda e bem explícita da condição humana. A obsessão,  o desejo e prazer, a necessidade, até o amor, tudo aquilo que tanto caracteriza a motivação humana é exposta nestes livros, atingindo os limites. É um tipo de leitura fascinante que me dá bastante prazer em analisar (não estou a falar dos livros que encontramos na papelaria da Sabrina ou qualquer outro nome, esses sim próprios para fantasiarmos com a beleza dos corpos, embora nunca tenha lido nenhum desses).

Nove Semanas e Meia é igualmente cativante, ainda que bastante diferente da minha leitura erótica anterior (Sob os Telhados de Paris). Este livro é sobretudo a exposição de uma relação amorosa, em que o homem exerce um poder demasiado grande sobre a mulher, que loucamente apaixonada é capaz de fazer qualquer coisa por ele. De repente, a dor que ela achava repugnante torna-se um prazer, simplesmente porque o agrada. É talvez complicado perceber porque é que esta mulher não abandonava uma relação que ia longe demais nas suas fantasias, mas o que ela sentia por ele ultrapassava a paixão. E ele fazia tudo, mesmo tudo, por ela, portanto cabe ao leitor julgar a posição de ambos.


Não é um livro que dê destaque algum aos corpos dos personagens ou aos pormenores das relações sexuais. Aliás, nunca nos é fornecida uma descrição completa dos dois personagens, homem e mulher. Que me lembre, a única coisa que chegamos a saber é que ele tem um sorriso bonito e ela seios pequenos. Não é nada se considerarmos isto Literatura Erótica!
Mas, como disse logo ao início, a obsessão, a necessidade, são os principais temas deste livro. No fundo, não é pelo sadomasoquismo das relações sexuais, mas sim as motivações para isso e o que é que sentiam no momento.
Um livro pequeno, com uma escrita simples, mas aconselhável apenas a quem se interessar pela história, pelos temas abordados ou pelo tipo de literatura. Caso contrário, não é mais do que uma leitura de relativo interesse. Não me marcou sobremaneira como Sob os Telhados de Paris, acabando por servir apenas como "leitura entre livros", se me faço compreender. Tem um final repentino, mas as últimas palavras finalizam toda a obra.
Não é o tipo de relação que alguma vez estabelecesse com alguém. Ainda assim, quem sabe com quem me cruzarei amanhã...



Sexta-feira, 8 de Julho de 2011

A Viagem, de Tim Kring e Dale Peck

DO CRIADOR DA SÉRIE TELEVISIVA HEROES CHEGA A MAIOR CONSPIRAÇÃO DE TODOS OS TEMPOS.
 

Memorandum: Apenas para os seus olhos, queimar depois de ler

23 Novembro, 1963
Para: Director McCone
De: J. J. Angleton, Director,

Contra-informação
Assunto: Consequências para a Companhia dos acontecimentos de ontem em Dallas.
Facto: Desde 1953 que a Companhia desenvolve um programa secreto denominado MK-ULTRA.
Facto: O programa testou LSD em milhares de cidadãos Americanos.
Facto: O objectivo? Controlo da mente. A criação do agente infiltrado perfeito. O candidato da Manchúria.
Facto: O KGB desenvolvei programas similares.
Facto: Lee Harvey Oswald viveu na União Soviética de 1959 a 1962.
Conjectura: Terá o LSD matado JFK?


Quem não é apreciador de uma boa teoria da conspiração? O mistério, as motivações, a realidade e a fantasia juntas para tornar a vida um pouco mais interessante.
O assassinato de John F. Kennedy, presidente dos EUA, em 1963, é um tema embrulhado em mistério. Lee Harvey Oswald foi o suposto assassino, tendo supostamente agido sozinho... Mas hoje em dia cada vez mais temos a noção de que muita coisa acontece acima de nós, coisas cuja verdade só daqui a muitos anos, muitos mesmo, poderá ser revelada. O assassinato do presidente é uma delas. O poder é uma coisa  assustadora.


CIA, KGB, FBI, Estados Unidos, União Soviética, uma série de pessoas relacionadas com todas essas organizações e nenhuma ao mesmo tempo... Este livro mostra bem como a realidade destas empresas de poder é bastante complexa e como cada um joga por si. Aliás, por vezes nem por si!


Assim que tive este livro nas mãos achei-o bastante interessante. Nunca li muito sobre JFK, e sinceramente os assuntos da CIA são tão misteriosos que me parecem demasiado confusos (que oportuno!). Achei que este livro seria pois um excelente começo para despertar o meu interesse no estudo desta época que marcou tanto a História dos EUA e do Mundo. Por um lado, acabou por ser de facto um bom incentivo para pesquisar tudo sobre este acontecimento. Por outro lado, não foi ao início a melhor maneira de clarificar as minhas ideias.


Infelizmente, para um tema que envolve de facto bastantes situações, inclusive a Guerra Fria, a crise dos mísseis em Cuba, a situação desse país, etc, este livro não começa bem. Parece-me que o autor toma imensos acontecimentos, situações ou ideias como garantidas. Para um leitor como eu, que mesmo tendo estudado um pouco sobre esta época não sabe metade das conspirações que existem, é bastante frustrante não me conseguir situar no livro. Isto prolonga-se nas primeiras 100 páginas. Talvez (e nem tenho a certeza disso) os americanos falem destas coisas todos os dias e estejam bastante familiarizados com todas as pessoas e todas as conspirações e todos os detalhes fictícios ou não durante este período da Guerra Fria, mas eu não estava e isso prejudicou muito o princípio da minha leitura. De minuto a minuto vinha pesquisar sobre um assunto que o livro abordava. Acho que isso era algo que o próprio livro me devia ensinar. Se por um lado é genial porque não há qualquer fingimento da parte das personagens, por outro não é bom para o prazer da leitura.


Enfim, com isto, a minha primeira impressão era que antes de ler este romance devia ter lido meia dúzia de livros ou documentários sobre a vida dos Kennedy. Um livro destes, por boa leitura que se tornasse, estava condenado a não ser mais do que isso, um daqueles livros que lemos, podemos gostar mas que não nos vão marcar.
Felizmente, dei uma oportunidade e continuei. Aliás, peguei no livro e num dia li pouco mais de 200 páginas, o suficiente para estar suficientemente agarrado. À medida que avancei na leitura comecei a "entrar" no esquema, a habituar-me às personagens e a não me perder nos saltos de locais de acção constantes. Ao contrário do que tinha previsto, acabei por me sentir ligeiramente agarrado às personagens principais (já agora, construídas com bastante pormenor). No climax da obra, o meu coração galopava e não conseguia parar. Ao contrário do que eu já tinha tomado como garantido... Este livro agarrou-me e deixou-me completamente empolgado. Até hoje, é dos poucos livros que me agarrou mais pela acção do que pela teoria.
Foi, ao virar a última página, uma leitura mais do que satisfatória, que aconselho a quem goste de um bom livro com acção ou a quem se interessar minimamente pelo tema ou por teorias da conspiração.


A única coisa que torna este livro demasiado "fictício" é que a história do LSD e de Orfeu são tão fantásticas que acaba por dar à obra um toque de "ficção-científica". Acho, aliás, que percebe-se perfeitamente que a mesma pessoa que escreveu Heroes é quem escreveu este livro. História alternativa ou não, ficção ou próximo da realidade, o final é satisfatório. Não sei se será perfeito (não no que toca ao destino das personagens de certeza), mas pelo menos como teoria da conspiração tem tudo aquilo que procuramos. As últimas páginas compensam a fantasia toda e, ainda que acredite não ser esta a "verdade" final, é bastante convincente. Pode ter sido assim.


As últimas palavras vão para a capa, na minha opinião muito boa. Ainda que o livro não seja tão psicadélico quanto ela sugere.



Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

Novidade para ler este Verão!

Preciso de Ti, de Luísa Jeremias, promete ser um daqueles romances deliciosos para se ler este Verão. Aconselhado às mulheres portuguesas mas também "aos homens que dizem nunca compreenderem as mulheres", citando as palavras da autora.

Não há nada mais difícil do que revelar um segredo. Violeta Guerra sabia-o, por isso tinha-o guardado a sete chaves, há mais de um ano, com medo de ser julgada, de, ao dizê-lo, torná-lo real. Contudo estava longe de imaginar que, ao abrir as portas do seu coração às suas duas melhores amigas, a sua vida iria sofrer uma tamanha transformação. Mas a vida é realmente uma caixa de surpresas. Depois de perder o emprego e de se libertar de uma relação amorosa sem futuro, Violeta, aos 33 anos, está pronta para enfrentar a vida tal como ela é, com as suas alegrias, tristezas, perdas, obstáculos e vitórias. Para isso, conta com a ajuda das suas amigas, Rita, a eterna solteirona, que faz da vida uma festa e não pretende ficar refém do amor, e Inês, casada, mãe de duas filhas, que não se deixa levar nem pela morte nem pela doença que abala a sua família. Amigas que estão sempre presentes, nos bons e nos maus momentos, nas alegrias e na dor, para dar a mão ou puxar por ela quando precisamos de coragem. Juntas estão dispostas a tudo para serem felizes e encontrarem o amor, nas suas mais diferentes formas.

Luísa Jeremias nasceu em Lisboa, formou-se em Comunicação Social, na Universidade Nova de Lisboa, e tornou-se jornalista. Começou a trabalhar, em 1992, no jornal Diário de Notícias, passando depois por A Capital e 24horas. Em 2003 estreou-se nas revistas, como directora da TV 7 Dias e, mais tarde, Nova Gente e Focus. É directora das revistas TV Guia e Flash!. Pelo caminho, fez incursões em guião e documentário para as antigas produtoras NBP e Multicena e é co-autora do livro Noites de Lisboa.

 Aconselho sem reservas este livro de uma pessoa capaz de encantar com a sua escrita e que certamente nos oferece uma dose ideal de romance, emoção e descontracção.

Sábado, 4 de Junho de 2011

Releitura de "A Mecânica do Coração", de Mathias Malzieu


Apeteceu-me pegar neste livro pequenino que tanto gostei de ler. É aquele tipo de leitura que nos embala o coração! Apeteceu-me entrar nessa onda... E sabia que este livro era ideal.

Ternamente lindo. É uma história de amor, e portanto triste... Que nos deixa profundamente emocionados pela peculiaridade das personagens e pela escrita tão poética.
Jack nasce no dia mais frio do mundo. O seu coraçãozinho gelado não sobreviveria se a doutora Madeleine, parteira tomada por bruxa na cidade de Edimburgo, não tivesse instalado um relógio que aguentava as batidas do coração.
O problema é que grandes perturbações nesse relógio fá-lo-iam funcionar mal. Sentimentos fortes levariam a que os ponteiros se espetassem no corpo do pequeno Jack, matando-o... Sentimentos como o amor, o ódio e o desgosto.
É então com essa mãe adoptiva e os seus companheiros (um homem cuja coluna vertebral é um instrumento musical e duas prostitutas) que Jack cresce, habituado à sua vida calma. Até conhecer o amor da sua vida...

Com esta releitura, percebi aquilo que acho não ter percebido da primeira vez: este livro podia ser uma obra-prima. Podia mesmo. Mas não é. A história é lindíssima e o autor tem mesmo muito, muito jeito para escrever, ainda assim tivesse sido explorado mais intensamente, tivesse sido um pequeno livro ainda mais bem pensado, estaríamos perante uma obra-prima. Não estamos. Estamos perante um livro de uma beleza rara e que servirá de releitura para sempre.

Decididamente, adoro este tipo de leitura. Muito surreal, muito invulgar em todos os aspectos, sempre com um sabor a originalidade. Malzieu tem o tipo de escrita perfeito para este livro, de uma poeticidade enorme, nunca se cansando de recorrer a palavras e expressões que nos transportem para esse ambiente fora deste mundo.

É um livro muito bonito, muito muito romântico, mas triste também. É uma história com uma presença gótica bastante forte. Já estão a fazer um filme, o que me agrada pois acho que ficará uma bela história em imagens.

E já dei corda ao meu coraçãozinho com este livro. É preciso de vez em quando.

Sexta-feira, 3 de Junho de 2011

Sentença de Morte, de Val McDermid

 (possíveis spoilers nesta sinopse, não perdem nada se avançarem para a crítica propriamente dita)
Num dia gélido de Dezembro de 1963, Alison Carter, de 13 anos, desaparece subitamente da sua aldeia. A partir daí, nada vai ser como antes para os habitantes do lugarejo isolado em plena Inglaterra rural. O recém-promovido inspector George Bennett está firmemente decidido a resolver o caso, mesmo que seja apenas para devolver a uma mãe o corpo da filha morta.
À medida que os dias passam, a convicção de que Alison está morta começa a enraizar-se, mas, sem cadáver nem pistas, a investigação suscita mais perguntas que respostas.
Bennett sente-se perante uma muralha de dúvidas até descobrir uma verdade chocante, cujas consequências se farão sentir por muito tempo.
Décadas mais tarde, Bennett acede finalmente a contar a sua história a uma jornalista, Catherine Heathcote, que está a escrever um livro sobre o caso, que ela viveu de perto na sua adolescência. No entanto, quando o livro está prestes a ser publicado, ele tenta impedi-la, sem lhe dar quaisquer explicações, alegando ter novos dados que se recusa a revelar.
Determinada a descobrir o que realmente aconteceu a Alison Carter, Catherine é confrontada com uma revelação que teria querido deixar sepultada para sempre nesse gélido e escuro dia de Dezembro de há trinta e cinco anos atrás.


Val McDermid cresceu numa comunidade mineira da Escócia e leccionou Inglês em Oxford. Foi jornalista durante dezasseis anos e actualmente vive em Manchester, dedicando-se apenas à escrita. Recebeu o prémio Gold Dagger para o melhor romance policial em 1995 com The Mermaids Singing (O Canto das Sereias). Sentença de Morte é o seu primeiro livro publicado em Portugal. 

Ora aqui está a primeira crítica desde há algum tempo.
Para quem já me segue há algum tempo, saberá que eu não sou fã de policiais. A procura pelo culpado, a descoberta das várias evidências... Francamente, a mim pouco me deixam entusiasmado. Acabo, portanto, por deixar um policial de lado.
Sentença de Morte foi-me emprestado, pelo que me vi "obrigado" a ler esta sugestão. E, de facto, não obstante ser um policial, confiei que iria gostar.

Num dia gélido de Dezembro uma rapariga de 13 anos desaparece da sua aldeia. É uma aldeia isolada do mundo, onde os poucos habitantes são parentes uns dos outros. O desaparecimento da rapariga vai revelar a pequena aldeia ao mundo e perturbar a vida dos aldeões para sempre.
A investigar o caso está George Bennett, um jovem Inspector com grandes valores. O tipo de pessoa que nunca em anos desistiria do caso se este permanecesse por resolver. E é preciso muita perseverança, pois o corpo da rapariga não tem maneira de ser encontrado, e sem corpo não há como identificar o culpado do desaparecimento.
Este processo vai levar a um julgamento brutal, afectando a vida da aldeia e do Inspector mais do que desejavam.
Por causa de Alison Carter, a menina desaparecida, as vidas dos aldeões e do Inspector nunca mais serão as mesmas. Passados trinta e cinco anos, esse gélido dia de Dezembro continuará a assombrá-los.

É, portanto, um livro que atravessa gerações, décadas de história. Esta foi imediatamente uma das coisas que mais me entusiasmou. Nunca se resumiu à "procura do culpado". Desenvolve-se ao longo de toda a investigação, de um julgamento e, após trinta e cinco anos, a vida das personagens continua a ser afectada. É, mais do que um policial, um thriller épico.

Gostei da maneira como se encontra organizado. Os capítulos vão variando ao longo da obra, quer se trate da investigação, do julgamento ou para além disso. O romance tem uma estrutura diferente do habitual e encaixou perfeitamente para melhor acompanharmos o desenvolvimento da acção.
Da escrita pouco tenho a dizer senão que mal dava por ler 20 páginas. Começava e, passado pouco tempo, dava por mim já muito avançado. Nunca com demasiadas descrições mas nunca as descurando, nunca demasiado parado, é fácil de perceber porque é que este é considerado a "obra-prima" de Val McDermid.

Como sempre, o essencial para se gostar de um romance é sobretudo as personagens. Esta história resume-se a elas, já que trata sobretudo do impacto de um caso policial nas suas vidas. E, afinal, acho que é algo que muitos policiais deixam de lado mas é o que, para mim, os torna mais verídicos. Nunca um caso de desaparecimento ou homicídio poderia alguma vez deixar um agente indiferente. Pelo menos um como George Bennett. Bennett é um Inspector dedicado, fácil de simpatizar, e o criminoso gera uma das maiores repulsas que já senti a ler um livro.
As poucas críticas negativas que comecei foram em relação à atitude dos habitantes da aldeia, tão pouco credível para um policial mas perfeito para o desenvolvimento do livro. A verdade é que foi preciso ler até ao fim para perceber que a genialidade da autora até nesses pormenores tocou!

Dos poucos policiais que já li, este é sem dúvida dos melhores, senão mesmo o melhor. Arrasta-nos numa investigação misteriosa e não se resume a apenas um espaço temporal. Tirando o facto de se tratar de uma verdade profundamente chocante, o romance preocupa-se em desenvolver o estado psicológico das personagens em relação a este caso, o que o torna tão sentido. O final é imprevisível? Bem, eu diria que sim. Há sempre a suspeita de que a verdade ainda não foi encontrada e o final consegue ser bastante chocante. Não digo que tenha ficado absolutamente boquiaberto, mas sim o final é suficientemente imprevisível.

A única coisa que recrimino neste livro é mesmo a edição. A sinopse, que apresento em cima, acaba por resumir o livro inteiro! Não dá nenhuma revelação do enredo (o que é impressionante), mas bastava dizerem que este caso vai afectar a vida das personagens trinta e cinco anos depois (o que é uma das coisas mais interessantes no livro). Nada mais. Parece que a sinopse dá mais importância às últimas 100 páginas do que às primeiras 400.

Aconselho sem reservas o livro, para amantes de policiais ou não. Bastante bem escrito, bastante bem pensado, poucas falhas conseguirão apontar tenho a certeza. Emocionante até à última página, é uma leitura muito recompensadora.

Sábado, 21 de Maio de 2011

De volta aos carris

O último livro sobre o qual falei foi de Fevereiro.
3 meses desde que vos disse alguma coisa.

Foi, sem dúvida, uma ausência longa, ainda que não repentina (a minha assiduidade já não era grande coisa), mas desta vez afastei-me completamente destas paragens. Foi um daqueles períodos em que se não tivesse abandonado isto teria fechado completamente. Venci-me a mim próprio.

Agora venho dizer-vos que estou com vontade de voltar. Um esforço que me obrigue a ficar aqui e não deixar as teias de aranha esconderem este cantinho.
Espero que gostem do novo visual (o pergaminho estava tão velho que se rasgou completamente. O que acham do novo design? É diferente do que já há muito tempo tinha adoptado, mas achei que estava na altura de fazer um refresh. Se aguentar um ano assim dou-me por satisfeito).

Quanto às leituras, não esperem uma nova crítica dia-a-dia, porque o meu ritmo tem sido bastante lento. Vou tentar voltar ao entusiasmo que costumava ter, já que tenho aqui muitos livros por ler em atraso!

Enfim, isto tudo para apenas dizer... Que voltei. Agradeço imenso todos os seguidores, todos aqueles que continuam a espreitar este cantinho e peço desculpa a todos pela ausência inexplicável.

Domingo, 1 de Maio de 2011

O regresso está para vir...

A última batalha está a acabar esperemos.
Não desisti ainda. Depois de um período de mudança, ou pelo menos perturbação, estamos perto de regressar...