quinta-feira, 3 de setembro de 2020

As Mil e Uma Noites Vol. I (tradução Hugo Maia)

As Mil e Uma Noites são um conjunto de textos cujos manuscritos mais antigos que chegaram até nós datam do século XIV. Nele reúnem-se histórias cujas origens se perdem na noite dos tempos: seriam histórias orais? Contos persas? Partes de um grande livro cujo original se perdeu?

No século XVIII, Antoine Galland, um orientalista francês, publicou a sua tradução desta obra. Viria a fazer furor nas cortes eruditas da Europa, sedentas de exotismo. Mas essa tradução, que supostamente seguia o mais antigo dos manuscritos, que a presente tradução usa, está pejada de erros, de adaptações ao gosto europeu, e sobretudo, de acrescentos de histórias que dela nunca fizeram parte - algumas das quais nem se sabe se seriam verdadeiras histórias árabes da antiguidade ou puras invenções do tradutor.

A partir da tradução de Galland e das de outros orientalistas criou-se o imaginário que seria, já no século XX, divulgado por Hollywood ou pela Walt Disney, mas poucos são os leitores que conhecem as verdadeiras 1001 noites, um livro tão misterioso quanto as histórias que conta.

Este é o primeiro volume da primeira tradução que se faz em Portugal do grande clássico da literatura universal a partir dos manuscritos originais em língua árabe. Venha conhecer as verdadeiras histórias que Xerazade contava ao rei Xariar, textos pensados para entreter e maravilhar, plenos de fantasia, erotismo e exotismo.


Infelizmente, a minha presença neste blogue tem sido diminuta nos últimos (muitos) anos. As justificações são muitas. Mas eis o que importa realçar: se venho publicar uma nova crítica, é porque é mesmo importante. Sim, este livro é mesmo importante.


Já tive a oportunidade de elogiar a editora E-primatur (e não recebo qualquer tipo de bonificação!), que procura "resgatar" a integridade de clássicos da Literatura Mundial. Acho um projecto essencial no mundo editorial português. Espero sinceramente que a crise que vivemos não os pare. 


A tradução de Hugo Maia de As Mil e Uma Noites vem colmatar uma falha no panorama editorial português (e, eu diria, no resto do mundo): uma tradução o mais fiel possível do manuscrito mais antigo que se conhece da obra conhecida como As Mil e Uma Noites.

Por incrível que pareça, este tão conhecido clássico da Literatura é quase que uma fraude histórica: o suposto livro original, que datará pelo menos do IX século, não chegou aos nossos dias, e tanto quanto sabemos o livro que hoje conhecemos é completamente diferente dessa primeira obra. A maior parte das versões que foram publicadas desde o século XVIII até aos dias de hoje são na verdade versões altamente alteradas, com textos alargados ou reduzidos à liberdade e estilo do tradutor (muitas vezes europeus orientalistas) e novos contos que parecem não constar na versão original de As Mil Noites (título original). Os famosos Aladdin e Ali Baba, por exemplo, não faziam parte da compilação original e foram adicionados por editores europeus.


No fundo, As Mil e Uma Noites que hoje conhecemos não são um clássico árabe ou persa, mas sim uma obra orientalista: um livro criado por europeus fascinados pela cultura oriental, mas pouco fiel a uma verdadeira etnografia e mais assentes em estereótipos e fantasias. Até as versões árabes chegaram a ser meras traduções das edições europeias, e a maior parte das versões desde então publicadas não foram mais do que livros forjados para vender e alimentar esta onda orientalista.

Até aos dias de hoje, muitos de nós imaginamos um Médio Oriente Antigo parecido com o que As Mil e Uma Noites imagina. O seu efeito orientalista perdurou no tempo.


Não estou a criticar esta perspectiva orientalista do livro, ou sequer os seus editores ao longo dos séculos. Acho que é uma ideia extremamente interessante e qualquer leitor com estas noções básicas na mente consegue apreciar as edições deste clássico. É História. O livro acaba por ser um testemunho dessa "febre" pelo fantástico oriental. E merece ser um clássico meramente por isso.


Não obstante, é justo que tendo em conta a multiplicidade de diferentes manuscritos e versões seja dado a conhecer a todos os leitores a versão integral de cada um deles, para além das versões que os autores orientalistas foram criando. E isso é muito mais difícil de encontrar do que parece: é verdade que a primeira versão europeia do livro (por Antoine Galland, e talvez a mais popular) foi criada a partir do manuscrito mais antigo da obra; mas é uma versão adulterada, uma tradução que não se preocupa com o tom do manuscrito original, acrescenta contos e altera alguns.

Para ler o verdadeiro manuscrito, sírio, precisam de saber ler árabe. Eu infelizmente não sei.


Por tudo isto, a tradução de Hugo Maia é um verdadeiro tesouro: pega no manuscrito mais antigo que conhecemos desta obra, um manuscrito sírio, e tenta traduzi-lo respeitando ao máximo o seu estilo de escrita e sem alterar os seus contos. É, verdadeiramente, o mais próximo que podemos chamar de um As Mil e Uma Noites original.


Eu só tenho elogios a fazer não só a Hugo Maia pelo seu trabalho, mas também à editora E-Primatur, que se tem dedicado a publicar em Portugal algumas obras mundiais importantes com esta dedicação à verdadeira essência da obra. Espero sinceramente que a editora não seja demasiado afectada pelos tempos difíceis que correm, pois é essencial este tipo de trabalho em Portugal!


Quanto ao livro em si: Xerazade vai desvendando as suas histórias extraordinárias, envolvidas entre si como bonecas russas, noite após noite para entreter o rei Xariar e assim sobreviver mais um dia; mas também o leitor se deixa ser entretido, perdendo o sono noite após noite para conhecer o fim destas fantásticas histórias.

São contos mágicos, com génios bons e maus (ou ifrites), e príncipes e princesas presos por encantamentos, e cidades perdidas e palácios no meio do deserto e ilhas misteriosas. São contos que falam de Destino e da sua inevitabilidade, de traições e de vinganças e de consequências. São contos místicos, mas também bastante eróticos, sem pudor nas suas cenas mais escaldantes (com direito a orgias), assim como impulsivos e violentos, sem faltarem pormenores mais sanguinolentos.


São noites muito divertidas, originais, que mantém o leitor agarrado a tempo inteiro.


É um livro de cinco estrelas? Objectivamente, talvez não.

As histórias são por vezes repetitivas; terminam abruptamente, apesar de um desenvolvimento muito longo; a escrita (ainda que seja difícil de julgar devido à influência da tradução) é bastante banal, ainda que afinal esse tenha sido sempre o objectivos das Noites. Ainda assim, foi para mim um livro cinco estrelas. Extremamente divertido, fácil de ler, mas acima de tudo carrega um legado, uma História e um mistério impossíveis de esquecer enquanto estamos a ler.


Uma excelente leitura, de um clássico com uma história complexa de muitos séculos, e acima de tudo um livro único editado em Portugal. Bravo! Recomendadíssimo. 




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