quarta-feira, 12 de maio de 2010

O Rapaz do Pijama às Riscas, de John Boyne

As barreiras podem dividir-nos mas a esperança vai unir-nos.


Bruno, de nove anos, nada sabe sobre a Solução Final e o Holocausto. Ele não tem consciência das terríveis crueldades que são infligidas pelo seu país a vários milhões de pessoas de outros países da Europa. Tudo o que ele sabe é que teve de se mudar de uma confortável mansão em Berlim para uma casa numa zona desértica, onde não há nada para fazer nem ninguém com quem brincar. Isto até ele conhecer Shmuel, um rapaz que vive do outro lado da vedação de arame que delimita a sua casa e que estranhamente, tal como todas as outras pessoas daquele lado, usa o que parece ser um pijama às riscas.
A amizade com Shmuel vai levar Bruno da doce inocência à brutal revelação. E ao descobrir aquilo de que, involuntariamente, também ele faz parte, Bruno vai, inevitavelmente, ver-se enredado nesse monstruoso processo.

"Uma pequena maravilha de livro... Um momento histórico único que não pode ser contado muitas vezes."
Guardian


"Uma extraordinária história sobre a amizade e os horrores da guerra... Isto é talento literário inato no seu melhor."
Irish Independent


"Uma coisa é certa: este livro não trará noites tranquilas."
Observer


Antes de mais, a contracapa não elucida totalmente o que vamos encontrar neste livro.
Bruno nunca chega a aperceber-se de uma "brutal revelação". Bruno é a inocência (doce ou amarga). E esse é o maior encanto deste conto.

Já escrevo esta opinião bastante tempo depois de ter lido o livro. Mas continuo a considerá-lo uma das obras mais bem escritas e mais bem imaginadas que pude ler.
Bruno é um rapazito alemão. E vive no meio do Nazismo, ele é Nazi teoricamente. Mas não sabe o que é o Nazismo. Não sabe o que é um judeu, nem sabe quem é o Fúria, nem sabe porque raio ele e a família tiveram de ser mudar para Acho-Vil. São dezenas de perguntas que pairam na cabeça deste rapaz, mas a sua inocência vai impedi-lo de ter respostas claras.

Emocionei-me mesmo muito enquanto lia a visão de Bruno do mundo à sua volta. Neste livro, nunca há uma verdadeira referência a todos os detalhes que fizeram parte do Holocausto. E, no entanto, está tudo lá. Tudo. Mas os olhos de Bruno vêem outra coisa, ou simplesmente não percebem o que é aquilo, e é isso que mais nos encanta no livro. O leitor sabe sempre, sempre, o que está à frente de Bruno. Mas o rapaz, como se fosse ele a contar a história, não. São como pequenas analogias (não no melhor termo da palavra). E custa-nos a saber se queremos que Bruno saiba onde vive ou se queremos que continue nessa ilusão.

E conhece Shmuel, o rapaz do pijama às riscas. Shmuel sabe bem onde vive, sabe que nada ali é certo e bom. Mas, ainda assim, é arrastado por Bruno para uma fantasia, permitindo assim viver os seus melhores dias.
Antes de ler o livro, pensei que estava perante uma longa conversa entre duas crianças, e que esta teria grandes reflexões, por muito simples que fossem. O que não aconteceu propriamente. Os dois encontram-se na cerca, cada um do seu lado, mas não são mais do que conversas normais de crianças. A reflexão deste livro pousa nas entre-linhas. É na inocência de Bruno que devemos procurar essa mensagem.

O que de facto gostei no livro é que não são as palavras que lá estão escritas que devemos ler, mas sim o que está entre elas. É a nossa percepção da realidade que se confronta com a percepção fantástica de Bruno. São nas entre-linhas, naquilo que não está escrito mas que nós sabemos exactamente o que é, que pousa a maior reflexão e emoção.

Posto isto, digo: este é um livro para adultos. Deve ser um adulto a ler o livro, pois este sabe a verdade por detrás dos olhos da criança.
John Boyne teve um dom ao escrever este livro. Não tem uma escrita que se destaque, pois como disse o que realmente importa no livro é o que Bruno vê mas o que apenas nós conseguimos descodificar. O Holocausto. O campo de concentração. Os judeus. A violência.

E o final. Depois de um livro com tão bela visão, e no entanto com uma tão horrível verdade, vem o final, inesperado, abrupto, que vai deixar qualquer leitor à beira das lágrimas. Só já perto do fim começamos a ter uma ideia do que vai acontecer, e mesmo assim quando acontece não podemos adivinhar de que maneira. Apenas sabemos que é aquilo que vai acontecer.

Poucos livros conseguem ser tão comoventes como este. É mesmo algo único, original (tendo em conta a quantidade de livros que há por aí sobre o Holocausto), e por isso mesmo não posso deixar de dizer: têm de ler este livro.

3 comentários:

Iceman disse...

Grande Pedro!

Olha gosto do novo aspecto do Blog, mas se queres a minha opinião, não vale muito a pena perdermos muito tempo com o mesmo. Tenho aprendido que os blogs que mais gosto de visitar são aqueles que são mais simples. Ou seja, cor de fundo branca ou negra, sem grandes cores. O que interessa é o conteúdo. Se for um Blog muito colorido, com música, etc, o mais certo é as visitas serem diminutas.

Eu confesso que cheguei a pensar em emigrar o meu blog para o WordPress, mas depois cheguei à conclusão que não vale o trabalho e o tempo que iria despender.

Em relação a este livro, ainda não li e em principio nem vou ler porque simplesmente vi o filme.

Adorei o filme e confesso que o final me chocou. Imagino que o livro deva ser mais completo.

Um grande abraço!

Miguel

Manuel Cardoso disse...

Olá Pedro
ficou espectacular, o blog :)
Quanto ao livro, está na "plha de espera". Estou ansioso por tomá-lo de assalto.

Pedro disse...

Iceman,
obrigado. Espero que o blogue seja para ficar assim...
(não gosto muito de música num blogue, mas uma coisa que queria mesmo pôr - e no template original do Pergaminho não havia - era mais uma coluna. Daí o trabalho para acrescentá-la sem mudar o estilo).

Eu nunca pensei em usar Wordpress, gosto mais do Blogger.

Olha, quanto ao livro... Não sei se será mais completo do que o filme. Antes de mais, até é bastante pequeno. Depois, tem uma linguagem simples. Nunca vi a adaptação cinematográfica, mas suponho que, se o livro tem alguma coisa mais completa, é uma maior intimidade com a maneira como Bruno vê as coisas, e portanto uma percepção não tão directa do que está à sua frente.
O final é mesmo chocante. Vale mais do que a pena chegar lá, ainda assim.

Manuel Cardoso,
muito obrigado!
É um livro pequeno que se lê em pouco tempo. Pega nele assim que tiveres vagar, não te arrependes de certeza.

Boas leituras!

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