segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Sem Sangue, de Alessandro Baricco

Quando os seus inimigos finalmente o encontram, Manuel Roca obriga Nina, a sua filha pequena, a meter-se num esconderijo debaixo de um alçapão na despensa, a partir do qual testemunhará o assassinato do seu pai e do seu irmão. Após a matança, Tito, um dos assassinos, encontra o esconderijo de Nina, mas, apiedado da inocência da criança, não diz nada aos seus cúmplices. Décadas mais tarde, Nina é uma intrigante mulher que passeia pela rua quando encontra um já idoso Tito a vender lotaria. Este encontro revelará até que ponto a traumática experiência da sua infância marcou ambas as personagens, e se serão alguma vez capazes de a superar.

Alessandro Baricco nasceu em Turim em 1958. Além de escritor, é crítico musical e director de cinema. Com o seu primeiro romance, Terras de Cristal, ganhou o prémio Médicias Étranger em França e foi finalista do prémio Selezione Campiello em Itália. O seu quarto romance, Seda (1996), best-seller internacional, converteu-o numa das mais interessantes cozes da narrativa contemporânea. Em Sem Sangue (2002), crueldade e veleza misturam-se com um estilo subtil e requintadamente poético. Entre os seus romances encontram-se também títulos como City, Castelos de Raiva, Oceano Mar e Esta História. Destaca-se também a sua obra de teatro Novecentos.

150 páginas. Uma hora de leitura.
Quase findo o ano, tenho de concluir que 2009 deu-me a descobrir grandes obras em tamanho pequeno. Aconteceu com Paixão em Florença. E acontece agora em Sem Sangue exactamente a mesma coisa.

Poucas páginas num livro vêm sempre acompanhadas com críticas que exigem mais. Mais descrição, mais actos, mais. Poucas páginas nunca é suficiente para quem está habituado a longas 600. Enfim, certamente que sofro do mesmo mal. Se há coisa que adoro são longas descrições. Equador, um dos meus livros preferidos deste ano, satisfez-me precisamente nesse aspecto.

Este livro, por ser tão pequeno, quase não nos dá tempo para nos habituarmos à paisagem agreste, às encruzilhadas do Destino, a essa coisa tão profunda e estranha que é a alma humana.
Por ser tão pequeno, este livro pode dar-se ao luxo de ser uma longa reflexão, sem paragens, sobre tudo isso.

Não é a primeira vez que pego no livro. Já há algum tempo peguei nele e tentei ir até ao fim. A verdade é que não me estava a chamar a atenção. Parecia-me o tipo de livro que se lia e, quando se chegasse ao fim, acabava. Tão simples quanto isso. E "simples" era tudo menos o que se dizia ser o livro. Daí que o tenha posto de lado, sem o acabar, e decidido agora começá-lo de novo. Foi a melhor coisa que fiz, porque esta "releitura" fez-me prestar atenção aos pormenores que antes não quis ver.

Embora seja uma obra pequena, não acho que seja fácil. Acho até que é um pouco difícil de descortinar. A menos que se queira realmente dedicar ao romance, será difícil sairmos agradados de uma obra que exige atenção, exige vontade de ler o que quer que venha aí. Não vale a pena irmos com expectativas para este romance, apenas preparados para reflectir sobre qualquer coisa.

A obra está dividida em duas partes. A primeira, na quinta de Mato Rujo, onde se testemunha um horrível massacre e do qual sobrevive uma criança. Nunca ninguém soube dessa criança. Apenas um cúmplice, um dos assassinos, descobriu a menina escondida no alçapão da casa. E nada contou.
A segunda parte passa-se muitas décadas depois, quando encontramos a menina já velha, aliás não menina mas uma mulher, e é ao encontrar o rapaz, já idoso, que não a denunciou que nos vamos aperceber do quão intrigante esta mulher se tornou. E é quando estes dois cúmplices da Vida e do Destino conversam que vamos poder dar um olhar pelo que realmente significa viver, por esse estranho lago que é a alma humana, de tão estranha e simbólica se torna nas mãos do Destino, nas mãos de algo que começa desde a inocência da infância. E assim conversam, e assim descobrem a inevitabilidade, a crueldade já esquecida, uma verdade que ninguém descobre por ninguém conseguir sequer descobrir totalmente as razões da própria alma.

É isso mesmo que encontrei neste livro: para além de um confronto entre duas personagens, que nunca se separaram a partir do momento em que se encontraram, décadas atrás, um confronto com a verdade incontestável das nossas próprias jornadas. Até que ponto não estamos agarrados ao que vivemos no passado? Até que ponto o nosso Destino não é, simultaneamente, o Destino de outra pessoa? Acima de tudo, o que nos leva a agir? O que nos leva a ser quem somos? É a guerra, dizem uns. Neste caso, a guerra já tinha terminado. Pomos então a questão: até que ponto a guerra terminou? Tratam-se de questões que este livro coloca e responde, de uma forma muito peculiar: sendo impossível dar uma resposta directa, temos de ler essa resposta pela vida de cada um. Desde o irmão que morreu à sua frente, ou o pai, até ao grito de guerra que ouvimos à nossa volta mas que seguimos por cegueira, porque assim aprendemos e não sabemos mais. São fantasmas que nos perseguem. Não podemos eliminá-los, porque os vivemos.
Ainda assim, aqui ninguém é especial. Cada um é quem é, e não há mais ou menos importantes.

O encontro entre Nina e Tito servirá para descobrir isso. Eu considero impressionante a maneira como Baricco vai justificar tanta coisa, apenas através da descrição da vida de cada um, dos actos que viveram. É este tipo de livros que gosto. Sem respostas directas, mas subentendidas, desenvolvidas através da experiência de cada um.

É assim a escrita do autor, bastante poética mas crua, muitas vezes violenta e melancólica, até nostálgica. Acima de tudo, crua no seu sentido mais amplo.

Leitura obrigatória. Releitura obrigatória. Re-releitura obrigatória. Este é um daqueles livros que não vamos conseguir evitar reler, para voltar a absorver tudo. Numa palavra, excepcional. Não preciso que acrescentem mais páginas, foi magnífico. Não critiquem negativamente um livro que reúne um homem a vender lotaria com a vida de duas pessoas. Aí está o impressionante do livro: é preciso relermos para nos apercebermos de que a simples menção da palavra "lotaria" tem um significado enorme, que uma única palavra num livro de apenas 150 páginas é tudo, mesmo que escrita apenas uma vez. Não há muitos acasos, se está ali é por algum propósito, por alguma causa. Deixem-se levar, mas com muita atenção para não acabarem de mãos vazias, por essa reflexão, por esse confronto, porque vale a pena.

4 comentários:

Iceman disse...

É um livro delicioso.

Pedro disse...

Decididamente.

Paula disse...

Olá Pedro,
Tenho este livro em casa, mas como tantos outros não li.
Gostei da tua opinião e ele vai "saltar" da estante para mesa de cabeceira.
Um abraço e continuação de boas festas...

Pedro disse...

É pequenino, olha que vale a pena pegar nele ;)

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