domingo, 28 de outubro de 2018

Memória das minhas putas tristes, de Gabriel García Márquez

"No ano dos meus noventa anos quis oferecer a mim mesmo uma noite de amor louco com uma adolescente virgem. Lembrei-me de Rosa Cabarcas, a dona de uma casa clandestina que costumava avisar os seus bons clientes quando tinha uma novidade disponível. Nunca sucumbi a essa nem a nenhuma das suas muitas tentações obscenas, mas ela não acreditava na pureza dos meus princípios. A moral também é uma questão de tempo, dizia com um sorriso maligno, tu verás."

Prémio Nobel de Literatura, 1982




Li Cem Anos de Solidão, considerada obra-prima deste escritor Nobel colombiano, e ainda estou encantado com o livro. O que decidi então fazer? É claro, ler todos os livros do Gabriel García Márquez.

Felizmente, tenho vários livros dele espalhados cá por casa, por isso decidi continuar a descobrir o maravilhoso mundo de Gabo com este conto, que se lê num dia e tem uma premissa muito curiosa: um velho de noventa anos decide, no seu aniversário, ter uma relação sexual com uma adolescente virgem. Vá, uma espécie de última ceia.

E desde já vamos arrumar o assunto da controvérsia: é uma história de ficção, não uma bíblia nem uma manifesto a defender a pedofilia. Ninguém denuncia um livro sobre dragões porque os dragões não existem. É a mesma situação, é apenas uma história diferente.

Para além disso, se lerem o livro perceberão que o propósito não é levantar uma espécie de controvérsia sexual, mas sim fazer uma belíssima reflexão sobre o amor em todas as idades, a sexualidade e o seu amadurecimento. O velho, perante a rapariga nua e adormecida, apaixona-se, e vai finalmente viver o amor como nunca teve oportunidade de o fazer, depois de uma vida de putas atrás de putas.

É uma história sobre um homem que teima em não envelhecer. E talvez isso não seja tão bonito quanto parece. Recusar a encarar a sua própria velhice é recusar amadurecer. Mas, aos noventa anos, é-lhe dada uma oportunidade de começar de novo, como se agora fosse apenas o início dos próximos noventa anos. Vale a pena aprofundar nesta poética reflexão, que apenas Gabriel García Marquéz poderia escrever tão sem esforço.

E as putas talvez sejam tristes, o seu passado talvez o seja também, mas não senti que esta tivesse sido uma leitura triste. Muito pelo contrário: é um livro que oferece esperança, que procura a felicidade mesmo quando a Morte conta os nossos últimos segundos. É uma leitura feliz.

Não está ao nível de um Cem Anos de Solidão. Também fala sobre solidão, porque afinal é nela que nos guardamos, evitando encarar os espelhos que mostram as rugas, as pessoas que as vêem. Mas está ao nível de um Nobel da Literatura.

2 comentários:

Miguel Chaica disse...

EU adorei esse livro assim como quase todos de Garcia Marquez.

Pedro Alexandre disse...

García Márquez foi o meu amor de Verão. Pouco me faltou ler dele, que escrita magnífica.

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