sábado, 20 de abril de 2013

"O Amor e o Poder", de Colleen McCullough

 É dia de Ano Novo de 110 a.C. e assiste-se à tomada de posse dos novos cônsules, ineptos representantes da aristocracia. Mas no meio da multidão encontram-se dois homens cuja coragem e poder de visão irão mudar por completo a República Romana, que se debate com problemas como a expansão territorial e o ressentimento crescente dos não-cidadãos.

Um destes homens é Mário, impossibilitado pelas suas origens humildes de tornar-se o
Primeiro Homem de Roma, aquele que, pela sua excelência, se eleva acima dos seus semelhantes. O outro é Sila, um belo e depravado membro da aristocracia, a quem a penúria impede de subir a Via da Honra, direito que lhe pertence devido às suas origens. Juntos pela guerra em terras distantes, combatem os seus inimigos romanos e os inimigos de Roma, pois ser o Primeiro Homem de Roma implica a mestria tanto política como militar. 


 
Cara Colleen, cheguei ao fim do primeiro volume da extensa obra "O Primeiro Homem de Roma", constituída por 7 livros, cada um com 800 ou mais páginas. Confesso que estava à espera de um teste-surpresa no fim do livro. Ainda só li o primeiro livro e tenho a certeza que sei mais de História Romana que um licenciado.

Era mesmo isto que eu andava a precisar: um romance histórico bruto. Já tenho tantas saudades de estudar História!


Para quem não entende nada sobre a República Romana, como eu, as primeiras páginas do livro custam um pouco a avançar. Algumas horas a estudar o glossário que está no fim do livro valem a pena (apesar de ainda recorrer à Wikipedia para alguns pormenores!). Uma vez adquiridas essas bases, 900 páginas passam a correr.

A civilização romana dividiu-se sobretudo em três épocas: a Monarquia (nos seus primórdios), a República e o Império. "O Primeiro Homem de Roma" debruça-se sobre os últimos anos da República. Com o aumento do território romano, os alicerces sob os quais a República foi construída revelavam-se incapazes de responder às necessidades de Roma, conduzindo fatalmente à sua extinção e à instauração de um Império. Colleen debruça-se sobre esses acontecimentos: a corrupção extrema entre os governantes do Senado e a emergência de personalidades que vieram abalar a forma como as coisas eram conduzidas.

Uma dessas pessoas era Caio Mário. De baixo nascimento mas extremamente rico, "O Amor e o Poder" dedica-se ao seu aparecimento e a sua luta em se tornar "O Primeiro Homem de Roma", a pessoa mais respeitada, temida e adorada de Roma.

É um romance cativante. Apesar do tamanho poder assustar, garanto que se revela uma leitura relativamente fluida. Raramente se torna aborrecido, fora as poucas ocasiões em que somos obrigados a percorrer a descrição crua do funcionamento político dos Romanos. Mas as duas coisas mais importantes estão lá: personagens que nos agarram (apesar de nunca sabermos muito bem por que devemos torcer) e uma exactidão histórica admirável (apesar de se dar ao luxo de romantizar um pouco as suas personagens, nunca se parece afastar da História tal qual se deu).

O maior problema é mesmo a sua escrita. Não que seja uma má escritora, apenas foi uma má abordagem. A escrita é demasiadamente descritiva. Demasiado mesmo. Ao ponto de até as cenas de acção não serem narradas, mas sim descritas. Parece-me que a própria Colleen deveria ter aprendido as subtilezas do discurso e da retórica Romana, capaz de encantar milhares.
Confesso que alturas houve em que não percebi mesmo o que se andava a passar. Sobretudo quando um tribuno da plebe (quando lerem saberão) propunha uma lei, era esta discutida no Senado e eventualmente aprovada. Várias vezes não percebi à primeira o que aquilo significava, e ler várias vezes não resolvia o assunto. O melhor era mesmo avançar com a leitura e perceber as consequências.

Preparem-se também para serem bombardeados de personagens. Algumas importantes, outras meras referências, não deixam de ser imensas as famílias romanas e para quem está interessado em absorver este livro pode tornar-se uma tarefa árdua. Nada que um pouco de concentração não resolva.

De qualquer forma, fiquei surpreendido com o quão viciado fiquei na leitura. Quando menos esperava, lá aparecia uma personagem nova para me chamar a atenção ou uma qualquer revolta para me fazer querer avançar páginas para saber como acabaria. E é assim página atrás de página, acompanhando a subida de Caio Mário como Primeiro Homem de Roma.
Por outro lado, quando nos apercebemos da dimensão da saga, percebemos que este livro não é mais do que o início da história (sim, 900 páginas de "introdução"). Estou ansioso por acompanhar o que aí virá.

Em geral, uma obra excelente. Acuidade histórica: máxima. Personagens: dificilmente seria possível sentir-me mais ligado a elas. Sim, cheira-me que se acabar de ler a série concluirei aquilo que parece ser a opinião popular, que é uma das melhores, se não a melhor, série histórica (pelo menos alusiva aos Romanos).

Mas ser a obra histórica mais completa ou desenvolvida não a torna a oitava maravilha.



P.S.: assim que acabei de ler o livro... Voltei a relê-lo. Ou seja, li este livro duas vezes seguidas. Porquê? Comecei a ler o segundo livro da série, "A Coroa de Erva", mas sabem aquela sensação de não fecharam ainda o livro anterior? Pois, é um sentimento esquisito, mas que me fez reler de novo "O Amor e o Poder", com mais atenção aos detalhes e às personagens mais secundárias. Só assim consegui, de consciência limpa, avançar na série.

Mais: anteriormente comprometi-me a ler a saga completa de "As Crónicas de Allaryia", de Filipe Faria. A metade de "Marés Negras", desisti. Aconteceu-me exactamente a mesma coisa que me aconteceu quando li o livro pela primeira vez: aborreci-me. Em vez de insistir, decidi dar um tempo até voltar a pegar nele.

7 comentários:

nuno chaves disse...

wow!!! adorei esta opinião.
Ando a ganhar coragem, para iniciarr também a leitura desta série.
Collen McCullough é de facto uma autora excepcional, e que nunca desilude, os seus livros, são maravilhosos. Aaguardo pela opinião do próximo.
Um abraço.

Anabela Lampreia disse...

Gostei do seu comentário sobre o 1º livro desta série histórica, mas é um romance. Não vi nenhuma referência ao amor, que faz parte do titulo do livro "O amor e o poder".
Cumprimentos

Patrícia disse...

Olá Pedro,
Sendo uma acérrima defensora e fã desta saga vou aguardar com curiosidade cada opinião.
E confesso que fiquei, mais uma vez, com vontade reler toda a série, mas isso é "trabalho" para um ano inteiro à velocidade a que leio agora.
Boas leituras ;)

Pedro disse...

Nuno, vale bastante a pena enveredares por esta série. É um livro riquíssimo (aliás, chegas ao fim do livro e parece que leste vários). Apesar de extensos, a leitura é bastante mais rápida do que parece.

Anabela, tem razão, não liguei muito ao título. Mas os editores portugueses deram-se ao luxo de criar um título ("O Amor e O Poder") que não corresponde de todo ao título original ("The First Man in Rome").
Sem dúvida, estamos perante um romance. Por muito descritivo que seja (e é-lo), as personagens estão romancizadas e existem várias histórias sobre o Amor. No caso de Caio Mário, o casamento foi essencial para a sua ascensão. No entanto, enquanto Caio Mário e a sua mulher tiveram a sorte de se apaixonar, noutros casos o Amor não sorri. Para além das personagens mais secundárias (como Lívia Drusa), a história de Amor que mais me fascinou foi a de Lúcio Cornélio Sila, que prevejo vir a tornar-se a personagem principal de livros futuros (se é que não o podemos considerar um protagonista neste livro). É, de longe, a minha personagem preferida. A sua relação com a mulher baseia-se num Amor quase doentio, verdadeiramente bruto e fascinante. Mas mais intenso ainda é o amor que tem por Metróbio, um jovem actor, mas que tem de deixar para trás para conseguir aceder ao Poder que tanto ambiciona. Talvez "O Amor e o Poder" se aplique precisamente a Sila e a nenhuma outra personagem, pois é ele que é constantamente confrontado com estes opostos.

Patrícia,
Muito obrigado!!! Infelizmente, os livros são imensamente difíceis de encontrar, e ainda não encontrei nenhuns para além dos dois primeiros volumes. Se por acaso souberes onde posso encontrar os restantes, por favor não hesita em contactar-me!
Também não ando a ler muito rápido... Mas não deixo de dedicar-me a esta série. São livros cativantes =)

Boas leituras a todos!!

Patrícia disse...

Pedro,
Procura nos alfarrabistas. Completei a minha série (alguns livros tinham-me sido emprestados), nos alfarrabistas na feira do livro de lisboa.
Procura as edições antigas, geralmente são mais baratas. a edição nova, mesmo nos alfarrabistas, custa cerca de 10€ por livro.

Jessinha Cruz disse...

Olá *-* Ando à procura de blogs de Portugal com quem me possa familiarizar porque apesar de eu também ter um, a maioria das vezes só conheço outros do Brasil. Foi um prazer ver o blog.
Pode visitar o meu e dar também a opinião.
www.fofocas-literarias.blogspot.pt

Pedro disse...

Patrícia,
já fui à procura. Encontrei o segundo volume, mais nenhum. Vai ser um longo caminho até ter os SETE volumes.
Pode ser que a Bertrand, que neste momento tem os direitos de publicação da autora cá em Portugal, decida publicar também esta série.
Vou tentar a minha sorte na Feira do Livro de Lisboa, quando começar em Maio. Parece-me o único sítio onde provavelmente terei mais sorte.

Jessinha,
muito obrigado pela visita!! Deixe sempre o comentário =)

Boas leituras

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