sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Os Corvos de Avalon, de Diana L. Paxson

No centro de Os Corvos de Avalon está a conquista romana da Bretanha e a rebelião conduzida pela Rainha Boudica, a guerreira celta, e por Lhiannon, a sua jovem mentora na ilha dos Druidas.
Quando o exército do Império conquistou o reino Iceno, no século I D.C., Lihannon enfrentou-o enquanto Boudica acabou por se casar com Prasutagus, o Rei Supremo dos Icenos que governou como rei cliente de Roma. Boudica e Prasutagus viveram felizes até à morte deste, um acontecimento que mudou para sempre a vida daquela que se viria a tornar a Rainha Guerreira. Com a morte a morte do marido, as terras Icenas foram definitivamente anexada ao Império, tendo Boudica sido brutalizada e as filhas violadas.
Cheia de raiva e espírito de vingança, Boudica apela às tribos britãs e conduz o seu povo na resistência contra os exércitos ocupantes de Roma. Apesar do insucesso da rebelião, Lhiannon sobrevive e torna-se guardiã das tradições druidas na nova Bretanha Romana, como alta sacerdotisa da Casa da Floresta.
Repleto de notáveis personagens femininas, que sempre habitaram a mítica ilha de Avalon, esta tão aguardada obra, que antecede A Casa da Floresta, é um portentoso épico que expande a saga lendária que encantou milhões de leitores por todo o mundo.



Depois de uma leitura tão cativante quanto A Casa da Floresta, decidi ler a sua prequela. As expectativas eram altas, mas controladas: este livro não foi escrito por Marion Zimmer Bradley, mas sim por Diana L. Paxson (apesar de se basear no imaginário de Bradley). Sabia que devia esperar um estilo mais genérico, não tão idiossincrásico quanto o de Bradley. Contudo, Paxson provou ser ajudar bastante a tornar a escrita de Bradley menos onírica e a melhorar a reconstrução histórica, aumentando o entretenimento da leitura. Estava por isso bastante curioso (e, depois de ter expressado tantas vezes o meu desagrado por Marion Zimmer Bradley, é óbvio que estava à espera que Diana me agradasse um pouco mais).


De facto, "entretenimento" é a palavra que melhor se adequa para descrever o livro. Bastante fácil de ler, com uma história simples e que apesar da extensão do livro se desenrola com bastante tranquilidade, sem desprezar alguma contextualização histórica. O livro histórico perfeito para agradar ao leitor mais comum.

Apesar disso, é um livro de muito pouca imaginação. A sua simplicidade revela-se na forma como pouco explora o enredo, sem criar grandes sobressaltos ou complexos, sem muita criatividade nos seus caminhos. As personagens, apesar de interessantes de seguir (sobretudo Boudica, porque há qualquer coisa de fascinante em mulheres na literatura com um lado guerreiro, rebelde), não são exemplos de personalidades motivadas. É um livro extenso mas a história acaba por ser bastante simples, nunca passando muito de um toma-lá-dá-cá entre os Romanos e Bretões (mais um toma-lá-toma-lá, já que aos Bretões coitados calhou uns Romanos bastante fortes).

Pior do que uma história sem desenvolvimentos que valham a pena apontar, sem emoções fortes, limita-se à reconstituição histórica mais básica. Falta pormenor, sobretudo exploração tanto a nível de enredo como a nível de personagens e de conhecimento. Faltou criatividade a todos os níveis: na História, na estória e nas pessoas que fazem parte delas

Paxson e Bradley juntas são o melhor dos dois mundos. Foi isso que A Casa da Floresta me mostrou, se de facto Paxson teve influência no livro. Sozinhas caem no seu pior.

Os Corvos de Avalon compromete-se a contar a história de Lhiannon e Ardanos, já sugerida em A Casa da Floresta, e de Boudica, que não só marcou esta época na História da Bretanha como foi bastantes vezes referenciada em As Brumas de Avalon. Limita-se assim a colmatar a inexistência de uma história tantas vezes referenciada ao longo dos livros e que ficou por contar, e fá-lo da forma mais simples possível. Sem pretensões, é certo, o que é agradável, mas neste caso talvez o pretensiosismo tivesse feito a autora dar-se ao trabalho de criar uma obra digna desse nome. Porque é isso mesmo que eu senti: uma leitura que não dá muito trabalho ler, um livro que não deu trabalho algum a escrever.
Mas, apesar de tudo, é certo que foi o livro mais fácil de ler de toda a saga de Avalon e por isso mesmo entretém (porque nem sempre um livro precisa de ser um clássico literário escrito por um génio para se apreciar).

Vale a pena ler por aqueles que são fãs da saga precisamente por falar de personagens conhecidas; para quem não o é... Gostaria de dizer que é a obra certa para conhecer mais sobre a História do Mundo e sobre a lendária Boudica, mas não é. Espero que hajam por aí romances mais dignos que tal tarefa. Mas se procuram uma leitura muito simples, que entretém, não dá muitas dores de cabeça e que de forma muito (demasiado) superficial aborda a História do Mundo, experimentem suponho.

Porque, infelizmente, nem posso dizer que tenha ficado satisfeito por conhecer a vida de Boudica. A maior parte do livro concentra-se na sua vida antes de se tornar uma guerreira (como aprendiza em Avalon, e esposa), e essa vida é muito pouco entusiasmante. A exaltação das suas batalhas, a perseguição aos Romanos, ocupa umas meras páginas considerando a extensão do livro. Se querem saber coisas sobre esta Rainha Guerreira, aprenderão mais lendo a sua página da Wikipedia.
Mesmo Lhiannon, outra protagonista, sacerdotisa de Avalon, apesar da vida preenchida pela guerra, pouco passa dessa correria de batalha em batalha. Mais uma vez, um livro sem passos criativos, sem sobressaltos no enredo... Sem emoções fortes.

Entretém bastante mais como romance histórico do que Marion alguma vez conseguiu. Isso, para mim, é certo, apesar de a exploração histórica ser bastante fraca (mas também não acho que a de Marion tenha sido melhor). A escrita é porém bastante mais genérica, pelo que não fiquei sequer com curiosidade de conhecer outras obras de Diana.
A escrita de Marion é mística, quase tão difusa como as suas brumas, e mesmo que eu não goste de ler isso não deixo de apreciar a sua unicidade e diferença. É o que caracteriza a fantasia de Marion, e isso é muito difícil de reproduzir. Pelo menos não o foi aqui.

1 comentário:

Francisco Pereira disse...

Boa tarde, Pedro.

Estou a enviar este comentário, pois não consegui encontrar forma de lhe enviar um e-mail e porque, depois de ler algumas críticas que publicou aqui no blog e as achar bastante consistentes, bem pensadas e bastante perceptíveis, gostaria de lhe perguntar se não estaria interessado em ler e, se achar que é digna disso, publicar uma crítica à minha obra mais recente "Demónios de Uma Mansão". O meu e-mail é francisco.meneses.pereira@gmail.com e deixo-o aqui caso queira contactar-me de modo a podermos discutir melhor este assunto.

Quem também lê