sexta-feira, 20 de junho de 2014

Entrevista com Sandra Carvalho, autora de "A Saga das Pedras Mágicas" e "Crónicas da Terra e do Mar"


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 Fã de Sandra Carvalho? Delirado com A Saga das Pedras Mágicas? Ansiso pelos novos livros desta grande escritora portuguesa?

Então aqui tens, uma entrevista exclusiva à autora!! Agradeço mais uma vez a imensa disponibilidade da autora. Deliciem-se mais um pouco com as suas palavras :)



- Bem-vinda ao Cantinho e muito obrigado por ter aceitado conceder esta entrevista! Antes de mais, porque este é um blogue sobre livros: qual o seu livro favorito?
Olá!!! É um prazer estar aqui contigo e com os seguidores do Cantinho! Eu é que agradeço por estes encontros tão agradáveis, que me permitem dar um abraço a todos os meus companheiros de aventura e apresentar os frutos da minha imaginação aos leitores que ainda não tiveram a oportunidade de saboreá-los :).
Quanto à tua pergunta, desde criança guardo tantos livros no coração que é difícil, mesmo impossível, eleger apenas um. No entanto, quando me colocam essa questão costumo salientar as obras de Michael Chichton e de Marion Zimmer-Bradley, pois foram dois escritores que me acompanharam durante a adolescência e que coloriram o meu imaginário, acabando, inevitavelmente, por influenciar a minha escrita.

- Parabéns por mais um livro publicado, de uma nova série! Sobretudo para os leitores que já a seguem, o que é que estas novas Crónicas trazem de novo e diferente? E o que têm de comum com a Saga que fica para trás?
Os leitores da Saga irão encontrar nas Crónicas o mesmo estilo de escrita, entusiasmado e apaixonado, centrado nas cores, nos sons, nos odores e nos sabores, assim como nas emoções das personagens. No entanto, as Crónicas resultam numa história mais madura, onde todos os elementos de um romance de ficção e de aventura se irão fundir com a realidade histórica de Portugal no século XV. Teremos, pois, um vislumbre da vida dos “nossos” fidalgos e das intrigas que eram entretecidas dentro e fora da corte, misturadas com a emoção dos Descobrimentos e as peripécias dos corsários que serviam o reino e dos piratas que estabeleciam as suas próprias leis. Essa “verdade” presente ao longo da história também faz com que a componente mística das Crónicas seja diferente daquela a que os leitores se habituaram na Saga. Enquanto a magia da Saga tinha imensas influências Anglo-Saxónicas, a magia das Crónicas está ligada à nossa cultura, aos mitos e aos medos, ao oculto e às mezinhas caseiras, o que, consequentemente, a torna mais ajustada à nossa realidade.

- As personagens de "O Olhar do Açor" existiram na realidade, ou apenas na sua imaginação?
Em “O Olhar do Açor” teremos cenários reais e cenários imaginados, da mesma forma que teremos personagens criadas por mim a relacionarem-se com personalidades reais. Esse foi o maior desafio das Crónicas: introduzir a História de Portugal e figuras emblemáticas como o infante D. Henrique e os seus irmãos na narrativa, sempre com o devido cuidado e respeito, para que os “factos” fossem preservados e apresentados com fidelidade ao leitor, ao mesmo tempo que, em paralelo, a ficção se desenvolvia. No fim, são as decisões tomadas por essas personalidades que irão ditar o rumo da história e o destino das minhas personagens, mesmo quando a sua intervenção não é direta.

- O novo livro tem uma grande vertente histórica: a descoberta dos Açores. Enveredou numa pesquisa histórica mais aprofundada, ou não foi essa a sua pretensão?
A descoberta dos Açores foi o ponto de partida para a criação das Crónicas. Os “incidentes” dessa viagem e as dúvidas que continuam a inflamar os debates dos historiadores sobre os heróis da proeza e a maneira como esta se concretizou foi a chama que fez explodir a minha imaginação. A partir daí, desenvolvi o trabalho de ficção, regressando à pesquisa histórica sempre que entendi que a “realidade” poderia abrilhantar a narrativa. Os factos históricos são apresentados de forma simples, maioritariamente através das experiências vividas pelas minhas personagens. Transmito o essencial da informação, para que o desenrolar da ação desvende as razões e as motivações por detrás de cada acontecimento, ao mesmo tempo que, gosto de acreditar, estou a estimular a vontade do leitor para aprofundar o conhecimento dos factos. Note-se que “Crónicas da Terra e do Mar” não é um romance histórico! A minha intenção não foi, nem é, concentrar-me na “verdade incontestável” dos relatos e escritos históricos. Apenas desejo oferecer aos leitores uma visão dos dois mundos: o real e o imaginário, fundidos numa aventura que, espero, os vá intrigar e entusiasmar, divertir e comover.

- A ideia para "Crónicas da Terra e do Mar" surgiu ainda durante a "era" das Pedras Mágicas? De onde veio essa primeira ideia?
Tudo aconteceu de uma maneira estranha… Por muito racional que eu queira ser, acabo por achar que o “destino” me troca as voltas :) ! Digamos que na “era” da Saga das Pedras Mágicas os leitores me pediam insistentemente para que, num novo projeto, eu me debruçasse sobre a História de Portugal. Porém, apesar de a ideia me estimular, escrever um romance puramente histórico estava fora de questão, pois não é esse o meu apelo… Pelo menos, por enquanto! E não discernia uma forma de avançar com um projeto que, precisamente, pudesse reunir a História com a ficção, sem correr o risco de desvirtuar algo que para mim é sagrado: a memória da minha pátria e a herança do meu povo. Por isso, quando terminei a Saga iniciei outro projeto… Até que, um belo dia, ao arrumar na minha estante os livros que os filhos de alguns amigos tinham ido buscar para “brincar”, verifiquei que estes possuíam um tema em comum: corsários e piratas. A partir daí tudo se desenrolou como uma avalanche. Para onde quer que me virasse, só ouvia falar do infante D. Henrique, dos Descobrimentos… E das ilhas dos Açores! Como a minha cabeça não para, dei por mim a recordar uma história sobre piratas que tinha iniciado na adolescência, guardada nos meus caderninhos… E pronto! Foi a perdição J! De repente, tudo parecia encaixar-se como as peças de um puzzle e crescer, até ao ponto em que eu já não pensava noutra coisa. Então, decidi escrever só algumas linhas da história que me andava a “atormentar” por julgar que assim arrefeceria essa súbita “obsessão”… Todavia, as linhas transformaram-se em páginas, o prólogo de “ O Olhar do Açor” estava concluído e a Leonor e a Guida já corriam através do bosque…

- "O Olhar do Açor" surge um ano depois do último livro da já série de culto "A Saga das Pedras Mágicas". Foi difícil transitar de uma série para outra? Um ano foi suficiente para descansar e avançar para uma história completamente nova?
Na verdade, não existiu um dia de descanso no meio deste processo :)! Durante a Saga, segui o ritual de encerrar um livro e começar imediatamente outro, nem que fosse apenas com uma frase. Por isso, terminada a última linha de “Sombras da Noite Branca”, iniciei o outro projeto de que vos falei, confiante de que seria a opção certa para suceder à Saga. Depois, aconteceu o que vos contei… Logo, não houve tempo para pausas, reflexões, nem sequer uma noite bem dormida! Sempre achei que seria difícil separar-me das emoções da Saga e das personagens que, durante décadas, viveram no meu imaginário. Porém, julgo que o projeto que deixei suspenso me ajudou a fazer essa caminhada. A partir do momento em que fui fulminada pela ideia que deu origem às Crónicas, a separação da Saga deixou de ser dolorosa… A Saga é um grande amor e a tentação de regressar a esse universo estará sempre presente na minha vida, ainda que não possa prever se, um dia, o farei ou não. Gosto de novos desafios e as Crónicas estão a ser, efetivamente, um desafio colossal! Uma nova, absorvente e arrebatadora paixão!

- Costuma reler os livros que já publicou? Revisitar as Pedras Mágicas lendo as suas próprias palavras?
Tive de fazê-lo quando estava a entrar na fase final da história, para me assegurar de que não deixava nada por resolver. Quando uma narrativa percorre três gerações, ao longo de oito livros, com personagens detentoras de personalidades tão fortes e vontades tão complexas, é essencial atender a todos os pormenores, conjugando o passado, o presente e o futuro em simultâneo. Isto significa que eu escrevi as aventuras da Catelyn já a preparar o caminho para a Kelda e, enquanto desenvolvia as aventuras da Kelda, não podia esquecer-me do caminho percorrido pela Catelyn. Sim, deu-me imenso prazer reler a Saga… Não só porque é o meu sonho de criança tornado realidade, mas também pelos inúmeros sonhos que os meus leitores partilharam comigo ao longo desta aventura! Estou muito feliz e orgulhosa das minhas meninas/mulheres – Catelyn, Edwina, Thora, Freya, Kelda… Acreditem que aprendi muito com elas :)!

- Catelyn, Edwina ou Kelda? Ou Constance?
Neste momento, Leonor e Guida :)! Mas Catelyn há de ser sempre a mais especial das minhas meninas. Primeiro, porque cresci com ela, como se fosse a minha irmãzinha imaginária, pois não tinha irmãos e desejava muito tê-los. Sempre que inventava uma história, Cat tornava-se a heroína… E assim foi com a Saga! Depois, porque é graças a ela, à sua pureza e sensibilidade, mas também por causa da sua paixão e da sua força, que a Saga cativa tantos leitores. A Edwina é diferente… Tem consciência de que nasceu com um destino traçado e faz todos os possíveis para agradar à família e cumpri-lo, até ao momento em que o apelo do coração se torna irresistível. Quanto à Kelda, é a minha menina-guerreira que eu simplesmente adoro! Ao contrário das antecessoras, Kelda vai crescer “esquecida” pela família e terá de lutar muito para encontrar o seu caminho e provar o seu valor. Por fim, Constance… De todas as personagens femininas que criei, talvez ela acabe por ser a mais consciente e ponderada, consequentemente a mais fria. Apesar de ser lutadora e corajosa, Constance foi capaz de renunciar ao grande amor da sua vida para preservar a honra da família. E mesmo quando teve uma segunda oportunidade de escutar a voz do coração, decidiu silenciá-la para que a filha continuasse a desfrutar dos privilégios da fidalguia. É o exemplo da mulher que sofre com um sorriso nos lábios para que aqueles que estão à sua volta possam ser felizes.

- Muitos fãs da "Saga das Pedras Mágicas" gostavam de reencontrar esse mundo, apesar da Sandra já ter deixado explícito que a história ficou concluída tal como tinha planeado. Mas alguma vez se atreveu a escrever, por puro entretenimento, uma nova história no mundo das Pedras Mágicas? Ou, pelo menos, existe no seu imaginário?
A história existe no meu imaginário, sim… À medida que a terceira geração da Saga evoluía, as aventuras da quarta geração foram tomando forma na minha mente, como um processo natural… Estou sempre a idear o que acontece a seguir; é mais forte do que eu! Contudo, ao planear a estrutura da Saga resolvi que a narrativa terminaria com a Kelda e decidi manter-me fiel a essa decisão. No entanto, os meus queridos leitores estão constantemente a tentar-me, pedindo-me que prossiga com a história ou que desvende o destino de algumas personagens pelas quais se encantaram e que seguiram outros caminhos… Talvez um dia regresse a este universo maravilhoso! Talvez! Porém, para já sinto a necessidade de crescer para além da Saga, de explorar novos mundos, outros cenários, personagens e emoções… Ainda assim, não irei fechar essa porta! O “incidente” que originou a escrita compulsiva das “Crónicas da Terra e do Mar” ensinou-me que, por mais que tente ser racional, é a paixão que decide o rumo da minha escrita! Afiancei que não me dedicaria tão cedo à História de Portugal e o destino trocou-me as voltas de uma maneira surpreendente, deliciosa e fantástica! Escreverei sempre o que o coração me mandar… Essa é a única certeza que possuo.

- Algum conselho para novos escritores, para aqueles que procuram dedicar-se à escrita?
Para começar, quem quer ser escritor deve mesmo desejá-lo com todas as fibras do seu ser, ciente de que tem anos de trabalho árduo pela frente! Leiam muito, estudem muito, pesquisem muito, ponderem muito, escrevam muito… “Muito” é essencial! A composição de uma história é um exercício solitário que exige uma enorme disciplina, concentração e rigor. O processo criativo pode ser apaixonante e divertido, mas também é bastante espinhoso!
Desenvolvida a ideia, torna-se necessário revê-la e aperfeiçoá-la com um espírito de autocrítica aguçado. Só se deve avançar para a procura de uma editora quando se sente que não há mais nada a fazer para melhorar a história. E essa busca deve começar pela seleção das editoras que estão a apostar no género literário ligado ao vosso projeto. Feita essa “triagem”, elaborem uma lista de preferências e iniciem os contactos. É importante que fiquem esclarecidas as condições impostas por cada entidade para a aceitação de propostas, assim como o tempo que demoram, em média, a dar resposta. Reúnam os elementos que vos forem pedidos e apresentem-se, e à vossa obra, de forma confiante e apaixonada, mas sucinta e objetiva, sem exageros. Depois, resta aguardar… Existem dezenas de editoras, com diferentes métodos de trabalho. Supondo que tudo corre bem, como se deseja, cabe-vos a vós escolher aquela que melhor poderá servir os vossos interesses presentes e futuros.
Todavia, também é possível que o sonho não se concretize “à primeira”… Mas isso não é razão para esmorecer! Lembrem-se de que estamos a viver tempos difíceis! Escutem com atenção as críticas construtivas que vos forem feitas, assimilem-nas com humildade e utilizem-nas para vosso benefício… Após um período de reflexão, voltem a tentar.
Em conclusão, por muito que eu goste de ajudar, a verdade é que não existem conselhos milagrosos que assegurem a criação de um livro e a sua publicação… No entanto, se a escrita vos traz felicidade, sejam perseverantes e assertivos. O importante é que nunca parem de escrever! Nunca deixem de acreditar! Nunca desistam de sonhar!

Resta-me agradecer ao Cantinho do Bookaholic por esta conversa tão agradável e a todos vós que tivestes a simpatia de me acompanhar.
Muito obrigada pelo vosso carinho.
Beijinhos
Sandra Carvalho

Mais uma vez, estou bastante agradecido pelas palavras amigáveis e entusiasmadas da Sandra. Espero que os seus fãs, e aqueles que ainda a têm de conhecer, tenham ficado tão agradados com a conversa (tenho a certeza que enche a barriga a muitos fãs!). 

Preparem-se para a continuação de mais críticas, mais sugestões de leitura, e certamente mais autores à conversa... :)

4 comentários:

Neptuno_avista disse...

Podes crer que esta entrevista encheu o meu "bandulho" Fiquei encantada com as palavras da Sandra Carvalho! Os livros da Catelyn são os meus favoritos e tenho uma imensa ternura pela saga, embora não a tenha acabado por não ter acesso aos livros. Mas estou a mudar isso e não tarda nada vou ler a saga toda :)
Obrigada por lhe teres feito esta entrevista.
Beijinho

Pedro disse...

Neptuno, fico muito feliz que de facto as palavras desta escritora te agradem tanto! É uma pessoa bastante simpática e foi muito muito querida em ter respondido a estas perguntas todas de uma forma tão completa e, como em tudo o que ela escreve, entusiasmada :)

Espero que muitos mais leitores possam aproveitar esta entrevista e que continuem a sentir o prazer que a Sandra Carvalho transmite nas suas palavras.

Boas leituras!

Neptuno_avista disse...

Notou-se bastante esse entusiasmo e abertura da forma como ela escreveu. Fiquei bastante agradada :)
Beijinho

Luisa Bernardino disse...

Gostei bastante da entrevista.
Obrigada
Eu também gostava muito que a Sandra desse seguimento a Saga das pedras mágicas. Seria fantástico ler o que aconteceu a certas personagens como por exemplo Sigarr.
Já li o novo livro O Olhar do Açor e adorei. Nota-se perfeitamente que a Sandra escreve com paixão. Para mim é a escrita perfeita para aliviar o corpo e a alma depois de um longo dia de trabalho ou simplesmente pelo prazer de ler. Ainda me custa a acreditar que as Crónicas da Terra e do Mar sejam só dois livros. A história é tão interessante e apaixonante que para mim podem vir mais oito livros.
Ah eu também adorei a Catelyn. Por vezes tenho necessidade de pegar nos dois primeiros livros e ler. Já li tantas que sei diálogos decor.
Obrigada

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