quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Samarcanda, de Amin Maalouf

Numa época de obscurantismo e fanatismo religioso, Omar Khayyam, o grande livre-pensador do Oriente, foi capaz de oferecer ao mundo uma mensagem hedonística e heterodoxa. Este poeta, filósofo, astrónomo e matemático persa do século XI deixou escrita uma colecção de poemas dedicados ao vinho, os célebres Robaiyat, nos quais aflora o mais refinado da perdida civilização persa. Seguindo este manuscrito durante quase um milénio, Maalouf introduz-nos na apaixonante história da Pérsia através de um espectacular fresco em que a cidade de Samarcanda se destaca como protagonista.
Amin Maalouf nasceu em Beirute, Líbano, em 1949. Trabalhou como jornalista e foi enviado especial em diversas zonas de conflito, como o Vietname e a Etiópia, até ao princípio da guerra civil no Líbano em 1975, momento em que se mudou para Paris como refugiado. Conhecedor da língua árabe e da francesa, de família muçulmana e cristã, a sua narrativa mistura inevitavelmente as culturas do Oriente e do Ocidente. Vencedor em 1993 do Prémio Goncourt, o mais prestigioso das letras francesas, é autor de romances universalmente aplaudidos como Leão o Africano, O Rochedo de Tanios, Os Jardins de Luz, O Périplo de Baldassare ou Samarcanda, publicado em 1988 e para muitos a sua obra-mestra.




Quando escolhemos um clássico, esperamos desde logo uma boa leitura. Aliás, é essa a razão pela qual o escolhemos: é um livro que sobreviveu ao teste do tempo, reuniu ao longo de décadas seguidores e críticas formidáveis. Se pegamos num clássico, queremos uma leitura de qualidade. Não esperamos encontrar menos do que isso.
Portanto, vamos já despachar esse assunto: sim, Samarcanda é um clássico, reconhecido pelo mundo inteiro, um livro único na Literatura. Sem questões.
Avançando. Aqui vai a minha crítica sobre o aclamado livro.
Samarcanda tem um grande trunfo a seu favor: não há romances sobre o mesmo tema. Na Literatura Internacional, não encontramos livros de ficção que falem sobre o grande pensador Omar Khayyam, nem sobre Hassan Sabbah, nem especificamente sobre a História milenar da Pérsia, ou as grandes revoluções desse país que é hoje conhecido como Irão (e que continua a sofrer grandes mudanças). Sendo um livro único naquilo que aborda, torna-se automaticamente uma obra de referência.
Originalidade: nota máxima.

Dito isto, tenho a certeza de que, se existissem mais livros sobre o tema, Samarcanda não seria tão admirado.

Na verdade, este livro não é sobre Samarcanda, uma cidade histórica da Pérsia. Esta cidade não se destaca como protagonista, como o título ou a sinopse levam a crer. O papel desta cidade é até bastante pequeno. Há uma certa simbologia associada a Samarcanda, que envolve o encontro com o destino, mas que foi muito mal explorada (como aliás a maior parte dos simbolismos que me parecem ligar os vários elementos da história) e, se não fosse uma única frase no livro, seria pouco relevante. O verdadeiro protagonista é um manuscrito. Nesse manuscrito, Omar no séc. XI escreve poemas dedicados à vida e seus prazeres. Esse manuscrito, após a morte do pensador, viajará pela Pérsia até ao séc. XX, quando voltará a atrair a atenção de um jovem orientalista, metido no meio da Grande Revolução Constitucional no início do século. É o manuscrito que atravessa toda a História, é ele o pano de fundo do livro. Não a cidade.

Estava ansioso por algumas descrições bonitas que me transportassem para o Oriente, para Samarcanda, para as grandes cidades que nós, Ocidentais, não temos a noção do quão imponentes foram. Mas não encontrei nada disso. É mesmo uma pena. No risco de ser chacinado pela maior parte do mundo, achei que aquilo que mais faltou ao livro foi equilíbrio. E equilíbrio é precisamente o elemento essencial. A ligação entre passado e presente, ficção e realidade, pessoas e cidades, parecia a base fulcral do livro. No entanto, se em alguns (poucos) momentos Maalouf capta o espírito poético de As Mil e Uma Noites, rapidamente cai num relato aborrecido, jornalístico, que se estende ao longo de toda a última metade do livro (algo corre mal quando, à medida que as páginas avançam, ficamos cada vez mais aborrecidos). Apesar de pretender ser um romance histórico, as partes ficcionais são tantas e tão díspares com a realidade que se torna muito difícil sentir-me impressionado. Quanto às personagens, precisamente por sofrerem tantas ficcionalizações, e pela linguagem pouco emotiva, sabem a subdesenvolvidas. Não entusiasmam. Aliás, o segundo protagonista (do séc. XX) é uma das personagens mais pobres e passivas que já li num "clássico".


Enfim, estou muito mal habituado depois de ler a série histórica fenomenal de Colleen McCullough (essa, sim, combina com enorme mestria a mais completa e fiel descrição histórica e a prosa de um romance). Samarcanda mistura muito factos com ficção e isso não me agrada, de todo. Tratando-se de um livro histórico, gostaria de ter a certeza que estou a ler algo de facto verídico. Em vez disso, temos uma mistura que roça a História Alternativa.
Tudo parece muito mal aproveitado. Tendo em conta a história milenar das cidades da Pérsia, tenho pena que Samarcanda não tenha sido de facto o verdadeiro pano de fundo da história. Mas não sei se isso mudaria alguma coisa.

Falta estilo. Algo que, num clássico da Literatura, esperaria encontrar. Falta estilo que combine com mestria as diferentes personagens, o passado e o presente, e ofereça a cada elemento um simbolismo que flua com a história.
Aprendi, apesar de tudo, algumas coisas sobre a História da Pérsia e alguns dos seus protagonistas. Literariamente, o livro foi uma desilusão.


Gostaria de terminar aplaudindo a esquecida colecção Biblioteca Sábado, publicada pela revista Sábado, que reunia vários clássicos da Literatura Internacional. Há anos que não são lançados novos títulos, o que muito me entristece porque dá a conhecer obras muito variadas em edições muito bem tratadas. Com alguma sorte, a revista Sábado sentir-se-á agradecida com este comentário e voltará a apostar nesta grande colecção.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

O Homem Que Preferiu Não Sentir, de Gonçalo Alves da Cunha


O Homem que preferiu não sentir retrata o percurso existencial do jovem pintor Sebastião que, numa autoanálise constante, evoca as memórias do menino feito homem, dotado de um excesso de sensibilidade materializada em todas as particularidades da sua essência.
Inserido na categoria de romance existencial, O Homem que preferiu não sentir conduz-nos numa viagem ao interior de nós mesmos, onde não faltam o confronto com a inevitabilidade da morte, as reflexões sobre famílias que se desestruturam e reestruturam ou as dúvidas que questionam os dogmas religiosos. A arte e a sua finalidade, a reescrita irónica de páginas da História e sobretudo as vivências de uma geração qualificada, mas desajustada à mediocridade da sociedade que os sistemas políticos teimam em perpetuar, brotam em páginas vivas de verdadeira prosa poética. É a afirmação da individualidade contra a subserviência de quem segue estandartes com sebastianismos imorredouros e por isso nos exige uma redescoberta de nós mesmos.



Publicado pela Chiado Editora, O Homem Que Preferiu Não Sentir é mais um pequeno livro escrito por um jovem aspirante a escritor, realizando um (talvez) sonho de ver uma obra sua nas estantes da nossa literatura.

Gonçalo Alves da Cunha sabe escrever. É certo que tanta palavra cara por vezes pode soar a forçado, mas pelo menos não são despropositadas. O discurso neste livro é próprio de um romance existencialista: divagador, difuso, pouco directo, com muitas expressões caras e um desafio à gramática, próprio de um intelectual tentando escrever no português mais difícil que consegue arranjar. Ao percorrer estas páginas, não entramos numa história, mas sim numa reflexão sobre o estado do mundo, os valores das gerações, ou apenas na aflição que atinge tantas vezes o nosso protagonista. Poético também, muito poético aliás, numa manifestação de ideias e reflexões que apesar de tudo não são difíceis de seguir. De facto, apesar das palavras caras, tudo aqui faz sentido, não existem embelezamentos ou floreados mas sim ideias concretas e bem expressas. Se é certo que o discurso usado é tão erudito que pode aborrecer certos leitores, pelo menos é um discurso com significado, onde as ideias estão bem formuladas e expostas. Não há enche-chouriços neste livro. Gonçalo Alves da Cunha escreve muito bem.

Infelizmente, aparte a sua escrita quase académica, Sebastião, o protagonista, não é uma personagem simpática, e a sua história não comove. Aliás, Sebastião exaspera-nos. Estão a ver aqueles jovens adultos, convencidos de que são mais iluminados que o resto do mundo, constantemente aborrecidos com o estado das coisas, e que apesar de passarem o dia sentados no sofá a ver televisão se questionam porque é que o mundo não lhes dá a glória que o seu talento merece? Aí está o Homem que Preferiu Não Sentir.

Um jovem pintor, acabado de sair da faculdade, é assaltado por mudanças de humor muito repentinas e sem aparente sentido (alguém precisa urgentemente de visitar um psiquiatra) e queixa-se frequentemente de um mundo que não tenta mudar, das pessoas e das suas atitudes quando ele é na verdade o pior de todos. Ó rapaz, passas a vida a queixar-te da inércia e inaptidão dos que te rodeiam, quando tu ainda menos fazes pela tua própria vida? Talvez a sua frustração nasça precisamente de se ver reflectido nas falhas e fracassos dos outros, talvez seja essa a interpretação deste livro. Não obstante, chegado ao fim do livro e ao fim da sua história, só me surgem duas palavras: drama queen.
Mesmo as suas divagações, ideias e pensamentos, nada oferecem de novo. São reflexões muito populares na era em que vivemos, não sugerem nada que não tenha sido dito. São os mesmos pensamentos que ouço de qualquer outro jovem na mesma situação. Pior do que isso, este jovem em particular é tão pouco activo que nada faz para se mudar a ele próprio ou a vida que ele tanto despreza, o que faz toda a sua situação e queixume parecer demasiado ridículos. Torna-se, por todos estes motivos, difícil sentir simpatia pelo que estamos a ler
Talvez seja esse precisamente o objectivo: um retrato da juventude de hoje, protegidos durante os seus anos de estudos e sonhos, frustrada por se deparar com uma realidade que só demasiado tarde lhes é apresentada. E nesse caso, este livro será certamente um excelente exemplo para os estudiosos de hoje a cinquenta anos estudarem um pouco a geração de hoje.

Infelizmente, para mim, o livro não é mais do que uma repetição de ideias contestatárias proferidas centenas de vezes por aqueles que vêem o fim da sociedade nesta geração, e pior do que isso não oferece qualquer tipo de ajuda ou solução. O protagonista não tem motivações aparentes que devessem despertar tantas oscilações de humor (a sério, ou há muita coisa que não foi dita ou todas aquelas depressões não têm qualquer sentido e deveriam ser caso para psiquiatria) e tudo soa a um queixume de barriga cheia, cujo clímax parece demasiado precipitado.
Resumindo: muito boa escrita, pouco inovador em tudo o resto. Uma personagem pouco simpática e muito frustrante, cujas motivações não fazem muito sentido, com ideais que nada sugerem de novo.
Sebastião, o que tu és a mais do que os outros é dramático.



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