sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Abaddon, de Rui Madureira

Sedento de poder e cegado pelo seu próprio orgulho, Lucifer – o primeiro anjo criado por Deus e o mais belo de toda a estirpe celestial – decide rebelar-se contra o Pai divino após a misteriosa e muito polémica criação do Homem. Persuadindo uma enormíssima falange de anjos guerreiros com as suas ideias de revolta e usurpação do trono divino, o primogénito dos anjos avança sobre as muralhas do imponente palácio de Deus com um vasto exército de anjos rebeldes nas suas costas. Porém, travado pelas brilhantes tácticas defensivas dos Arcanjos Michael, Gabriel, Raphael e Uriel, Lucifer acaba por tombar e ver os seus desígnios megalómanos cortados pela raiz, sendo aprisionado no Inferno para toda a eternidade conjuntamente com os seus seguidores. 
Os milénios passam, mas nem por isso o revoltado Príncipe dos anjos esquece a sua sede de vingança. Pretendendo desforrar-se do ser humano e do Pai que o deserdou, começa desde logo a arquitectar uma invasão ao reino do Homem com a ajuda do demónio Abaddon, a única criatura capaz de despoletar o Apocalipse em solo terrestre. E como tentativa desesperada de evitar o fim do mundo, Deus envia o Arcanjo Gabriel à Terra com a incumbência de liderar uma legião de guerreiros celestiais capaz de fazer frente ao Diabo e às suas hostes de monstros oriundos do Abismo. Poderá o Homem salvar-se no seu maior momento de provação? Ou sucumbirá para sempre ante as trevas orquestradas pelo colérico Rei do Inferno?

Apresento-vos um novo escritor no panorama da Literatura em Portugal: Rui Madureira. Tendo em conta os tempos que vivemos, é de louvar alguém novo, diferente, publicar um livro em Portugal e seguir um sonho como este. E creio que tem tudo para ser bem sucedido.

Abaddon é um enorme livro (600 páginas) sobre a vingança de Lucifer. Depois de se ter recusado a aceitar a nova criação de Deus, o Homem, decide rebelar-se, embora sem sucesso, sendo enviado para o Inferno. Aí, conspira com Abaddon (o Rei dos Infernos) a sua vingança, sobre o Pai e sobre o Homem, espécie que levou à sua queda. O livro passa-se sobretudo em Londres, onde Abaddon decide despoletar o Apocalipse (já que ele é o único capaz de unir o Inferno e a Terra) e o Arcanjo Gabriel procura respostas junto desse demónio, evitando que o Dia do Juízo Final seja mais trágico do que se espera.

Abaddon, apesar de tudo, é uma personagem relativamente secundária. Suponho que "Gabriel" faria mais sentido, já que é sobre ele que a maior parte do livro se debruça. De qualquer forma, este é um livro sobre o Apocalipse, sobre vingança, sobre o objectivo das Trevas, pelo que o nome do demónio é a única escolha possível.

Apesar da nota inicial nos avisar disso, fiquei muito surpreendido por notar tantas influências no clássico O Exorcista. Abaddon, apesar de Fantástico, tem uma carga enorme de Terror, o que foi inesperado mas bastante positivo. A luta entre Gabriel e o demónio, as cenas de meter medo, lembram o tipo de terror que O Exorcista apresenta.

Mas ainda está longe de ser um livro perfeito. Infelizmente, neste caso, 600 páginas significam uma coisa: repetitivo. Muitas vezes senti que tinha lido a mesma coisa repetidas vezes seguidas, como se o autor quisesse reforçar um certo ponto de vista. Ok, nós percebemos, quer que o leitor compreenda que Abaddon é uma criatura extremamente terrível, ou que Gabriel é um anjo gloriosamente valoroso. Mas não é necessário repeti-lo capítulo a capítulo. Página a página. Parágrafo a parágrafo.
Este é, sem dúvida, o maior erro deste livro. Demasiado repetitivo nas suas descrições, demasiado repetitivo na caracterização das suas personagens. Para além de que, para muita pena minha, para um livro tão extenso acho que as personagens podiam ter sido muito mais desenvolvidas. Poderíamos ter explorado muito mais a psique de Lucifer, ou os motivos de Gabriel, muito para além do que nos é oferecido. Esta exploração é relativamente superficial, as personagens acabam por ser pouco multi-dimensionais. Há uma história por detrás dela, mas dada a magnitude destes intervenientes, pedia-se algo mais complexo, que acabasse por despertar conflitos na mente do leitor, conflitos que nos fizessem reconsiderar a nossa posição nesta batalha. Apesar de tudo, não senti esses conflitos.
Esta história traz consigo tantos temas interessantes, sobretudo de carácter mais filosófico, que no entanto são postos de parte em prol da história em si, que aliás demora a avançar.

Aliado a isto, a história demora tanto a desenvolver que, a partir de certa altura, perde-se muito do entusiasmo inicial da chegada do Apocalipse. Arrastar a história pode resultar em duas coisas: o aumento da expectativa ou o cansaço. Por isso, o livro acaba por ser mais extenso e demorado do que a princípio se julgaria, pedindo ao leitor alguma paciência.

Mas uma vez chegado o Apocalipse, o livro brilha: a emoção da batalha, as cenas macabras, a expectativa, será que aqueles sobrevivem, será que não?, como será que aqueles morrem, como será que se vão encontrar, o que vem a seguir?. Em pleno Apocalipse, Rui Madureira prova que consegue evocar as cenas mais épicas, transportando-nos para um outro plano. Compensa a longa espera, pode-se dizer. Vi-me em Londres, vi-me no meio da batalha, vi o horrível cenário à minha volta e senti as forças do Bem e do Mal chocarem. Senti e vi a fé dos Anjos, o desespero dos Humanos. Ansiei pela conclusão, ansiei pela Batalha Final, curioso para saber como raio iria tudo acabar.

Quando as personagens entram em acção, o livro agarra-nos. Agarra-nos muito.
Uma coisa é certa: o autor escreve, e bem. Pelo que, apesar de tudo, mesmo nos momentos mortos, a leitura decorre normalmente, lenta mas nunca verdadeiramente cansativa. A influência do Cinema está bastante presente na escrita de Madureira, o que nos ajuda bastante a visualizar a história e a percorrer as suas páginas. Eu diria que está demasiado presente, visto que isto é um livro e não um filme pede-se uma linguagem um pouco mais adaptada, mas já estou a ser demasiado picuinhas certo?

Para além disso, não percebo como é que ninguém se lembrou de escrever isto mais cedo. A premissa é extremamente interessante, é assunto com pano para muitas mangas, dá asas à imaginação. Qualquer tema da Bíblia serve de inspiração para escrever imensos romances, o Apocalipse é apenas um deles! Ver o Dia do Juízo Final retratado neste livro é o que mais empolgado me deixa. Ler o livro já vale a pena pela sua história-base. É desde o início algo previsível (com um final bastante rebuscado, a meu ver), mas isso não tira de todo a emoção da batalha ou o simples prazer da leitura. Fico à espera do segundo romance, seguro de que trará evoluções positivas!



8 comentários:

Rui Bastos disse...

Ando a ficar deveras curioso para ler este livro...

Anónimo disse...

Olá, Pedro.

Folgo em ver que, no geral, gostaste do livro. No entanto, já não é a primeira vez que os leitores se "queixam" do título do livro, pelo que talvez valha a pena aqui explicar por que razão lhe dei este título. "Abaddon" é, de facto, o nome de uma das personagens principais. Mas é também uma expressão hebraica que significa "destruição" ou "local de ruína". É um título com dois significados, portanto. Se tivesse optado pelo título "Gabriel", esse significado oculto perdia-se. Visto agora, compreendo que talvez devesse ter referido isto na Nota de Autor. Mas pronto, o que importa é que os leitores estejam a gostar da obra.

Um abraço,
Rui Madureira

Pedro disse...

Rui, acho que disse tudo o que podia dizer. Vais gostar da história (a sério, como é que ninguém lançou algo assim mais cedo), é bastante fascinante. Vais gostar de algumas cenas, sobretudo o Apocalipse (aliás, é por causa disso que lemos o livro!) e as cenas com o demónio Abaddon, sei que gostas desses pequenos travos de terror. Mas, conhecendo-te um pouco como leitor, também acho que encontrarás as mesmas falhas que encontrei como obra literária, por assim dizer. Aconselho-te mesmo a ler na integral a minha opinião!

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

Pareceu um livro interessante e um nome a acompanhar! Recomendo "O Carrossel de Lucífer" de Victor Eustáquio, para moldes semelhantes, embora mais simbólicos, também de um nome nacional recente!

Pedro disse...

Rui, o título está muito bem posto na verdade, de facto o livro é sobre o Apocalipse, sobre a vingança das Trevas. Mas realmente essa referência na Nota de Autor esclareceria as coisas! De qualquer modo, não é de todo insatisfatório.

Parabéns pelo livro! É sem dúvida uma boa leitura. A sua veia cinematográfica é notória. Se posso dar alguma conselho, é mesmo tentar não se estender demasiado e evitar repetir-se tanto (é muito difícil bem sei, como escritores queremos que o leitor perceba o que está em jogo, mas acabamos por reforçar a mesma coisa demasiadas vezes).
Continue! Fico à espera do já prometido segundo livro!


Ana/Jorge/Rafa/Júlia,
muito obrigado pela sugestão! Já fui pesquisar um pouco sobre o livro e fiquei bastante intrigado. Eu diria que me parece um "complemento" a este Abaddon. Enquanto Madureira se preocupa em contar uma história (como Lúcifer caiu, como o Apocalipse acontece e como Gabriel tentou derrotá-lo), Eustáquio parece querer explorar a psique do Bem e do Mal, não falar da história em si mas sim da psicologia por detrás da história (que é o que acho que falta em "Abaddon").

Boas leituras!

Ana/Jorge/Rafa/Júlia disse...

É exactamente isso, Eustáquio desenvolve mais a componente psicológica. É um livro difícil de encontrar e digo que é uma leitura bastante densa e pesada, mas foi das melhores descobertas que fiz este ano!

Jorge

Vampira Dea disse...

Me chamou atenção. Raramente um livro assim não peca por ser repetitivo.

Pedro disse...

Jorge, fiquei com o livro na lista de compras!

Vampira Dea, de facto, mais cedo ou mais tarde poucos livros dentro deste género não caem na repetição. Mas há livros escritos de forma tão brilhante que acabamos por nem perceber isso, ou simplesmente não nos importamos (e estou a pensar em "Cronicas de Gelo e Fogo", de George R. R. Martin, das quais já tenho muitas saudades)

Quem também lê