domingo, 8 de abril de 2012

Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac

"Havia em redor um ar de mistério. O carro rolava numa estrada lamacenta, elevada sobre os pântanos, que aluía de ambos os lados e deixava pender gavinhas. Ultrapassámos uma aparição: um negro com uma camisa branca que caminhava com os braços levantados para um céu de tinta.
Talvez rezasse ou invocasse uma maldição.
Passámos que nem setas a seu lado; voltei-me para olhar através do óculo traseiro e ver os seus olhos brancos."

Voltei, voltei com mais uma grande leitura!

Apesar de uma pequena febre pelo ciclo arturiano, depois de ter lido o pequeno livro "Tristão e Isolda" percebi que talvez fosse perigoso avançar para outro livro extensivo sobre a lenda de Artur e acabar por me cansar.
Avancei portanto para um livro que já tinha há muito tempo guardado na estante e para o qual tinha grandes expectativas.

Quem me acompanha há algum tempo certamente vai-me conhecendo. E mesmo aqueles que estão a chegar agora aqui, facilmente vão conseguir conhecer-me. É impossível não colocar um pouco de nós nas nossas críticas (afinal, não estou aqui a avaliar propriamente a qualidade do livro, estou sim a transmitir aquilo que EU senti durante a leitura) e facilmente descobrimos com que pessoa estamos a lidar quando conhecemos os seus hábitos de leitura e os seus livros preferidos.

Este é um livro impossível de falar sem falar sobre o leitor. O que ao início pode parecer contraditório. Este é um livro muito especial. É um livro autobiográfico. É um livro sem enredo. É um livro que não precisa de um leitor para acontecer. Mas é um livro sobre uma geração, sobre um grupo muito específico de pessoas, e os próprios ideais do leitor vão afectar a sua leitura.

Eu sou uma pessoa muito idealista. Não, não acredito em todos os seres mágicos e que o mundo amanhã pode-se transformar na Terra do Nunca. Gosto, sim, da vida que Kerouac nos apresenta: espíritos livres, sem amanhãs, tentando viver tudo até à exaustão. A ideia de que a vida é o presente, de que não nos devemos retrair mas sim ir sempre em frente. Portanto, as expectativas para este livro eram enormes.

Escrito nos anos 50, conta a experiência do autor (no nome de Sal Paradise) pelas estradas da América, numa aventura sem fim onde o que conta é a viagem e não o destino, acompanhado do seu amigo Dean Moriaty, a personificação perfeita do espontâneo, da aventura, da paixão por tudo que exista, a loucura da vida em pessoa. Juntos conduzem por uma América vibrante, inspirados pelo jazz e o bop, o amor, a bebida e as drogas. O livro inspirou a chamada "Geração Beat", pessoas que rejeitaram a sociedade comum para se dedicarem à pura experimentação, a nível sexual, criativo, pessoal. O grito de liberação e expressão pessoal pelo qual por vezes somos atacados.
São os boémios puros, vistos por alguns como obscenos, imorais, mas no fundo são precisamente pessoas "vencidas" pela vida que procuram um sentido para a sua vida, aparte das limitações que uma vida na sociedade provoca.

Acho curioso lembrarmo-nos de "Revolutionary Road", que se passa exactamente na mesma época. Talvez ambos os livros sejam a mesma história, mas contadas de maneira diferente. No caso de Kerouac, é a perspectiva daqueles que viveram o espírito Beat. No caso de Yates, temos a perspectiva daqueles que acabaram por se deixar prender pela sociedade, impedidos de exteriorizar o seu espírito Beat.
Talvez todos devamos, em determinada altura da nossa vida, ter estas experiências. Enquanto somos jovens sobretudo, talvez devêssemos reservar algum tempo da nossa vida a deixarmo-nos perder, deixarmos que a estrada nos leve e conhecer o mundo como Sal e Dean o conheceram.

Como disse, o livro não tem enredo propriamente. Está dividido em várias partes, cada uma correspondendo a uma viagem que Sal (o próprio autor, narrador na primeira pessoa) realiza, sendo a maioria com Dean a seu lado. O livro é apenas o testemunho de uma experiência, uma grande experiência. O número de personagens com as quais eles se cruzam é enorme, o que foi no meu caso a minha maior dificuldade. Foi-me difícil lembrar das personagens todas. Até mesmo no fim precisei de voltar atrás para me lembrar do impacto de cada personagem nas viagens de Sal e Dean.

Sendo um "testemunho", não está escrito com qualquer pretensão. Certamente alguns vão achar mais fácil de ler do que outros.

Eu adorei. Cheguei ao fim a querer ser um Dean, esse demónio da vida. As noites a suar ao som do saxofone, conduzir por estradas intermináveis, a espontaneidade, é um sonho.
Infelizmente, o sonho de "Pela Estrada Fora" pertence ao passado. Quem é que hoje em dia seria capaz de andar à boleia por um continente inteiro? Como seria possível sobreviver sem dinheiro no bolso? O tipo de vida mudou, a sociedade mudou. Há tantos hábitos, tantas situações, que actualmente são impraticáveis.
E, já agora, quem não é da América convém ter um atlas ao lado.

4 comentários:

pertita disse...

Olá!
Deixei um desafio para ti no meu blog!
Boas leituras!

tonsdeazul disse...

Em pouco tempo li duas opiniões fantásticas sobre esta obra e claro a curiosidade começou a aumentar. :)
Quero mesmo ler este livro! E com a feira do livro aí à porta não posso deixá-lo fugir. ;)
Boas leituras

Iceman disse...

Sabes, Pedro, muitas vezes apetece-me ir pela estrada fora sem destino e sem pensar no futuro.
Nunca li o clássico de Kerouac, embora, mais tarde ou mais cedo, o vá ler, no entanto as amarras quodianas que nos impedem quase de respirar, faz-me sentir essa necessiade, precisamente, de romper com essas amarras.
Um abraço!

Pedro disse...

Pertita, passatempo curioso! Não costumo fazer estas coisas, mas vou-me lembrar de pegar nele e responder, gostei das perguntas ;)

tonsdeazul, por acaso comprei este livro na Feira do Livro (a um preço muito baixo nos alfarrabistas). Sem dúvida, pega nele assim que puderes. Quem me dera que este livro fosse lido pela nossa geração, talvez desse às pessoas uma ideia mais simples do mundo, mais sonhadora...

Iceman, quase de certeza que vais adorar o livro então. É um hino para quem sofre dessas amarras, para quem sonha com a estrada, com um tempo sem tempo. Talvez soe louco, mas antes isso que cego.
Mas, enfim, os tempos são diferentes. Hoje não são os anos 50. Quem me dera...
(e eu ainda acredito que um dia vou fazer isso, "adeus a todos, até quando eu voltar")

Boas leituras!

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