Um romance que é um relato da vida de Daniel, humorista de sucesso que está a envelhecer e que evoca os seus amores e o encontro com os adeptos de uma seita secreta que, prometendo a imortalidade através da clonagem e de manipulações genéticas, acabará por se impor como a religião do futuro. Este relato de vida é comentado, mil anos mais tarde, por Daniel24 e Daniel25, dois dos seus clones.
Um livro que mistura de forma magistral e provocadora, a narrativa filosófica e a meditação sobre as misérias inerentes à condição humana. Duro e ácido, como merecem os nossos tempos, mas que nos diz, contudo, que existe sempre "a possibilidade de uma ilha".
É difícil encontrar autor mais polémico actualmente. Amado por uns, odiado por outros, não há um meio termo. Alguns vêem-no como um génio, um observador da sociedade e da condição humana; outros vêem-no como um puro provocador, vulgar escritor de pornografia, racista.
Eu pertenço às pessoas que o vêem como um génio. Este homem consegue ver o mundo de uma forma que ninguém tem a coragem de fazer. Sim, é provocador, sim, recorre muito frequentemente à sexualidade, à obscenidade, por vezes com desprezo por certas pessoas. Mas de que outra forma seria possível mostrar aquilo que quer? A crua realidade de que é feito o humano, das suas limitações, das suas ambições, da sua decadência. Houellebecq é puramente genial na sua observação crua à nossa espécie, e isso é tão visível neste "A Possibilidade de Uma Ilha" (cujo título, aliás, remete para uma certa "esperança", sentimento que, chegamos à conclusão, é a verdadeira essência do que faz de nós humanos).
Daniel é uma personagem curiosa: apesar de humorista, apesar dos seus sketches serem todos provocativos, apesar de acreditar que tudo se resume a sexo, é um sentimental. Um terrível sentimental, um amante, que procura tanto o sexo como o amor. Ao longo do livro percorremos a sua vida e as suas divagações, até atingir a meia-idade: essa idade terrível, em que o corpo começa a trair-nos, em que o sexo já não é fácil e em que encontrar o amor é cada vez mais improvável.
Ao mesmo tempo, lemos a narrativa de dois dos seus clones, dois mil anos depois. Estes clones são neo-humanos, um estádio evolutivo posterior ao humano, e portanto muito diferente da nossa psicologia. É com a sua narrativa que vai ser possível olharmos para o cinismo de Daniel e perceber que por detrás do desprezo pela condição limitante da nossa espécie, está aquilo que faz de nós únicos, diferentes, admiráveis. Depois de escrever este livro, não consigo perceber como é que há pessoas que julgam que Houellebecq tem o maior desprezo pela raça humana.
É muito difícil ler um livro que praticamente nos diz que a vida a partir dos 50 anos não é vida digna. Para quem é jovem, acaba por matar quaisquer perspectivas para o futuro. Para quem já tem essa idade, suponho que obriga a fazer uma introspecção muito dolorosa. Contudo, não encontrei ainda livro que melhor ilustre a condição humana actual, e aquilo para o qual tendemos a evoluir. Pode parecer algo cínico, mas em boa verdade é a realidade que não queremos admitir. O efeito que as pessoas têm sobre nós. Sobretudo o efeito que nós temos sobre nós próprios. Houellebecq não fecha os olhos à realidade dos anos, à decadência do corpo, à perda da tensão sexual juvenil. A nossa psicologia gira toda à volta da ideia de que um dia vamos querer sentir aquilo que já não sentimos. Vivemos tentando atrasar a morte; vivemos tentando prolongar o prazer; vivemos procurando um equilíbrio. E seguimos qualquer fé que nos prometa tudo isto... (não falta nada neste livro, até discussão sobre a religião!)
Não será o livro mais ácido do autor, parece-me. Pareceu-me até bastante sentimental! O amor é um tema muito procurado nas suas páginas. De certa forma, depois de conhecermos os neo-humanos percebemos o quão gloriosos nós somos nas nossas limitações, nas nossas procuras, na nossa esperança. Fora alguns termos que remetem a correntes filosóficas que o leitor pode não conhecer, acho que o livro até se lê bastante bem. Sim, não digo que tenha sido uma surpresa, mas sem dúvida um dos melhores livros que me lembro de pegar, pelo menos nos últimos tempos.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac
"Havia em redor um ar de mistério. O carro rolava numa estrada lamacenta, elevada sobre os pântanos, que aluía de ambos os lados e deixava pender gavinhas. Ultrapassámos uma aparição: um negro com uma camisa branca que caminhava com os braços levantados para um céu de tinta.
Talvez rezasse ou invocasse uma maldição.
Passámos que nem setas a seu lado; voltei-me para olhar através do óculo traseiro e ver os seus olhos brancos."
Voltei, voltei com mais uma grande leitura!
Apesar de uma pequena febre pelo ciclo arturiano, depois de ter lido o pequeno livro "Tristão e Isolda" percebi que talvez fosse perigoso avançar para outro livro extensivo sobre a lenda de Artur e acabar por me cansar.
Avancei portanto para um livro que já tinha há muito tempo guardado na estante e para o qual tinha grandes expectativas.
Quem me acompanha há algum tempo certamente vai-me conhecendo. E mesmo aqueles que estão a chegar agora aqui, facilmente vão conseguir conhecer-me. É impossível não colocar um pouco de nós nas nossas críticas (afinal, não estou aqui a avaliar propriamente a qualidade do livro, estou sim a transmitir aquilo que EU senti durante a leitura) e facilmente descobrimos com que pessoa estamos a lidar quando conhecemos os seus hábitos de leitura e os seus livros preferidos.
Este é um livro impossível de falar sem falar sobre o leitor. O que ao início pode parecer contraditório. Este é um livro muito especial. É um livro autobiográfico. É um livro sem enredo. É um livro que não precisa de um leitor para acontecer. Mas é um livro sobre uma geração, sobre um grupo muito específico de pessoas, e os próprios ideais do leitor vão afectar a sua leitura.
Eu sou uma pessoa muito idealista. Não, não acredito em todos os seres mágicos e que o mundo amanhã pode-se transformar na Terra do Nunca. Gosto, sim, da vida que Kerouac nos apresenta: espíritos livres, sem amanhãs, tentando viver tudo até à exaustão. A ideia de que a vida é o presente, de que não nos devemos retrair mas sim ir sempre em frente. Portanto, as expectativas para este livro eram enormes.
Escrito nos anos 50, conta a experiência do autor (no nome de Sal Paradise) pelas estradas da América, numa aventura sem fim onde o que conta é a viagem e não o destino, acompanhado do seu amigo Dean Moriaty, a personificação perfeita do espontâneo, da aventura, da paixão por tudo que exista, a loucura da vida em pessoa. Juntos conduzem por uma América vibrante, inspirados pelo jazz e o bop, o amor, a bebida e as drogas. O livro inspirou a chamada "Geração Beat", pessoas que rejeitaram a sociedade comum para se dedicarem à pura experimentação, a nível sexual, criativo, pessoal. O grito de liberação e expressão pessoal pelo qual por vezes somos atacados.
São os boémios puros, vistos por alguns como obscenos, imorais, mas no fundo são precisamente pessoas "vencidas" pela vida que procuram um sentido para a sua vida, aparte das limitações que uma vida na sociedade provoca.
Acho curioso lembrarmo-nos de "Revolutionary Road", que se passa exactamente na mesma época. Talvez ambos os livros sejam a mesma história, mas contadas de maneira diferente. No caso de Kerouac, é a perspectiva daqueles que viveram o espírito Beat. No caso de Yates, temos a perspectiva daqueles que acabaram por se deixar prender pela sociedade, impedidos de exteriorizar o seu espírito Beat.
Talvez todos devamos, em determinada altura da nossa vida, ter estas experiências. Enquanto somos jovens sobretudo, talvez devêssemos reservar algum tempo da nossa vida a deixarmo-nos perder, deixarmos que a estrada nos leve e conhecer o mundo como Sal e Dean o conheceram.
Como disse, o livro não tem enredo propriamente. Está dividido em várias partes, cada uma correspondendo a uma viagem que Sal (o próprio autor, narrador na primeira pessoa) realiza, sendo a maioria com Dean a seu lado. O livro é apenas o testemunho de uma experiência, uma grande experiência. O número de personagens com as quais eles se cruzam é enorme, o que foi no meu caso a minha maior dificuldade. Foi-me difícil lembrar das personagens todas. Até mesmo no fim precisei de voltar atrás para me lembrar do impacto de cada personagem nas viagens de Sal e Dean.
Sendo um "testemunho", não está escrito com qualquer pretensão. Certamente alguns vão achar mais fácil de ler do que outros.
Eu adorei. Cheguei ao fim a querer ser um Dean, esse demónio da vida. As noites a suar ao som do saxofone, conduzir por estradas intermináveis, a espontaneidade, é um sonho.
Infelizmente, o sonho de "Pela Estrada Fora" pertence ao passado. Quem é que hoje em dia seria capaz de andar à boleia por um continente inteiro? Como seria possível sobreviver sem dinheiro no bolso? O tipo de vida mudou, a sociedade mudou. Há tantos hábitos, tantas situações, que actualmente são impraticáveis.
E, já agora, quem não é da América convém ter um atlas ao lado.
Talvez rezasse ou invocasse uma maldição.
Passámos que nem setas a seu lado; voltei-me para olhar através do óculo traseiro e ver os seus olhos brancos."
Voltei, voltei com mais uma grande leitura!
Apesar de uma pequena febre pelo ciclo arturiano, depois de ter lido o pequeno livro "Tristão e Isolda" percebi que talvez fosse perigoso avançar para outro livro extensivo sobre a lenda de Artur e acabar por me cansar.
Avancei portanto para um livro que já tinha há muito tempo guardado na estante e para o qual tinha grandes expectativas.
Quem me acompanha há algum tempo certamente vai-me conhecendo. E mesmo aqueles que estão a chegar agora aqui, facilmente vão conseguir conhecer-me. É impossível não colocar um pouco de nós nas nossas críticas (afinal, não estou aqui a avaliar propriamente a qualidade do livro, estou sim a transmitir aquilo que EU senti durante a leitura) e facilmente descobrimos com que pessoa estamos a lidar quando conhecemos os seus hábitos de leitura e os seus livros preferidos.
Este é um livro impossível de falar sem falar sobre o leitor. O que ao início pode parecer contraditório. Este é um livro muito especial. É um livro autobiográfico. É um livro sem enredo. É um livro que não precisa de um leitor para acontecer. Mas é um livro sobre uma geração, sobre um grupo muito específico de pessoas, e os próprios ideais do leitor vão afectar a sua leitura.
Eu sou uma pessoa muito idealista. Não, não acredito em todos os seres mágicos e que o mundo amanhã pode-se transformar na Terra do Nunca. Gosto, sim, da vida que Kerouac nos apresenta: espíritos livres, sem amanhãs, tentando viver tudo até à exaustão. A ideia de que a vida é o presente, de que não nos devemos retrair mas sim ir sempre em frente. Portanto, as expectativas para este livro eram enormes.
Escrito nos anos 50, conta a experiência do autor (no nome de Sal Paradise) pelas estradas da América, numa aventura sem fim onde o que conta é a viagem e não o destino, acompanhado do seu amigo Dean Moriaty, a personificação perfeita do espontâneo, da aventura, da paixão por tudo que exista, a loucura da vida em pessoa. Juntos conduzem por uma América vibrante, inspirados pelo jazz e o bop, o amor, a bebida e as drogas. O livro inspirou a chamada "Geração Beat", pessoas que rejeitaram a sociedade comum para se dedicarem à pura experimentação, a nível sexual, criativo, pessoal. O grito de liberação e expressão pessoal pelo qual por vezes somos atacados.
São os boémios puros, vistos por alguns como obscenos, imorais, mas no fundo são precisamente pessoas "vencidas" pela vida que procuram um sentido para a sua vida, aparte das limitações que uma vida na sociedade provoca.
Acho curioso lembrarmo-nos de "Revolutionary Road", que se passa exactamente na mesma época. Talvez ambos os livros sejam a mesma história, mas contadas de maneira diferente. No caso de Kerouac, é a perspectiva daqueles que viveram o espírito Beat. No caso de Yates, temos a perspectiva daqueles que acabaram por se deixar prender pela sociedade, impedidos de exteriorizar o seu espírito Beat.
Talvez todos devamos, em determinada altura da nossa vida, ter estas experiências. Enquanto somos jovens sobretudo, talvez devêssemos reservar algum tempo da nossa vida a deixarmo-nos perder, deixarmos que a estrada nos leve e conhecer o mundo como Sal e Dean o conheceram.
Como disse, o livro não tem enredo propriamente. Está dividido em várias partes, cada uma correspondendo a uma viagem que Sal (o próprio autor, narrador na primeira pessoa) realiza, sendo a maioria com Dean a seu lado. O livro é apenas o testemunho de uma experiência, uma grande experiência. O número de personagens com as quais eles se cruzam é enorme, o que foi no meu caso a minha maior dificuldade. Foi-me difícil lembrar das personagens todas. Até mesmo no fim precisei de voltar atrás para me lembrar do impacto de cada personagem nas viagens de Sal e Dean.
Sendo um "testemunho", não está escrito com qualquer pretensão. Certamente alguns vão achar mais fácil de ler do que outros.
Eu adorei. Cheguei ao fim a querer ser um Dean, esse demónio da vida. As noites a suar ao som do saxofone, conduzir por estradas intermináveis, a espontaneidade, é um sonho.
Infelizmente, o sonho de "Pela Estrada Fora" pertence ao passado. Quem é que hoje em dia seria capaz de andar à boleia por um continente inteiro? Como seria possível sobreviver sem dinheiro no bolso? O tipo de vida mudou, a sociedade mudou. Há tantos hábitos, tantas situações, que actualmente são impraticáveis.
E, já agora, quem não é da América convém ter um atlas ao lado.
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