sábado, 21 de janeiro de 2012

Revolutionary Road, de Richard Yates



Corre o Verão de 1955 e Frank e April Wheeler vivem com um cinismo distanciado o que para muitos dos seus contemporâneos representa o sonho americano: uma ampla vivenda nos subúrbios, duas crianças louras e risonhas, uns vizinhos simpáticos e, para Frank, um emprego em Manhattan bem pago e sem responsabilidades. No entanto, o abismo entre o que pensam das suas vidas e a forma como em realidade as vivem acabará por tornar o seu quotidiano insuportável. Quando April concebe um plano que lhes permitirá finalmente sair da situação em que se encontram, as tensões entre o comodismo e a necessidade de mudança provocarão uma crise mais grave do que poderiam ter imaginado.

Richard Yates nasceu em Yonkers (Nova Iorque) em 1926. Lutou no exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial. Ao regressar aos EUA trabalhou como jornalista. Revolutionary Road (1961), o seu primeiro romance foi finalista do National Book Award de 1962. Posteriormente, dedicou-se a ensinar em ateliers literários de diferentes universidades. A sua obra, que questiona o tão publicitado modo de vida americano da chamada "era da ansiedade", foi aclamada pela crítica, mas só gozou do êxito popular após a sua morte em 1992. Entre os seus restantes romances destaca-se Desfile de Páscoa.


Trata-se do último livro que li em 2011 e é complicado dizer se fechou bem ou mal o ano. Por um lado, é sem dúvida dos livros de melhor qualidade que li durante o ano; por outro, os temas que aborda e a maneira como os confronta não são, de todo, apropriados ao espírito esperançoso do novo ano.

Frank e April parecem um casal dos subúrbios absolutamente vulgar, com uma bela casa na idílica Revolutionary Road, dois filhos, ele um empregado de escritório com um emprego estável e ela uma dona de casa. Tudo aparências. Todo o livro é um confronto de aparências com verdade, de idealismos com realidade, de frustrações com sucessos. 
Na verdade, Frank é um idealista, ansioso por explorar o mundo e ser diferente, mas no fundo hipócrita pois tenta ser o "homem da casa", um estereótipo muito na moda na altura e que para ele define a sua masculinidade, com uma esposa obediente e contenta-se sendo apenas mais bem sucedido do que o pai. April é uma mulher absolutamente frustrada, das mais interessantes do livro simplesmente porque nunca chegamos a perceber muito bem o que tem aquela mulher, que tanto se resigna como explode de fúria como sorri para a vida. O amor que ambos têm pelos filhos não é, de todo, o amor que se esperava. Frank considera ter o emprego mais chato do mundo e muito pouco faz. Revolutionary Road é um bairro de aparências, mas ao entrar naquela casa assistimos a uma confusão formidável.

Não se pode dizer que haja uma história no livro. Há apenas personagens. Não só os Wheelers mas também os seus vizinhos e seus amigos. Yates apresenta-no-los ao pormenor, fazendo-nos viver o que eles vivem, a sua vida resignada. Até ao dia em que o casal decide retomar os seus sonhos juvenis e revolucionar a sua vida... Mas tal será bem mais difícil do que eles pensam e poderá ser tarde de mais.

Apesar de ter adorado o livro como um todo, destacando a mestria do escritor, não simpatizei com as personagens. Não vejo como tal é possível. Acho que quando os descrevi mostrei o quão irritado fiquei com a frustração e hipocrisia que eram as suas vidas. Não quero desenvolver muito esta conversa, para que vocês possam ter a oportunidade de conhecê-los também, mas não consegui de todo gostar da sua atitude.
Ainda assim, não deixa de ser impressionante a viagem que Yates nos oferece na vida destas pessoas. Não gostei das personagens em si, mas gostei muito de tê-las conhecido, de ter percorrido as páginas do livro e explorá-las tão exaustivamente.

Infelizmente, não é um livro feliz do início ao fim. Nunca o é. Não só porque, obviamente, as personagens são demasiado frustradas para o permitirem. Talvez a conclusão seja simples: vivemos à base de aparências. Somos todos vítimas de uma sociedade que nos diz aquilo que nos faz felizes. Mesmo quando somos bem sucedidos numa carreira, somos felizes porque a sociedade nos diz que isso é motivo para o ser. Por muito forte que seja o nosso desejo de romper este hábito, de ser "livre", por vezes é demasiado tarde ou simplesmente não conseguimos porque não vivemos isolados do mundo. E quando nos apercebemos disso entramos em choque, acabando na tragédia que é todo este livro.

Para além do drama intenso do livro, não posso aconselhá-lo a quem procure mais do que ler. Só o posso aconselhar a quem gosta de ler, independentemente do tipo de história que vai encontrar ou do tipo de personagens. Mas é sem dúvida merecedor de um lugar nas nossas melhores estantes.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Balanço 2011

2011 foi um voo atribulado. Muita coisa se tem passado e o meu rating de leituras baixou consideravelmente. Confesso que pus os livros de lado. Continuo a amá-los como a melhores amigos, mas deixei de ser um leitor activo como já fui. Aliás, quantos livros li este ano? Segundo o blogue... 17 livros. Parece-me ridículo, portanto, fazer um Top. Não foi sequer um ano em que tenha lido grandes livros (2010 foi um ano muuuuuuuuuuuuito melhor).

Realço:

- Sentença de Morte, de Val McDermid: um policial estrondoso, uma leitura inesperada que me captou absolutamente a atenção e que aconselho vivamente a qualquer leitor. Acredito que, mesmo que este ano tivesse lido muitos bons livros, este continuaria a destacar-se;
- Dead to the World, de Charlaine Harris: o melhor livro de 2011. Desde o primeiro livro que esta série é cada vez melhor e neste quarto livro atinge o seu auge, com das melhores personagens que alguma vez encontrei, enredos originais, muita emoção, muito mistério, de cortar a respiração e pedir por mais. A autora ainda não conseguiu atingir, para mim, o que atingiu com este livro;
- Dead Until Dark, Living Dead in Dallas e Club Dead, de Charlaine Harris: os três livros que antecedem o que referi acima. A construção de uma história fantástica, a descoberta de personagens fascinantes e a preparação para uma grande série, mais uma vez com o culminar no quarto livro. Porém, bastaram estes três primeiros para me deixarem fã da série;
- O Barbeiro, o Chef e o Artista, de Ceridwen Dovey: se este ano tivesse sido mais forte em leituras, de certeza que não destacava este livro. Mas não foi, e Dovey revelou-se a minha escritora-revelação do ano.  Não apenas um enredo que se mostra bem pensado mas sobretudo uma escrita que tem muito para dar.
- Revolutionary Road, de Richard Yates: ainda não escrevi a minha opinião, mas posso já dizer que é um livro digno de ser lido. Se não se importam de ler um livro mais preocupado a andar por cima das suas personagens do que a contar uma história, este é o livro. Gostei bastante da maneira como os intervenientes são apresentados, alguns deles explorados até ao seu fundo. Não são, contudo, personagens pelas quais nos apaixonemos, muito pelo contrário (há demasiada frustração e tragédia nas suas cabeças para conseguirmos gostar deles).

O prémio de Maior Desilusão do Ano vai para No Reino de Glome, de C. S. Lewis. Está longe do imaginário criado em Nárnia, essa sim uma verdadeira obra-prima. Infelizmente, é uma leitura dispensável.

É isto. A todos desejo um feliz 2012 e que os livros continuem a ser os vossos melhores amigos. Infelizmente, prevejo mais um ano em que as leituras vão ser muito poucas (talvez menos ainda do que 2011), mas continuarei por cá. Boas leituras!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Outliers, de Malcolm Gladwell

Neste seu espantoso novo livro, Malcolm Gladwell empreende uma viagem intelectual pelo mundo dos Outliers - os melhores e mais inteligentes, os mais famosos e mais bem sucedidos. O autor coloca a questão: o que torna estas pessoas diferentes? A resposta que oferece é que damos demasiada atenção ao modo de ser dos bem sucedidos e ligamos pouco à sua proveniência, isto é, à sua cultura, família, geração e experiências idiossincráticas da sua educação.
E, no desenvolvimento desta «tese», Gladwell ainda nos revela os segredos dos milionários do
software, explica-nos porque os asiáticos são bons a matemática, o que é preciso para se ser um bom jogador de futebol e diz-nos ainda o que fez dos Beatles a maior banda de rock.

Este livro foi na verdade sugerido por um professor universitário. Não sei bem em que sentido, mas depois de ler o livro sei que só pode ter sido de duas formas: ou nos quis dar uma lição de que o sucesso que atingimos na vida é grande parte devido a "coincidências" que nos são alheias; ou nos quis humildemente abrir a mente para uma nova forma de encarar o sucesso que podemos vir a alcançar na nossa vida futura.

Creio que hoje em dia é cada vez mais fácil termos perspectivas muito diferentes em relação às pessoas e a tudo aquilo que constitui a vida. Num mundo globalizado, "regulado" pela Internet, toda a gente está próxima de todos e, sobretudo, de todo o tipo de ideias e visões do mundo. Portanto, o que vamos encontrar neste livro não será novidade para alguns. Não foi para mim. Mas ver a sua perspectiva reunida num só livro, com dignos exemplos a acompanhar, faz dele uma leitura interessantíssima e que recomendo vivamente.

O que faz uma pessoa ter sucesso? A sua inteligência? A sua capacidade inata para qualquer coisa? Também certamente, mas este livro sugere uma verdade mais complexa e desagradável para alguns: a sociedade é responsável pelo sucesso de cada um. Será isso novidade? Parece-me bastante óbvio que uma criança inteligente num meio rico terá muitas mais probabilidades de ganhar o prémio Nobel do que uma criança inteligente num meio pobre (ainda mais hoje com tantos problemas financeiros, quem consegue pagar propinas e tudo o que uma faculdade pede?).
Mas Gladwell vai ainda mais longe: o dia em que a pessoa nasce pode determinar o seu sucesso. Não só o local, mas também a data, o ano, a época. Não, não se trata de astrologia (como eu também pensava ao início), mas mais uma vez devido a um fenómeno social aparentemente simples (que, na verdade, vai de encontro à minha filosofia e maneira de ver a vida: não acreditando em coincidências).

Vários são os capítulos e cada um analisa o sucesso individual, justificando-o por um fenómeno social. Desde a família à data de nascimento, passando hábitos diários e a famosa regra das 10 000 horas. Tudo isso defendido por uma série de exemplos, alguns bastante famosos como The Beatles, Steve Jobs, Bill Gates ou Oppenheimer. Escrito da forma mais acessível ao mais comum dos leitores, é uma leitura no mínimo curiosa e que não desilude. E como já disse, em geral vai ao encontro da minha maneira como eu vejo o mundo, pelo que foi bom ver os meus pensamentos aqui reflectidos.

Peguem neste livro e leiam sobre ele. É muito interessante pegar neste livro, escrito para a pessoa comum, e ir depois pensar nele como uma análise de um fenómeno social bastante complexo (na verdade, algumas críticas apontaram precisamente a simplificação desse fenómeno). E não digo que nos faça mudar a maneira de ver o mundo (fá-lo-á a alguns), mas sem dúvida faz-nos pensar um pouco mais para além da pessoa que temos à nossa frente.

Quem também lê