terça-feira, 11 de setembro de 2018

Anna Karenina, de Leão Tolstoi

Se nunca ouviu falar de Anna Karenina... Provavelmente nem sequer está a ler isto. Qualquer leitor que tenha a pretensão de se caracterizar como leitor conhece este enorme clássico, considerado por muitas publicações um dos melhores livros alguma vez escritos (ou mesmo o melhor). Quis perceber porquê, e se concordo.

A minha primeira incursão na Literatura Russa foi com os contos de Gogol, há muitos anos, e adorei (repito, a-d-o-r-e-i). Um Gentleman em Moscovo, que li no início do Verão, apesar de escrito por um americano voltou a despertar a vontade de conhecer mais sobre autores russos, para além de me ter ajudado com alguns conhecimentos básicos sobre a sociedade russa da época. Finalmente, este Verão quis enriquecer um pouco a minha cultura literária lendo mais clássicos (confesso que é raro pegar num). Anna Karenina, há tanto tempo na lista de espera (numa edição de capa dura da Círculo de Leitores, daquelas que os meus pais recebiam em casa e que hoje enfeitam as estantes), foi assim o meu escolhido.



O livro é a história de um triângulo amoroso na alta sociedade russa entre uma mulher, o seu marido e o seu amante. Mas não só. É também a história de um homem em conflito com a sua própria existência e a sociedade à sua volta. É a história de duas cidades, e do campo. É a história de uma mulher em busca do seu papel. E são ainda muitas outras pequenas histórias, abraçando toda a sociedade russa da época e apresentando dezenas de diferentes pessoas, de diferentes mentalidades. Anna Karenina é muito mais do que Anna Karenina. Aliás, Anna Karenina é provavelmente uma das personagens com menos tempo de antena (é a sua influência na vida dos outros a verdadeira protagonista).


É, provavelmente, o livro com as melhores personagens de sempre: Tolstoi expõe os seus pensamentos, as suas motivações, o seu estado de alma, de tal forma complexa, e conflituosa, que é aqui que o seu verdadeiro génio reside. As suas personagens vivem, como se elas próprias tivessem escrito o livro, tal é a forma com que as suas essências são expostas. Creio ser muito difícil encontrar o mesmo exemplo noutros livros.

Ora, o que provavelmente desencanta alguns leitores é que, na verdade, nenhuma das suas dezenas de personagens é particularmente simpática. Por duas razões: por um lado, a sua caracterização é tão completa que também os seus defeitos e manias são expostos, tornando as personagens... Realistas demais. A verdade é que nós humanos raramente somos as melhores pessoas que andam por aí.
Segundo, o livro não é apenas uma história passada na sociedade russa da época, é uma crítica a essa sociedade, e como tal toda a caracterização das personagens encaixa nessa crítica. Basicamente, em todos somos capazes de encontrar alguma forma de hipocrisia, todas as diferentes formas de ver o mundo são satirizadas, apesar de o ser muitas vezes de forma bastante subtil. O livro critica, expõe a hipocrisia da sociedade, revela todos os seus vícios, mas não é uma sátira. E aqui entra a genialidade da escrita de Tolstói, mestre literário que dá voz a essa crítica mantendo-se sempre num tom muito muito realista.

Pelo que, apesar de brilhantemente escrita, apesar da complexidade dos seus protagonistas, das inúmeras reflexões políticas, filosóficas, religiosas e existenciais, na verdade foi-me difícil torcer verdadeiramente por quem quer que seja... Os conflitos são muitos, mas não me senti particularmente ansioso por eles. E isso torna toda a leitura muito menos entusiasmante do que talvez esperamos.

E quando o autor se põe com exortações políticas (num estilo de escrita que claramente não foi feito para quem nada percebe sobre a política russa da época), a leitura torna-se um pouco mais aborrecida. Aliás, as divagações são imensas (uma coisa de qualquer forma bastante vulgar nos grandes clássicos de época), apesar das filosóficas serem muitas vezes repetitivas.

Ainda assim, apesar de extenso, o livro lê-se muito bem, sobretudo porque os capítulos são tão pequenos (acabamos por querer sempre "ler mais um"). Por isso, não se assustem com o tamanho. Não vão encontrar descrições extenuantes, mas sim muitas divagações por parte das suas personagens. Aliás, fiquei surpreendido em ter demorado menos de um mês a ler o livro.


Para mim, este não é o melhor livro de sempre. Aliás, reflectindo sobre o assunto, considero Os Maias, de Eça de Queiróz, um livro ainda superior, com personagens igualmente interessantes (ainda que não sejam exploradas de forma tão complexa) mas com uma história ainda mais envolvente, também atento à situação da época (ainda que não tão transversal a todas as classes da sociedade), e uma escrita ainda mais cuidada, já que não encontrei em Tolstói descrições tão brilhantes quanto as do nosso Eça. Por isso, para mim, o melhor livro de sempre é português.


O livro é, de facto, genial, sobretudo na construção das suas personagens. Acredito mesmo que é até hoje impossível encontrar igual na Literatura Mundial. Mas, genialidade e complexidade à parte, não é envolvente, e a falta de empatia com as personagens não ajuda a tornar esta a melhor leitura de sempre. O melhor livro, talvez, mas a minha melhor leitura não.

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