quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

O Rei que Foi e Um Dia Será, de T. H. White

Esta é a obra-prima da literatura que reconta o mito arturiano e que foi adaptada ao cinema por Walt Disney.
A história decorre no país encantado de Gramary, a Inglaterra feudal de domínio normando, e segue a lenda do rei Artur, dos cavaleiros da Távola Redonda, da demanda do Santo Graal e da mística espada Excalibur.
É considerada pelos especialistas a obra que veio modernizar o mito do rei Artur e renovar o interesse do público por este tema.

«Um sonho glorioso da idade média como ela deveria ter sido.» —
New York Times

«T. H. White é mais um contador de bons enredos; a sua prosa dá tanto prazer como o tema. Consegue desenhar-nos pessoas vivas; é capas de descrever uma paisagem; consegue penetrar nos mais íntimos pensamentos de pássaros e outros animais. Esta obra ambiciosa permanecerá por muito tempo como o monumento a um autor que é simultâneamente erudito, espirituoso e humano.» — Times Literary Supplement


A trágica lenda de Rei Artur! Quem não a conhece? A magia e Merlin, Excalibur, Lancelot e Guinever, a mítica Avalon, a demanda do Graal, a Távola Redonda! Todos nós já ouvimos pelo menos uma destas histórias, todas dentro do grande universo arturiano. Talvez tenham acontecido, talvez não, talvez tenham acontecido num mundo mágico, diferente do nosso. De qualquer forma, parece ter deixado a sua marca na História (e, depois de ter lido este livro, parece que muitos pilares da nossa sociedade cresceram dos ideais do Rei Artur! Resta saber portanto: existiu de facto ou foi um herói que o mundo criou para a ele atribuir as suas bases?).

Talvez o livro não seja muito conhecido pelos portugueses, mas o filme "A Espada Era A Lei" é um clássico da Disney certamente conhecido por muitos. Uma adaptação ao cinema muito fiel à primeira parte desta grande obra, contando a infância de Artur, antes de ser rei, antes sequer de conhecer Inglaterra ou quem ele era.
É um livro extenso, que percorre uma vida inteira. Sabe a isso: chegamos ao fim com a impressão de que percorremos de facto uma vida inteira. Desde um Artur jovem, curioso, muito sonhador, até um homem velho, angustiado, perguntando-se a si próprio o que fez de errado e procurando uma solução para o Mundo. Emocionei-me bastante. Foi uma aventura muito grande, cheia de peripécias, cuja conclusão nos deixa um pesar no coração e uma sensação de grandeza.

Adorei. Por vezes, quando lemos pouco, cada livro que pegamos parece muito bom, parece diferente. Mas este é genuinamente espectacular. A história é belíssima, a escrita de mestre (ainda que de início não me tenha agradado o tom juvenil), as personagens únicas. Uma obra que moderniza, sem dúvida, a lenda de Artur, fazendo referências a uma época contemporânea (talvez demasiadas). O livro surgiu depois da Segunda Guerra Mundial e é curioso notar que muitas das ideias do Rei Artur são a base de comunidades que surgiram nessa altura, como a CEE. Não li o livro com o intuito de pensar nessa vertente, estive mais preocupado em conhecer as suas personagens, mas com uma releitura, ou mesmo lembrando-me do livro, facilmente chegamos lá.

A primeira parte, "A Espada na Pedra", muito sui generis, parece dirigida a um leitor bastante juvenil, o que se adequa à própria idade de Artur. Foi a minha primeira preocupação: que o tipo de linguagem de White não mudasse ao longo do livro. Com um Merlin que sabe o futuro e uma escrita juvenil, White toma a liberdade de escrever como se tudo se passasse nos tempos de hoje, o que acaba por ser frustrante. Felizmente, mudou. À medida que Artur cresce, a própria escrita se torna menos infantil, adequando-se à maturidade das personagens e dos próprios acontecimentos.
Artur é apenas um moço num castelo, recebendo uma educação para no futuro se tornar um escudeiro (ainda que o seu sonho seja ser cavaleiro). Um dia cruza-se com Merlin, um mago muito inteligente e um pouco desastrado, que passa a ser o seu tutor. E como são essas aulas? Ser transformado em vários animais e viver entre eles, apreendendo os seus hábitos e maneiras de pensar. É ao longo do livro que vamos perceber como este tipo de educação é tão essencial, tão determinante, para Artur ser um grande rei, uma grande pessoa e um grande pensador. Muito divertido, por vezes terno, como a infância deve ser.

É preciso destacar aqui o grande ponto forte de todo a obra: as suas personagens. Merlin, descrito de uma forma extraordinária como uma pessoa que vive "de trás para a frente" (daí que ele conheça o futuro); Lancelot, um cavaleiro feio; até Guinevere, que se revela uma mulher bastante histérica (talvez este livro não favoreça muito a imagem feminina...). IMPORTANTE: "O Rei que Foi e Um Dia Será" não gira à volta da lenda de Artur, mas sim das suas personagens. Esta é apenas uma introdução ao grande universo arturiano. O que aqui conhecemos é as suas personagens, habilmente trabalhadas por White, não a lenda de Artur. É isso que faz do livro uma obra tão única. Para conhecer a história de Artur, White refere-se imensas vezes à obra de Malory, "A Morte de Artur".

 A segunda parte, "A Rainha do Ar e das Trevas", apresenta Morgause, meia-irmã de Artur, e os seus filhos, futuros cavaleiros da Távola Redonda. Apesar de passar despercebido, é uma parte essencial pois é aqui que nasce a ideia da Távola Redonda; vemos um Artur mais crescido, determinado a aplicar os seus ideais de infância na vida real. Talvez seja o verdadeiro início da tragédia (não me alongo aqui pois envolve várias ideias reservadas ao desenvolvimento do livro).

Todo o livro se passa na terra mágica de Gramarye. Será, em princípio, a Inglaterra medieval, mas por ser tão mágica, por ser tão diferente, custa a crer que faz parte do mundo real. Talvez porque Artur pode nunca ter sido real. Talvez porque foi na época de Artur que o nosso mundo passou de um mundo mágico para um mundo actual.
O grande ponto negativo da obra, e pelo qual não podemos considerar este livro mais do que uma introdução à lenda de Artur, é a localização história. De acordo com o livro, Artur terá vivido no séc. XIV, quando historicamente viveu no séc. VI. É absolutamente desconcertante, e a única coisa que de certa forma me desiludiu. T. H. White acaba por justificar esta deslocação histórica no fim, mas ainda assim não o consigo perdoar por meter Artur e Robin dos Bosques juntos.

A terceira parte, "O Cavaleiro Feio", é praticamente toda sobre Sir Lancelot. Um cavaleiro feio, mas considerado o melhor do mundo, que se apaixona tanto pelo rei (o seu ídolo) como por Guinevere. Esta parte é tipicamente romance medieval: cavaleiros, aventuras, torneios, damas, castelos, é o romance medieval por excelência ao longo de toda a obra. Inclui também a história da procura do Graal, mais uma oportunidade para conhecer os diferentes cavaleiros da Távola Redonda (não se esqueçam, este livro é sobre as suas personagens, não sobre a demanda do Graal em si!).

Finalmente, "A Candeia ao Vento" termina este tão grande livro, e da melhor maneira. O próprio título sugere uma metáfora. É o auge da tragédia, com Mordred, filho ilegítimo de Rei Artur, tentando deitar o pai abaixo; Artur, Lancelot e Guinevere, amigos íntimos, não conseguem escapar à tragédia em que o triângulo amoroso tinha de acabar. Não é um livro muito alegre e é talvez o meu reflectivo. Para além dos acontecimentos revoltantes, tem uma das conclusões mais espectaculares que já li: uma reflexão do Rei Artur, sozinho na sua tenda, velho, cansado, sobre a sua vida, sobre as suas ideias e porque é que falharam. Uma reflexão sobre o Mundo e sobre os Homens. Parece que o tempo em que ele se transformava em animais está muito, muito longe. Mas apesar de tudo, as últimas palavras são as de um "coração tranquilo", e concluimos que ou White escreveu de propósito, ou Rei Artur reuniu de facto todas as ideias nas quais o mundo moderno assenta, fazendo dele a maior lenda de todos os tempos.

Depois de tantas aventuras, tantas personagens tão diferentes e únicas, chegamos ao fim capazes de sentir um aperto no coração por acabar o livro. White tem um dom para escrever, transportando-nos para sítios magníficos. Não é de todo o livro definitivo da lenda do Rei Artur, mas é um dos melhores por ser tão único. Acaba por torná-lo uma lenda moderna, viva. Mal posso esperar por continuar a minha demanda pelo ciclo arturiano e todos os livros sobre ele! (White refere-se constantemente à obra de Malory, pelo que será o próximo)

sábado, 11 de fevereiro de 2012

A Saga de um Pensador, de Augusto Cury

Neste seu primeiro romance, o psiquiatra Augusto Cury narra a trajectória de Marco Polo – não o navegador e aventureiro veneziano do século XIII, mas um jovem que embarca na grande aventura que é a vida. 

Marco Polo é um estudante de Medicina, um espírito livre cheio de sonhos e expectativas. Ao entrar para a faculdade, é confrontado com uma dura realidade: a da insensibilidade e frieza dos seus professores, que não percebem que cada paciente é, mais do que um conjunto de sintomas, um ser humano com uma história complexa e única de perdas e desilusões. Indignado, o jovem desafia profissionais de renome internacional para provar que os pacientes com perturbações psíquicas precisam de mais que remédios e diálogo – precisam de ser tratados como pessoas, como iguais. Numa luta constante contra a discriminação, Marco Polo vai provocando uma verdadeira revolução de mentalidades...



Há já algum tempo que procurava este livro. Finalmente comprei-o por uma pechincha na Feira do Livro (num alfarrabista. Não, eles não têm só livros do século passado, têm até livros bastante recentes, alguns usados mas em excelente estado, e mais baratos!! - promoção gratuita a esses livreiros preciosos a quem chamamos alfarrabistas e que, infelizmente, são bastante desprezados pelo público, esmagados pelas grandes lojas e deitados à rua por uma crise econóica).
Creio que desde que saiu (2005) que tenho vindo a ler um pouco por aí sobre este livro e criei as minhas expectativas. O título é muito apelativo (sobretudo quando eu próprio me considero um pensador) e as críticas parecem dizer maravilhas do livro.

Marco Polo é um estudante de Medicina invulgar: prefere olhar para as pessoas do que para a Anatomia. Um verdadeiro estranho numa sala onde não importa onde a mão tocou, mas sim quais os músculos e tendões que a fazem mover. Ao tentar conhecer essas pessoas que já o foram, abafadas pelas lições do professor sobre acidentes anatómicos, ossos e ossinhos e vasos e movimentos articulares, acaba por travar amizade com um sem-abrigo, que se revela um autêntico génio, um filósofo da vida.
E este é o princípio do livro. Só o princípio, pois trata-se de facto de uma saga, acompanhando Marco a partir da faculdade até muitos, muitos anos depois.

Infelizmente, não me encheu as medidas, como esperava. E o que esperava eu? Uma profunda reflexão filosófica, sim, que discutisse a Psiquiatria e a Psicologia, a diferença entre ser Médico, ser Doente e ser Pessoa, uma visão humana sobre a vida e a Medicina e a forma como nos damos uns com os outros e com nós próprios neste mundo, sobretudo na sociedade dos tempos de hoje (o livro foi escrito em 2005, relativamente recente). No entanto, o que li não foi, para mim, um olhar actualizado. Teria muito mais consideração pelo livro se tivesse sido escrito há umas décadas atrás, quando obras como Voando Sobre um Ninho de Cucos de facto quiseram mudar a forma como a psiquiatria era encarada.

Parece-me que o escritor se baseou num apanhado de estereótipos no mundo psiquiátrico (o doente maluco, o médico técnico, até o sem-abrigo inculto), reunindo assim uma história que tenta emocionar qualquer um. Engana os leitores a pensarem que estão perante uma voz única num mundo onde a Medicina não foi ainda humanizada, quando essa realidade há muito tem sido combatida. O tempo dos doentes psiquiátricos que eram tratados como menos do que pessoas, das instituições de saúde vistas como prisões de malucos, há muito que foi questionado.

Com o passar da leitura fui-me deixando embrenhar nas simpáticas personagens, e confesso que me fez pensar e ganhar muita perspectiva. Conseguiu-me fazer sentir a vida da forma que tenta pregar. Mas, por muito que o livro discuta um bom tema (e o tema é interessante), por muito grande que seja a dose filosófica e "life changing" presente (que eu gosto, mas que para mim neste caso não é original, ou única), por muito que me tenha agradado o fim, não consigo deixar de olhar friamente para o livro.
De facto, temos muitas situações de médicos que não vêm a "pessoa" mas sim o "doente"; um profissional de saúde receita um medicamento e esquece-se de conhecer o contexto social, familiar, cultural do paciente; as empresas farmacêuticas que fazem de tudo para vender fármacos e a sua estratégia tem mais a ver com lucro e menos com saúde. Mas não vivemos em meados do séc. XX. No séc. XXI dá-se muita preocupação à formação do médico não apenas como técnico de saúde. Há uma preocupação na relação médico-doente e na comunicação. A medicina cada vez mais é feita "para" a pessoa, "pela" pessoa e "com" a pessoa. Eu compreendo que muitos leitores respeitam o livro por querer ser humano, querer quebrar as regras de um mundo capitalista e impessoal, e sejamos francos por ser bastante lamechas como gostam de ler. Mas o que Augusto Cury fez ao publicar esta história foi perpetuar um estereótipo do acto médico que já tem sido combatido. Encontra-se absolutamente fora do tempo, é no fim de contas uma obra pretensiosa.

A escrita consegue ser lindíssima e muito, muito poética. Mas o autor (também ele médico) expressa as suas personagens numa linguagem tão poética, tão florida, que muito rapidamente parece algo artificial.
O enredo é um pouco forçado, com pouca consideração (mais uma vez) pela realidade presente (demasiadas coincidências, demasiados clichés), mas suponho que foi o necessário para que conseguisse transmitir os seus pontos.

Honestamente, gostava muito mais de ter lido não-ficção de Augusto Cury. Talvez nesse caso admirasse de facto o trabalho feito. Como ficção, acaba por cair numa certa artificialidade e estereótipos desactualizados. Não quero dizer que certas situações não sejam bem apontadas, mas no geral é uma história bastante exagerada.
Enfim, Augusto Cury é um escritor brasileiro e não é o primeiro que tenta vender estas ideias bonitas de como viver a vida e ser feliz (o público come de facto essas lamechices, e os brasileiros têm jeito para isso).

Apesar de tudo, não deixou de mudar um pouco a minha visão do mundo. Quando pomos o livro de lado, é impossível não olhar para além do material, para além de toda a sociedade onde nos inserimos. Sim, o livro marcou-me! Os ideais que transmite corresponderam às minhas próprias ideias! Mas como literatura de ficção deixou bastante a desejar.



Quem também lê