"Um dos meus escritores favoritos."
Gabriel García Márquez
Servidão Humana é um dos romances mais emblemáticos do século XX e a obra-prima de Somerset Maugham. Esta narrativa clássica de entrada na idade adulta conta a história de Philip Carey, alter ego do autor na sua juventude, dividido entre o fervor religioso da família e o desejo de liberdade que os livros e os estudos lhe dão a conhecer. Na sua ânsia por independência e aventura, Philip sai de casa em busca de uma carreira como artista em Paris. Mas os seus planos vão ser postos em causa quando se apaixona perdidamente pela mulher que mudará a sua vida para sempre.
Relato inigualável sobre o poder do desejo e da sede de liberdade do homem moderno, Servidão Humana coloca-nos friamente perante a nossa própria visão da vida, as nossas dúvidas e o poder transformador das decisões.
Antes de mais, nos próximos 15 dias este Bookaholic vai estar a apreciar umas férias merecidas, algures num canto deste mundo (e, claro, em vários cantos de todos os mundos literários possíveis).
Mas, antes de me ir, fiz o esforço para acabar o livro "Servidão Humana", e agora escrevo a minha crítica.
Depois de ler Paixão em Florença, estava certo de que tinha de ler mais de Somerset Maugham. Depois de ler "Servidão Humana", está certo que lerei toda a sua obra, se possível.
Este foi provavelmente o livro que mais expectativas acumulei nos últimos tempos, não só porque já tinha adorado o autor (e, posso dizer, não o esperava) mas também pela história e pela maravilhosa edição da Asa.
Preferia ter pegado primeiro em "O Fio da Navalha", do mesmo autor, mas acontece que mal vi este livro na livraria tive de o trazer. É uma edição espectacular, e se a colecção se chama "Vintage" o livro faz-lhe jus. Não posso deixar de realçar a maravilhosa capa com Bette Davis (que participou no filme homónino), em toda a beleza estética do livro. O único ponto negativo é a capa mole, que com muito receio esperei que se desfiasse e se soltasse.
Depois de alguns meses na estante (não foram muitos ainda assim), não consegui adiantar mais a leitura.
Não acho que possa dizer que esperava encontrar o que ele me proporcionou. Primeiro, a pequena sinopse da contracapa não é, de todo, o que nos é apresentado. O livro é um épico que percorre a Alemanha, Paris, e finalmente Londres, e aí sim decorre a maior parte do romance. Não vou esconder que tive saudades dos ares românticos de Paris... Mas, bolas, eu vou ter saudades de tudo deste livro!
Philip Carey é um jovem diletante e com um pé boto. Criado pelos tios, desde novo descobre o prazer da leitura, e a educação religiosa ajuda-o a criar uma visão idealista do mundo. Infelizmente, a realidade da sua vida vai contra tudo o que sempre imaginou. Numa ânsia infinita de liberdade, percorre cidades, estuda e conhece imensos amigos que vão afectar a sua visão do mundo e que lhe colocarão mais dúvidas do que ele alguma vez pensou que podiam existir. Basicamente, qual o sentido da vida? E à medida que o vemos avançar, esta pergunta parece cada vez com menos sentido.
De facto, este livro dava uma excelente série televisiva, com várias temporadas certamente. É sobre a vida de Philip, é sobre os amigos que ele conhece, é sobre a beleza do mundo, é sobre a natureza humana, as suas questões e as suas ideias, é sobre cada um de nós, é sobre o tremendo poder do desejo e da realidade, é sobre uma vida. Philip não é mais do que uma vida, e nela nos podemos ver reflectidos. O poder das nossas crenças, o poder da nossa religião, e finalmente o poder da realidade, crua e dura, que pode levar à mais extrema miséria.
Não tenho palavras para descrever a maneira como me identifiquei com a personagem. Durante as minhas centenas de leituras, nunca fui capaz de dizer que me identificava com certa personagem (sinceramente, nunca pensei que isso fizesse diferença!). Fui capaz de me apaixonar por elas, mas nunca de me identificar nelas. Este livro ofereceu-me uma experiência absolutamente diferente, tornando-se o único livro do qual sairei capaz de dizer "Eu identifiquei-me com Philip Carey!". À medida que ele próprio crescia eu via as minhas próprias aventuras, os meus próprios desejos, e gritava só por não poder avançar as páginas e ver o que ia acontecer porque afinal era o desenrolar da minha própria vida! Talvez isso me tenha afectado de facto, nas expectativas que reservo do meu destino e das pessoas que me rodeiam.
Eu queria dizer maravilhas deste livro. Queria explicar-vos quão profundamente me identifiquei com ele. Queria mostrar-vos tudo o que ele me ensinou, todos os sítios que me mostrou, queria mostrar-vos todas as pessoas que conheci. Queria mostrar-vos qual o seu propósito, quais as suas questões, porque falei eu de coisas como o desejo, porque neste livro a natureza humana está tão bem explorada. Mas acho que não consigo. Estamos perante uma obra-prima, que embora tenha 700 páginas de bom grado oferecerei a todos os meus amigos. Mas não há maneira de dizer quão fortemente me senti o próprio Philip Carey.
Só tenho pena de não conseguir escrever melhor crítica neste momento. De não me conseguir organizar nas palavras e nas ideias gerais.
P.S.: fui reler a minha opinião a "Paixão em Florença", muitas vezes melhor do que esta digo já, mas muitas das sensações parecem ter sido as mesmas.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
quinta-feira, 8 de julho de 2010
O Feiticeiro de Oz, de L. Frank Baum
Quando um ciclone atinge o Kansas, Dorothy e o seu cãozinho Toto são transportados até à mágica Terra de Oz, onde animais selvagens falam, sapatos prateados têm poderes mágicos e as bondosas bruxas oferecem protecção em troca de um beijo. Dorothy acaba por se tornar também inimiga da Bruxa Malvada do Oeste. Com os seus novos amigos, o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Cobarde, depara-se com inúmeros perigos no caminho para a Cidade das Esmeraldas, onde terá de se encontrar com o Feiticeiro de Oz para que conceda a cada um aquilo que mais deseja.
Logo que foi publicado O Feiticeiro de Oz cativou imediatamente a atenção tanto de crianças, como de adultos. Esta edição inclui as ilustrações originais de W. W. Denslow, bem como uma introdução do autor. O livro deu origem ao filme com o mesmo nome, considerado um clássico da história do cinema.
Nem sabia que tinha o livro. Curiosamente, apareceu à minha frente do nada. Não me lembro quando o possa ter comprado, não me lembro de nada senão pensar nos últimos tempos "Hei-de ler".
Portanto, assim que o vi peguei nele. Bastou um dia para percorrer estas encantadoras páginas, e que tenho a certeza será muitas vezes tirado da estante para ser relido!
Todos conhecemos o filme com Judy Garland, a fantástica música "Somewhere Over the Rainbow", e tenho a certeza que todos ainda tremem ao lembrar-se da Bruxa Malvada do Oeste, interpretada por Margaret Hamilton (que, na verdade, adorava crianças).
Ler o livro é finalmente ir para além do clássico cinematográfico e encontrar o conto que lhe deu origem.
Tenho imensa pena de não ter lido o livro mais cedo.
A história que encontramos é a história do filme, sem grandes diferenças, apenas há um maior desenvolvimento no que toca à descoberta dos habitantes de Oz. Para quem já conhece o filme, aprofundar o seu conhecimento nestes peculiares seres é uma mais valia da história infantil!
Ao contrário do que Baum diz ao início, acho que este ainda é um conto "assustador", com cenas nada agradáveis. As "angústias" e "pesadelos" estão lá, na minha opinião, embora não deixe de concordar que é um conto bastante modernizado.
E temos de o louvar por isso. Baum vem criar um conto infantil extremamente original!
É algo bastante inspirador, que lida com bastantes questões morais, desde a aparência à necessidade, e que é capaz de comover-nos com histórias como a do Lenhador de Lata! Todas as personagens são bastante queridas, não há palavra melhor para descrevê-las.
Sem dúvida, um livro mesmo muito, muito bom. A escrita de Baum é um primor, principalmente devido à esperteza e ironia de certas passagens que jovens adultos já conseguirão detectar... E por isso mesmo tendo a classificar "O Feiticeiro de Oz" numa espécie de "O Principezinho": este é daqueles livros que devemos ler em pequenos e sucessivamente à medida que vamos crescendo, pois garanto que irão sempre acabá-lo saboreando-o de maneira diferente. É daqueles livros que devemos reler sempre que pudermos, para notarmos uma coisa: estamos a crescer.
Achei de facto fenomenal um conto infantil moderno (embora publicado em 1900) ser tão original, apresentar personagens tão carinhosas e ser capaz de tal proeza: conseguir deliciar-nos de pequenos até velhos. Acredito que iremos sempre retirar uma conclusão diferente.
Uma obra obrigatória. Um último realce às maravilhosas e engraçadíssimas ilustrações de W. W. Denslow!
Logo que foi publicado O Feiticeiro de Oz cativou imediatamente a atenção tanto de crianças, como de adultos. Esta edição inclui as ilustrações originais de W. W. Denslow, bem como uma introdução do autor. O livro deu origem ao filme com o mesmo nome, considerado um clássico da história do cinema.
Nem sabia que tinha o livro. Curiosamente, apareceu à minha frente do nada. Não me lembro quando o possa ter comprado, não me lembro de nada senão pensar nos últimos tempos "Hei-de ler".
Portanto, assim que o vi peguei nele. Bastou um dia para percorrer estas encantadoras páginas, e que tenho a certeza será muitas vezes tirado da estante para ser relido!
Todos conhecemos o filme com Judy Garland, a fantástica música "Somewhere Over the Rainbow", e tenho a certeza que todos ainda tremem ao lembrar-se da Bruxa Malvada do Oeste, interpretada por Margaret Hamilton (que, na verdade, adorava crianças).
Ler o livro é finalmente ir para além do clássico cinematográfico e encontrar o conto que lhe deu origem.
Tenho imensa pena de não ter lido o livro mais cedo.
A história que encontramos é a história do filme, sem grandes diferenças, apenas há um maior desenvolvimento no que toca à descoberta dos habitantes de Oz. Para quem já conhece o filme, aprofundar o seu conhecimento nestes peculiares seres é uma mais valia da história infantil!
Ao contrário do que Baum diz ao início, acho que este ainda é um conto "assustador", com cenas nada agradáveis. As "angústias" e "pesadelos" estão lá, na minha opinião, embora não deixe de concordar que é um conto bastante modernizado.
E temos de o louvar por isso. Baum vem criar um conto infantil extremamente original!
É algo bastante inspirador, que lida com bastantes questões morais, desde a aparência à necessidade, e que é capaz de comover-nos com histórias como a do Lenhador de Lata! Todas as personagens são bastante queridas, não há palavra melhor para descrevê-las.
Sem dúvida, um livro mesmo muito, muito bom. A escrita de Baum é um primor, principalmente devido à esperteza e ironia de certas passagens que jovens adultos já conseguirão detectar... E por isso mesmo tendo a classificar "O Feiticeiro de Oz" numa espécie de "O Principezinho": este é daqueles livros que devemos ler em pequenos e sucessivamente à medida que vamos crescendo, pois garanto que irão sempre acabá-lo saboreando-o de maneira diferente. É daqueles livros que devemos reler sempre que pudermos, para notarmos uma coisa: estamos a crescer.
Achei de facto fenomenal um conto infantil moderno (embora publicado em 1900) ser tão original, apresentar personagens tão carinhosas e ser capaz de tal proeza: conseguir deliciar-nos de pequenos até velhos. Acredito que iremos sempre retirar uma conclusão diferente.
Uma obra obrigatória. Um último realce às maravilhosas e engraçadíssimas ilustrações de W. W. Denslow!
terça-feira, 6 de julho de 2010
A Floresta de Mãos e Dentes, de Carrie Ryan
"Inteligente, sombrio e enfeitiçante, A Floresta de Mãos e Dentes oscila, sem dificuldade, entre o horror e a beleza. O mundo de Mary não será facilmente esquecido pelos leitores."
Cassandra Clare, autora de A Cidade dos Ossos
No mundo de Mary há verdades simples. A Irmandade sabe sempre o que é melhor. Os Guardiães protegem e servem. Os Excomungados nunca desistem. E tu nunca deves esquecer a cerca que rodeia a aldeia. A cerca que protege a aldeia da Floresta de Mãos e Dentes. Mas, aos poucos, Mary começa a pôr em causa as suas verdades. Ela está a conhecer coisas que nunca quis saber sobre a Irmandade e os seus segredos, sobre os Guardiães e os seus poderes. E quando há uma brecha na cerca e o seu mundo se transforma num caos, ela fica a conhecer melhor os Excomungados e percebe o quão implacáveis são. Agora, Mary tem de optar entre a sua aldeia ou o seu futuro, entre aquele que ama e aquele que a ama.
E também tem de enfrentar a verdade em relação à Floresta de Mãos e Dentes.
Poderá haver vida para lá de um mundo rodeado por tanta morte?
A tendência da nossa época parece ser a de romances "desmistificar" um pouco romances de terror. Aconteceu com os vampiros da maneira mais bruta que podem imaginar.
Com os zombies... Bem, não é bem isso que está a acontecer. O que vemos é que este ano temos bastante entradas na Literatura que dão importância a este ser morto-vivo, que não pensa apenas age.
A Floresta de Mãos e Dentes é um livro de zombies. Ainda assim, só quando comecei a ler me apercebi disso, porque nunca no livro esta palavra é utilizada.
Mary é uma rapariga que viu o seu pai ser arrastado por Excomungados (nome para zombies), e a sua vida muda drasticamente quando se vê novamente numa situação semelhante. A verdade é que vai descobrir que a aldeia onde mora... não é o mundo inteiro. E a verdade sobre os Excomungados e a Irmandade, que protege a aldeia destes, é bastante mais aterradora do que os querem fazer acreditar!
Impossível não me lembrar do filme "A Vila", de M. Night Shyamalan. Uma aldeia, cercada por uma floresta; algo monstruoso nessa floresta, capaz de matar pessoas; nada para além dessa floresta. Pensam os aldeões...
Ainda assim, este foi um livro que me impressionou pela positiva! Embora a premissa fosse, a meu ver, demasiado previsível e pouco original, revelou-se uma agradável leitura!
Primeiro, achei bastante louvável a autora procurar utilizar um vocabulário próprio, como "excomungados". Não que não estejamos a falar dos mesmos seres, mas acaba por tornar a aldeia um local acreditável, que nunca poderia ser influenciado por teorias de fora!
Depois, e mais importante, uma escrita bastante séria. Nunca esperei encontrar neste livro uma escrita tão madura, tão séria, e que tornou todos os momentos do livro bastante sóbrios e emocionantes. Para mim, não é como a escrita de Stephenie Meyer (ao qual o livro é comparado), é algo muito, muito mais sério, e é capaz de fazer os leitores admirarem-se!
É, portanto, uma história bastante emocionante. Trata-se de um romance notoriamente pós-apocalíptico, e cujo final realça essa vertente e nos faz pensar no que se poderá seguir (sinceramente, não faço ideia como surgirá a continuação).
Ainda assim, nunca deixa de ser bastante lento e demorado... Não é um livro muito grande, pelo que não se pode dizer que a autora se tenha alongado muito! Por outro lado, a escrita que é capaz de nos fazer seguir atentamente a fuga de Mary e os amigos dos Excomungados (porque o livro é apenas isso, a perseguição e a fuga) disfarça o facto de a história não avançar muito mais, e os grandes acontecimentos serem esporádicos.
O único ponto negativo que quero realçar é a protagonista, para mim uma personagem demasiado confusa. Não só psicologicamente, porque em princípio isso não deveria ser negativo, mas sim para o leitor. Muitas vezes me senti confusa ao ler os seus actos e pensamentos. É uma protagonista de um livro mais sério do que seria de esperar, mas muito pouco consolidada na minha opinião. Esperemos que a continuação a traga mais sólida.
Enfim, decididamente um livro para jovens adultos, a seguir a febre de "Crepúsculo", mas ainda assim merece uns pontos pela sua escrita e por raramente nos manter aborrecidos. Ao contrário do que me levou a pensar a premissa, este livro é muito mais impressionante do que aparenta ser. Peca pelas personagens, que são bastante mal definidas. Não deixa de ser um livro com poucos pontos fracos, bastante emocionante e que impressionará alguns cépticos. Uma leitura que aconselharia à maioria.
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