O presente volume constitui a segunda parte do monumental romance As Brumas de Avalon. Significativo da sua qualidade
e simultânea popularidade, é o facto de alguns paises já se terem
atingido a vigésima edição desta obra tão favoravelmente acolhida pela
crítica mundial.
«Lemos o primeiro livro, A Senhora da Magia. Esperamos pelos restantes
para preencher a nossa avidez de mistério e de saudade daquela sabedoria
inicial, que fomos perdendo na assimilação de culturas, quando éramos
um com a terra.»
João Mattos e Silva, Letras & Letras, Mai. 88
«Uma perspectiva alucinante e vertiginosa, de uma época onde tudo era possível através dos poderes das mulheres.»Mulheres, Fev. 88
«O ponto de vista das mulheres, sobre este ciclo de lendas, é, de
facto, original e cativante. A prová-lo está o enorme sucesso editorial
que a obra de Bradley suscita em toda a parte.»A Capital, 26 Nov. 87
«Uma fascinante visão do mágico, do místico, do fantástico de eras perdidas do mito.»
D. S. Bruno, Semanário, 22 Dez. 87
«... um livro a reter como um retrato relativamente fiel de uma tradição, onde o fio da lenda (haverá coisas tão agradavelmente reais como as lendas arturianas?) é contado a partir de outra perspectiva, de outro olhar sobre o destino da História e do sentido de Avalon.»
Francisco José Veigas, Expresso, 5 Mar. 88
O primeiro volume foi uma introdução muito amena a esta versão mágica e feminista da lenda do Rei Artur. A magia esotérica, muito indefinida, e as mulheres poderosas mas de pouca vontade própria não me conseguiram entusiasmar.
Este segundo volume, no entanto, afasta-se completamente do misticismo tão indistinto quanto as brumas de Avalon e aproxima-nos do mundo real. Efectivamente, neste segundo volume a personagem principal afasta-se de Avalon e vai para o meio da corte real - onde a magia é completamente abominada. É por isso uma abordagem muito mais empolgante, que finalmente nos faz torcer por personagens que querem apenas viver e amar e que lutarão pela sua felicidade.
Nada de esoterismos, nada de sacerdotisas: apenas mulheres, Morgaine e Gwenhwyfar, lutando por aquilo em que acreditam, não se deixando vergar pela vontade dos outros. Isto, sim, é uma perspectiva feminista!
Apesar da magia que caracteriza e distingue esta série não estar tão presente (reconheço que é o que torna a obra tão idiossincrásica), a vontade humana é mais forte do que nunca e nada é mais cativante. Cativante, contudo, de uma forma algo mórbida: nós que conhecemos a lenda, sabemos como tudo acaba em tragédia, mas assistimos com emoção a estas personagens que procuram tecer o destino à sua maneira. Talvez seja verdade que a vontade dos Deuses seja inultrapassável.
É este segundo volume que faz de mim um seguidor de Avalon.
Gwenhwyfar é a Rainha Suprema, mulher de Artur, e o seu fanatismo religioso fá-la uma personagem praticamente detestável; enquanto Morgaine vai perdendo a sua influência junto do Rei, e com ela o poder de Avalon na Terra, Gwenhwyfar usa todos os trunfos para transformar a Bretanha em terra cristã, abolindo de vista as manifestações celtas.
A presença dos homens mal se nota, o que para mim acaba por tornar esta saga não tão completa quando poderia ser. Reuniões de guerra e batalhas são completamente ausentes, o que faz sentido visto que nenhuma destas mulheres se pôs a combater ao lado de Artur, mas acabam por ser desprezados momentos muito importantes na história. Momentos que são desperdiçados com uma referência rápida. Por vezes nem sequer temos a oportunidade de acompanhar as mulheres no nervosismo que acompanha a espera, já que oportunamente desmaiam ou entram em transe. Por favor, eu até aceitava uma magia maluca qualquer que fizesse com que o espírito delas fosse transportado para o meio das batalhas! Mas nem isso nem nada parecido.
Contudo, sou justo: esta é uma perspectiva completamente feminina da lenda de Artur e Bradley nunca se esquece disso. É um desafio completado com louvor. A ausência dos momentos masculinos é um dano colateral, mas necessário para tornar esta obra tão única. Se quero ler mais, que vá procurar outros livros.
Com o fanatismo religoso de Gwenhwyfar, vem a guerra entre cristianismo e culto da Deusa. Esta discussão teológica poderia ser bastante interessante, mas infelizmente ao longo do livro os argumentos são sempre os mesmos e o que podia ser uma argumentação bastante construtiva acaba por ser apenas repetitiva, sempre a bater nas mesmas teclas... Talvez nos próximos livros isso melhore.
Finalmente, as brumas encantaram-me. Daqui para a frente espero que esse encanto apenas aumente com o adensar da história...
quinta-feira, 25 de junho de 2015
terça-feira, 23 de junho de 2015
A Senhora da Magia, de Marion Zimmer Bradley
O presente volume constitui o inicio da publicação em Portugal do monumental romance As Brumas de Avalon. Significativo da sua qualidade
e simultânea popularidade, é o facto de alguns paises já se terem
atingido a vigésima edição desta obra tão favoravelmente acolhida pela
crítica mundial.
«Uma monumental
reinvenção das lendas Arturianas... lê-lo é uma experiência profundamente tocante e, por vezes, estranha... Uma obra marcante.»
The New York Times Book Review
«As Brumas de
Avalon, com a sua magistral tecitura e uma escrita de grande beleza, lança nova luz sobre velhos personagens, nomeadamente a fada Morgana, Merlim, Lancelot e Guinevere. Romance épico por onde perpassam violências, sensualidades, dolorosas lealdades e encantamentos assombrosos.»
Publishers Weekly
«A mais maravilhosa evocação da
saga do Rei Artur que já li. Absolutamente extraordinário.»
Isaac Asimov
«Gostei tanto do
livro que o comprei para um amigo e falei dele a toda a gente. Porque será que até agora ninguém se lembrara de contar a história do Rei Artur da perspectiva das mulheres!"
Jean M. Auel
«A mais original das interpretações
da Matéria da Bretanha na via da religião Celta e da Grande Mãe... uma notável proeza de imaginação.»
Mary Renault
As Brumas de Avalon é talvez o mais popular clássico literário sobre o ciclo Arturiano (só o filme da Disney A Espada Era a Lei deve ultrapassar essa popularidade, mas parece-me que pouca gente tem a noção de que é na verdade uma adaptação cinematográfica do livro O Rei Que Foi e Um Dia Será).
Também a mais mística de todas as abordagens à lenda do Rei Artur, o seu impacto ultrapassa o da história: é a inspiração de inúmeros livros actuais que lidam com magia, mistério, tradição celta e o poder das mulheres... Creio que não há um único livro que não lide com misticismo e paganismo que não seja comparado a esta obra!
Todos os eventos da lendária história do Rei Artur passaram-se numa época hoje tão obscura que não há praticamente dados históricos concretos... O que dá lugar a inúmeras versões literárias, que ao longo dos anos tenho vindo a descobrir com muito gosto (esta é sem dúvida das minhas histórias preferidas). E quem sabe se esta não é a versão real da vida de Artur, Lancelet, Morgaine e Gwenhwyfar?
A obra divide-se em quatro volumes e comentarei cada um deles ao longo da leitura. Apesar da já inexistente Difel defender que podem ser lidos individualmente, sem qualquer quebra de ritmo, aconselho desde já a não o fazerem. Existe continuidade entre os livros e lê-los independentemente não garante o impacto que se deseja à medida que vamos conhecendo e acompanhando as personagens (algumas como amigas, outras como inimigas).
Também aconselho vivamente a, se decidirem ler este primeiro livro, não deixarem de avançar imediatamente para o segundo. Pelo menos para mim este primeiro volume não foi suficiente para me agarrar...
A premissa do livro é bastante simples: foram as mulheres que influenciaram o destino da Bretanha, desde as sacerdotisas de Avalon defendendo a presença da sua Deusa à rainha cristã defendendo o poder de Cristo.
Infelizmente, este primeiro livro pouco me entusiasmou em relação a estas tão aclamadas e "poderosas" mulheres. Marion Zimmer Bradley introduz-nos a mulheres que, apesar de influentes, pouca vontade própria têm e limitam-se a seguir a vontade dos Deuses, sem que tenham uma palavra própria a dizer. As sacerdotisas de Avalon são mulheres que se resignam ao destino que os Deuses escrevem e a vontade humana é praticamente nula. Sinceramente, não consigo achar tais mulheres inspiradoras. Para um livro que tem fama de ser feminista, as suas mulheres são bastante passivas. Digo eu.
O livro lê-se numa assentada (aliás a primeira vez que nele peguei li-o numa noite apenas). Mas tal deve-se sobretudo à escrita muito fluida e muito simples, e não à emoção da história (o que, sejamos justos, é compreensível quando esta é apenas a primeira parte do livro, uma introdução).
Mas o mais aborrecido do livro acabou por ser as descrições da magia: surreais, difusas, esotéricas. A magia de As Brumas de Avalon é uma magia entre a Terra e um outro mundo paralelo, e a forma como Marion Zimmer Bradley a descreve é incrivelmente esotérica, desnecessariamente irreal, o que não apreciei de todo. A Magia é descrita de tal forma difusa, no óbvio objectivo de mantê-la nessa forma oculta e inatingível (tão difusa quanto as brumas de Avalon), que se torna enfadonha. É certo que tem a sua razão de ser... Mas isso não a torna menos aborrecida. A magia de Avalon é demasiado indefinida para mim, como se me tomasse como um ignorante que acredita em milagres todos os dias. Ler as passagens que que descrevem os actos mágicos é como ler palavras soltas que aparecem vindas do nada e que cavalgam no vento sem grande sentido.
As únicas partes que acabei por apreciar mais foram precisamente aquelas em que as personagens se revelaram um pouco mais humanas e terrenas, onde se discutiam as suas motivações mais próximas do que eu espero serem os conflitos de um ser, e isso foi relativamente raro.
É, no fim de contas, uma introdução. Não a mais empolgante, mas não julguemos um livro apenas pelas primeiras páginas. Mais uma vez, se este primeiro livro não for do vosso agrado (como não foi do meu) não hesitem em avançar para o segundo livro, que garanto será bastante mais empolgante.
Também a mais mística de todas as abordagens à lenda do Rei Artur, o seu impacto ultrapassa o da história: é a inspiração de inúmeros livros actuais que lidam com magia, mistério, tradição celta e o poder das mulheres... Creio que não há um único livro que não lide com misticismo e paganismo que não seja comparado a esta obra!
Todos os eventos da lendária história do Rei Artur passaram-se numa época hoje tão obscura que não há praticamente dados históricos concretos... O que dá lugar a inúmeras versões literárias, que ao longo dos anos tenho vindo a descobrir com muito gosto (esta é sem dúvida das minhas histórias preferidas). E quem sabe se esta não é a versão real da vida de Artur, Lancelet, Morgaine e Gwenhwyfar?
A obra divide-se em quatro volumes e comentarei cada um deles ao longo da leitura. Apesar da já inexistente Difel defender que podem ser lidos individualmente, sem qualquer quebra de ritmo, aconselho desde já a não o fazerem. Existe continuidade entre os livros e lê-los independentemente não garante o impacto que se deseja à medida que vamos conhecendo e acompanhando as personagens (algumas como amigas, outras como inimigas).
Também aconselho vivamente a, se decidirem ler este primeiro livro, não deixarem de avançar imediatamente para o segundo. Pelo menos para mim este primeiro volume não foi suficiente para me agarrar...
A premissa do livro é bastante simples: foram as mulheres que influenciaram o destino da Bretanha, desde as sacerdotisas de Avalon defendendo a presença da sua Deusa à rainha cristã defendendo o poder de Cristo.
Infelizmente, este primeiro livro pouco me entusiasmou em relação a estas tão aclamadas e "poderosas" mulheres. Marion Zimmer Bradley introduz-nos a mulheres que, apesar de influentes, pouca vontade própria têm e limitam-se a seguir a vontade dos Deuses, sem que tenham uma palavra própria a dizer. As sacerdotisas de Avalon são mulheres que se resignam ao destino que os Deuses escrevem e a vontade humana é praticamente nula. Sinceramente, não consigo achar tais mulheres inspiradoras. Para um livro que tem fama de ser feminista, as suas mulheres são bastante passivas. Digo eu.
O livro lê-se numa assentada (aliás a primeira vez que nele peguei li-o numa noite apenas). Mas tal deve-se sobretudo à escrita muito fluida e muito simples, e não à emoção da história (o que, sejamos justos, é compreensível quando esta é apenas a primeira parte do livro, uma introdução).
Mas o mais aborrecido do livro acabou por ser as descrições da magia: surreais, difusas, esotéricas. A magia de As Brumas de Avalon é uma magia entre a Terra e um outro mundo paralelo, e a forma como Marion Zimmer Bradley a descreve é incrivelmente esotérica, desnecessariamente irreal, o que não apreciei de todo. A Magia é descrita de tal forma difusa, no óbvio objectivo de mantê-la nessa forma oculta e inatingível (tão difusa quanto as brumas de Avalon), que se torna enfadonha. É certo que tem a sua razão de ser... Mas isso não a torna menos aborrecida. A magia de Avalon é demasiado indefinida para mim, como se me tomasse como um ignorante que acredita em milagres todos os dias. Ler as passagens que que descrevem os actos mágicos é como ler palavras soltas que aparecem vindas do nada e que cavalgam no vento sem grande sentido.
As únicas partes que acabei por apreciar mais foram precisamente aquelas em que as personagens se revelaram um pouco mais humanas e terrenas, onde se discutiam as suas motivações mais próximas do que eu espero serem os conflitos de um ser, e isso foi relativamente raro.
É, no fim de contas, uma introdução. Não a mais empolgante, mas não julguemos um livro apenas pelas primeiras páginas. Mais uma vez, se este primeiro livro não for do vosso agrado (como não foi do meu) não hesitem em avançar para o segundo livro, que garanto será bastante mais empolgante.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
A Filha de Mistral de Judith Krantz
A Filha de Mistral é um daqueles livros grandes, daqueles que saltam bem à vista, que desde pequenino vejo nas estantes da minha mãe e que sempre ansiei por pegar.
Hoje foi o dia.
Valeu a pena os anos de curiosidade? Valeu a pena o tempo perdido num livro de tantas palavras?
Como se costuma dizer: meh.
É um livro bastante mais extenso do que parece e que conta a história de uma família ao longo de quase um século. Mas a escrita imaculada de Judith Krantz não deixa lugar a grandes emoções fortes e a vida fácil das suas personagens não cativa de todo... E não, eu não preciso de ser mulher para gostar do livro.
A história desde logo chamou-me a atenção: a épica saga das três mulheres Lunel, avó mãe e filha, Maggy Teddy e Lunel, e do homem a quem cada uma delas está tão ligada, Mistral, o maior pintor francês de sempre, uma história que percorre o séc. XX desde os gloriosos anos 20 em Paris até aos anos 70 de Nova Iorque. Eu gosto de livros assim, que se estendem ao longo de quase um século de História, que seguem as suas personagens uma vida inteira, porque o que mais me agrada na leitura é conhecer novas personagens e apaixonar-me por elas (ou mesmo odiá-las, o que importa é emocionar-me!).
A Filha de Mistral é, por um lado, isso. Começamos por conhecer Maggy, uma jovem ingénua que se torna a maior modelo de artistas de Paris nos anos 20, e que vai viver uma paixão arrebatadora mas efémera com Julien Mistral. Muito mais tarde, depois do destino a levar até Nova Iorque, a sua filha Teddy torna-se a maior modelo fotográfica dos anos 50 e também ela apaixonar-se-á por Julien Mistral. E ainda mais tarde Fauve, filha de Teddy, irá lidar com Mistral e enfrentar os segredos que o seu passado e das Lunel esconde.
Uma história longa e de destinos, como se percebe.
Mas não se deixe iludir: o livro é desapontadoramente vulgar.
Para começar, não há nada de verdadeiramente emocionante nesta história tão longa que mereça a construção de um suspense ou de expectativa. É certo que a vida não corre sempre bem: há pessoas que morrem, deixando os sobreviventes desamparados; muitas vezes as decisões não são as correctas, e mais tarde terão de lidar com as suas consequências. Mas todos estes acontecimentos, que são o verdadeiro enredo do livro, não nos agarram, não nos deixam o coração apertado de emoção, não nos fazem torcer por quem quer que seja. Apenas... Acontecem. Dir-me-ão "e não é mesmo assim a vida?", e eu concordarei (lembro-me agora do belo filme de Richard Linklater, Boyhood, que reflecte um pouco a passagem do tempo sem o clímax das fantasias artísticas). Mas Judith Krantz claramente não pretende fazer de A Filha de Mistral uma reflexão sobre a passividade da vida contra os romantismos construídos pelas novelas e por Hollywood. Pretende, antes, construir um trama épico no feminino, mas falha em cativar um leitor mais maduro. Parece-me que uma pessoa com menos cultura literária ficará bastante mais agradado com esta oferta.
Para mim, uma das grandes razões que tornou esta leitura tão vulgar e pouco cativante foi a escrita. Na verdade, há que confessar que Judith Krantz escreve muitíssimo bem. Leram bem, muitíssimo! Acho que raras vezes encontrei uma escritora tão perfeitamente irrepreensível: frases perfeitamente delineadas, palavras devidamente pensadas, tudo maravilhosamente correcto. Resumindo: perfeitamente aborrecido. A escrita de Krantz é tão correcta que não há espaço para uma certa liberdade na escrita, a liberdade que na minha opinião é a voz do escritor. Tão correcta que acaba por não dar espaço a emoções fortes. Não há atrevimento.
Todo o livro é uma ode às modelos, uma apreciação da beleza feminina retratada nas revistas de moda. É óbvio que a autora tem uma paixão enorme pelo mundo da publicação da moda, e certamente fala com experiência e profissionalismo. Infelizmente, os seus devaneios sobre a perfeição das modelos da capa da Vogue pouco me entusiasmaram, e o facto de todas as protagonistas serem fisicamente imaculadas (ao ponto de uma senhora de sessenta anos aparentar os dezassete) menos me convenceu.
As mulheres Lunel são as mais bonitas que alguma vez pisaram a terra e isso parece garantir que raramente encontrem dificuldades na vida. O seu percurso de vida parece basear-se apenas em arranjar trabalho aparentemente bem pago pela sua beleza, mais uma vez dando pouco espaço a uma história mais elaborada pela qual o leitor possa ser cativado.
Apesar de tudo, chegados ao fim do livro, é impossível não sentir uma certa nostalgia na despedida. Depois de percorrermos a sua vida inteira, percebemos que inconscientemente acabámos por nos agarrar a estas mulheres. É um sentimento inevitável quando se trata de uma história de tantos anos, que nos acompanha por tantos dias. Não obstante, nunca em todo o resto do livro sentimos verdadeira necessidade de as acompanhar.
No fim de contas... Não é mais do que um livro romântico, como aqueles romances femininos vendidos nas papelarias, mascarado por uma história mais extensa e que não entretém como seria de prever (foi aliás mais demoroso de ler do que esperava). Não que dê o meu tempo por perdido, mas sem dúvida não teria pegado se soubesse melhor.
Hoje foi o dia.
Valeu a pena os anos de curiosidade? Valeu a pena o tempo perdido num livro de tantas palavras?
Como se costuma dizer: meh.
É um livro bastante mais extenso do que parece e que conta a história de uma família ao longo de quase um século. Mas a escrita imaculada de Judith Krantz não deixa lugar a grandes emoções fortes e a vida fácil das suas personagens não cativa de todo... E não, eu não preciso de ser mulher para gostar do livro.
A história desde logo chamou-me a atenção: a épica saga das três mulheres Lunel, avó mãe e filha, Maggy Teddy e Lunel, e do homem a quem cada uma delas está tão ligada, Mistral, o maior pintor francês de sempre, uma história que percorre o séc. XX desde os gloriosos anos 20 em Paris até aos anos 70 de Nova Iorque. Eu gosto de livros assim, que se estendem ao longo de quase um século de História, que seguem as suas personagens uma vida inteira, porque o que mais me agrada na leitura é conhecer novas personagens e apaixonar-me por elas (ou mesmo odiá-las, o que importa é emocionar-me!).
A Filha de Mistral é, por um lado, isso. Começamos por conhecer Maggy, uma jovem ingénua que se torna a maior modelo de artistas de Paris nos anos 20, e que vai viver uma paixão arrebatadora mas efémera com Julien Mistral. Muito mais tarde, depois do destino a levar até Nova Iorque, a sua filha Teddy torna-se a maior modelo fotográfica dos anos 50 e também ela apaixonar-se-á por Julien Mistral. E ainda mais tarde Fauve, filha de Teddy, irá lidar com Mistral e enfrentar os segredos que o seu passado e das Lunel esconde.
Uma história longa e de destinos, como se percebe.
Mas não se deixe iludir: o livro é desapontadoramente vulgar.
Para começar, não há nada de verdadeiramente emocionante nesta história tão longa que mereça a construção de um suspense ou de expectativa. É certo que a vida não corre sempre bem: há pessoas que morrem, deixando os sobreviventes desamparados; muitas vezes as decisões não são as correctas, e mais tarde terão de lidar com as suas consequências. Mas todos estes acontecimentos, que são o verdadeiro enredo do livro, não nos agarram, não nos deixam o coração apertado de emoção, não nos fazem torcer por quem quer que seja. Apenas... Acontecem. Dir-me-ão "e não é mesmo assim a vida?", e eu concordarei (lembro-me agora do belo filme de Richard Linklater, Boyhood, que reflecte um pouco a passagem do tempo sem o clímax das fantasias artísticas). Mas Judith Krantz claramente não pretende fazer de A Filha de Mistral uma reflexão sobre a passividade da vida contra os romantismos construídos pelas novelas e por Hollywood. Pretende, antes, construir um trama épico no feminino, mas falha em cativar um leitor mais maduro. Parece-me que uma pessoa com menos cultura literária ficará bastante mais agradado com esta oferta.
Para mim, uma das grandes razões que tornou esta leitura tão vulgar e pouco cativante foi a escrita. Na verdade, há que confessar que Judith Krantz escreve muitíssimo bem. Leram bem, muitíssimo! Acho que raras vezes encontrei uma escritora tão perfeitamente irrepreensível: frases perfeitamente delineadas, palavras devidamente pensadas, tudo maravilhosamente correcto. Resumindo: perfeitamente aborrecido. A escrita de Krantz é tão correcta que não há espaço para uma certa liberdade na escrita, a liberdade que na minha opinião é a voz do escritor. Tão correcta que acaba por não dar espaço a emoções fortes. Não há atrevimento.
Todo o livro é uma ode às modelos, uma apreciação da beleza feminina retratada nas revistas de moda. É óbvio que a autora tem uma paixão enorme pelo mundo da publicação da moda, e certamente fala com experiência e profissionalismo. Infelizmente, os seus devaneios sobre a perfeição das modelos da capa da Vogue pouco me entusiasmaram, e o facto de todas as protagonistas serem fisicamente imaculadas (ao ponto de uma senhora de sessenta anos aparentar os dezassete) menos me convenceu.
As mulheres Lunel são as mais bonitas que alguma vez pisaram a terra e isso parece garantir que raramente encontrem dificuldades na vida. O seu percurso de vida parece basear-se apenas em arranjar trabalho aparentemente bem pago pela sua beleza, mais uma vez dando pouco espaço a uma história mais elaborada pela qual o leitor possa ser cativado.
Apesar de tudo, chegados ao fim do livro, é impossível não sentir uma certa nostalgia na despedida. Depois de percorrermos a sua vida inteira, percebemos que inconscientemente acabámos por nos agarrar a estas mulheres. É um sentimento inevitável quando se trata de uma história de tantos anos, que nos acompanha por tantos dias. Não obstante, nunca em todo o resto do livro sentimos verdadeira necessidade de as acompanhar.
No fim de contas... Não é mais do que um livro romântico, como aqueles romances femininos vendidos nas papelarias, mascarado por uma história mais extensa e que não entretém como seria de prever (foi aliás mais demoroso de ler do que esperava). Não que dê o meu tempo por perdido, mas sem dúvida não teria pegado se soubesse melhor.
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