Curiosamente, em tantos anos a escrever para este Cantinho, nunca publiquei uma crítica a um livro de Júlio Verne. Curioso porque ele é, na verdade, um dos meus escritores preferidos!
Na verdade, não é anormal de todo. Com tantos livros por ler, não são raras as vezes em que acabo por deixar de lado os meus escritores preferidos para apostar em novos autores ou outros livros soltos... Júlio Verne, Eça de Queiróz, José Saramago, Cormac McCarthy, Tolkien, Júlio Dinis, e tantos outros, vão esperando nas estantes por releituras.
Não obstante, continuam a ter um lugar de destaque nas minhas preferências.
Quanto a Júlio Verne, tenho várias dezenas de livros seus cá em casa, a maior parte por ler. Os seus mais conhecidos clássicos (Viagem ao Centro da Terra, A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, 20 000 Léguas Submarinas) alimentaram a minha imaginação e curiosidade ainda eu era miúdo. Desde então, ocasionalmente revisito as suas obras, mas não com a frequência devida.
Desta vez, decidi pegar neste romance muito pequeno (li-o num dia) baseado num fenómeno verídico: durante o pôr-do-sol, assim que o Sol cruza o horizonte, observa-se um raio verde acima do seu disco, que dura pouco mais de um segundo. O fenómeno, com uma explicação científica lógica, é relativamente raro e Verne decide dar-lhe um papel determinante na vida das personagens: reza a lenda que quem observar o Raio Verde verá claro no seu coração e no dos outros, limpando-o de ilusões e mentiras. Miss Campbell, uma rapariga mimada por dois tios bastante simpáticos (e ricos) decide não se casar até ver esse Raio! Os tios, que já lhe arranjaram um pretendente, acompanham-na portanto, ansiosos, nesta viagem para perseguir o Raio Verde.
O livro pouco tem de acção, ou sequer de história. Concretamente, o livro é um guia turístico da Escócia.
Talvez isto o torne um dos livros menos emocionantes que Verne escreveu. A história resume a várias tentativas falhadas de ver o Raio Verde, e muito rapidamente isso começa a parecer extremamente repetitivo. As personagens, excepcionalmente ricas (o que facilita imensamente a sua vida) não são particularmente criativas, apesar de adoráveis (sobretudo os tios). O resto da história é incrivelmente previsível (com a menina Campbell a apaixonar-se por um homem diferente do que os tios pretendiam inicialmente) e pouco relevante perante a lição de Geografia sobre as ilhas do Norte da Escócia.
Contudo, compreendam-me: não leio um livro de Verne há anos. Este regresso foi, por isso, bastante agradável, e o facto do livro ser tão descritivo e ter pouco ou nenhuma história não afectou de todo o meu fascínio por reencontrar a escrita de Júlio Verne. Aliás, fiquei sim com uma enorme vontade de ir já conhecer as maravilhosas ilhas que ele descreve (porque tudo aqui escrito é real!).
É Júlio Verne. Mais do que acção, oferece-nos uma dose excitante de conhecimento.
Por isso, sim, estará longe dos melhores livros de Verne, talvez seja bastante aborrecido para a maior parte dos leitores (acima de tudo os que não têm Verne como um escritor favorito). Mas as descrições das ilhas da Escócia são deliciosas, e o entusiasmo com que Verne nos guia nesta viagem turística é tão inebriante que não vejo como possa alguma vez ser cansativo.
Termino expondo o meu espanto em encontrar Verne a fazer da personagem conhecedora das Ciências Naturais a pessoa mais aborrecida de todas. Seria de esperar que um autor tão dedicado à ficção científica fizesse de um tal sábio alguém merecedor de mais atenção, e no entanto decide que o herói, o personagem cativante, seja o artista, o que prefere acreditar nos Deuses a criar as maravilhas naturais do que os fenómenos vulcânicos. Sem dúvida, Verne deixou-se levar por muitos clichés ao criar as personagens para esta história.
sexta-feira, 29 de maio de 2015
quinta-feira, 21 de maio de 2015
O Planeta dos Dragões, de Anne McCaffrey
Quando Anne
McCaffrey foi publicada pela primeira vez na colecção Argonauta (esse
Santo Graal da ficção científica na edição literária portuguesa, como é difícil
encontrar actualmente num mercado controlado pelo sucesso de vendas), tornou-se
uma das autoras com maior presença. Menos do que isso
não era de esperar: McCaffrey foi a primeira mulher a ganhar os prémios
Nebula e Hugo (importantes prémios nos géneros fantástico e ficção científica),
ambos para a série sobre os Dragões de Pern.
Alguns anos mais tarde, a
Gailivro tomou controlo da publicação da autora em Portugal. Reeditou quatro
livros dessa famosa série que possui mais de 20 títulos... Até interromper,
indefinidamente. Infelizmente, parece-me que esta autora cá em Portugal nunca
gozou da grandiosa fama que possui nos Estados Unidos (e a falta de sucesso
editorial, aliada a uma enorme crise económica, é a morte do artista). Sim,
pelo que me dá a entender, Pern reúne uma enorme legião de fãs e é uma
referência literária e cultural no mundo da Fantasia.
Apesar disso, não
posso ser mesquinho: a Gailivro conseguiu publicar toda a trilogia
principal, sob os títulos O Voo do Dragão, A Demanda do
Dragão e O Dragão Branco. Não conheço esse trabalho de
edição e tradução, mas os leitores que procuram uma publicação mais recente do
que esta da editora Livros do Brasil podem facilmente encontrá-la, conhecendo
assim a história de um planeta, Pern, e os seus dragões, que combatem os
terríveis Fios vindos do céu para destruírem a vida que ali habita. E devem fazê-lo: este trabalho de revisão da Livros do Brasil é bastante fraco, com frases aparentemente mal formuladas e uma impressão cheia de erros. Tenho a certeza que a Gailivro apresenta um melhor trabalho.
Para os fãs, que certamente não se contentam com menos do que a série completa, se não têm
facilidade de ler em inglês podem recorrer à colecção Argonauta (que ainda é
vendida por aí em livreiros mais pequenos, e na Feira do Livro de Lisboa que está para abrir em breve!), com duas
trilogias e mais meia dúzia de livros isolados, todos integrados na série. Não
são todos, mas parecem-me os mais importantes.
Qualquer que seja o seu caso, saiba apenas que está perante um clássico do género. E se está curioso em conhecê-lo, qualquer que seja a sua escolha de editora, esta trilogia principal parece-me mais do que suficiente. Não vale a pena comprar os restantes volumes, a menos que tenha ficado fã.
Os dois primeiros livros da trilogia, O Voo
do Dragão e A Demanda do Dragão, foram publicados em três
volumes, todos com o nome O Planeta dos Dragões. A opinião que aqui
escrevo é, portanto, referente a esse conjunto de dois livros no
original.
O primeiro livro é um choque.
Há que atentar que, na última década, o género
fantástico evoluiu muitíssimo. Não só o género ganhou popularidade (e algum
prestígio) como a forma de o escrever mudou. Sobretudo, os livros de Fantasia
passaram a dar um grande ênfase às suas personagens e toda a história é
conduzida pelo desenvolvimento delas. Cada vez mais, o "bom" livro
fantástico é aquele que mais e melhor explora os seus protagonistas, mais do
que a história em si.
Ler pela primeira vez Anne McCaffrey, pelo
menos o seu primeiro livro, é voltar atrás no tempo. O livro foi escrito em 1968 e não resistiu à passagem dos anos: as descrições são pouco detalhadas, as personagens abordadas sem grande profundidade e difíceis de simpatizar, a história parece em certos momentos avançar mais rápido do que devia. Este livro é um exemplo perfeito dos hábitos que se deixaram para trás na escrita fantástica. Se não o tivesse encarado como uma espécie de "artefacto histórico" na Literatura Fantástica, teria ficado ainda mais desiludido.
Lessa e F'lar, as personagens principais, são teimosas, obstinadas, mas sobretudo arrogantes, cada um à sua maneira. A persistência é uma qualidade nos heróis, é certo, mas estes são fracos de perspectiva: Lessa, uma rapariga talentosa, pouco se parece preocupar com a desgraça alheia, até daqueles que nenhum mal lhe fizeram, e a sua teimosia nasce de um ponto de vista que não abrange nada para além do seu próprio nariz. Já F'lar é um homem prepotente, que pelo bem dos Dragões e do Ninho (comunidade dos dragões e dos seus cavaleiros) parece capaz de usar e abusar do que for preciso para atingir os seus nobres objectivos. Heróis ou não, eu gosto de encontrar personagens que me façam torcer por elas. Por mim, bem que todos os habitantes de Pern podiam ter morrido com um meteorito em cima.
Dou, contudo, crédito a este casal por, de tão tempestuosos que são, se revelarem certamente um dos pares mais simbólicos que já encontrei na literatura!
Talvez tivesse compreendido melhor as personagens e a sua mentalidade se a autora se tivesse dedicado mais à descrição do seu mundo.
McCaffrey faz um trabalho louvável, impressionante, ao criar de raiz uma organização social em Pern, bem explicada, sendo um dos principais factores que distinguem este mundo de tantos outros. Pern tem uma atmosfera muito própria, evidente na escrita, certamente uma das razões pelas quais é uma série fantástica tão distinta. Mas as paisagens, os hábitos de vida dos seus habitantes, as formas, são praticamente deixadas à mercê da imaginação do leitor... Quis imaginar mais das suas cidades, da sua vegetação, assim como da beleza dos seus dragões, e encontrei muito pouco que me ajudasse.
McCaffrey faz um trabalho louvável, impressionante, ao criar de raiz uma organização social em Pern, bem explicada, sendo um dos principais factores que distinguem este mundo de tantos outros. Pern tem uma atmosfera muito própria, evidente na escrita, certamente uma das razões pelas quais é uma série fantástica tão distinta. Mas as paisagens, os hábitos de vida dos seus habitantes, as formas, são praticamente deixadas à mercê da imaginação do leitor... Quis imaginar mais das suas cidades, da sua vegetação, assim como da beleza dos seus dragões, e encontrei muito pouco que me ajudasse.
Para terminar a minha confusão e irritação com o primeiro volume, exasperei com o hábito das meias palavras. Bem sei que o livro faz parte de uma série com vários volumes, e que é suposto deixar algumas coisas por contar para que fiquemos com curiosidade de ler os restantes livros... Mas o que temos aqui não são meras omissões, são sim frases meias ditas, situações e pensamentos que nunca são desenvolvidos ou explicados, como se o leitor devesse saber de antemão, como se fosse nosso dever adivinhar. Em vez de termos diálogos bem construídos, somos obrigados a adivinhar o que as personagens estão a dizer ou a pensar. Perturba a leitura, confunde, e faz-me questionar se não deveria ter começado por outro livro, cronologicamente anterior a este. É como se McCaffrey "escrevesse para dentro", se é que tal coisa pode existir.
O segundo livro, no meu entender, melhora. Um pouco. Melhora na escrita, melhora no que é a estrutura da leitura, o que é óptimo. Mas a acção é bastante mais lenta. Se no primeiro livro os momentos mais fulcrais da história pareceram passar demasiado depressa, neste segundo volume somos bem capazes de ter de suportar umas quantas páginas até que alguma coisa um pouco mais interessante aconteça. Pode por isso ser um pouco mais aborrecido.
Mas o maior triunfo do segundo livro da trilogia é os seus protagonistas serem muito mais suportáveis! O que não significa que sejam mais simpáticas... Significa sim que exisem novas personagens ainda mais odiáveis. E como se costuma dizer: do mal, o menos.
Mas o maior triunfo do segundo livro da trilogia é os seus protagonistas serem muito mais suportáveis! O que não significa que sejam mais simpáticas... Significa sim que exisem novas personagens ainda mais odiáveis. E como se costuma dizer: do mal, o menos.
F'lar e Lessa continuam teimosos como tudo, e por esta altura já não esperaríamos outra coisa: são as suas pessoas, e ou gostamos ou não. Mas
desta vez vão aparecer vários novos intervenientes que funcionam como antagonistas (para além dos terríveis Fios, cuja falta de inteligência e personalidade os torna uma espécie diferente de inimigo). Estes rivais são mesmo, mesmo detestáveis, com os seus egoístas objectivos, o que faz com que torcemos bastante mais pela vitória de Lessa e
F'la.
A acção, contudo, é de facto bastante mais lenta e creio que pode desagradar alguns leitores. O livro concentra-se mais nas polítics, na idealização de projectos para não só combater os Fios como para fazer evoluir a sociedade de Pern, e por isso as peripécias são bastante menos entusiasmantes. Da minha parte, não tenho qualquer problema com acções lentas, sobretudo se for à custa de um melhoramento na escrita e melhores personagens.
Para finalizar, é neste segundo livro que percebemos a abordagem científica desta série fantástica. O primeiro livro pouco tem de ficção científica, mas este segundo livro (talvez por se alongar um pouco mais) dá espaço para explorar os dragões e como é que eles surgiram (através de cruzamentos genéticos), para além de desenterrar engenhos tecnológicos que, apesar de os nossos protagonistas não compreenderem bem, são utensílios modernos como microscópios, telescópios, telefones e muito mais. É bastante interessante assistir a estas descobertas, que confundem e maravilham os habitantes de Pern, e mais interessante é questionar como é que esta civilização perdeu tanto desse conhecimento avançado (o que de facto incentiva a ler os restantes livros, sobretudo os que abordam o passado mais distante).
A acção, contudo, é de facto bastante mais lenta e creio que pode desagradar alguns leitores. O livro concentra-se mais nas polítics, na idealização de projectos para não só combater os Fios como para fazer evoluir a sociedade de Pern, e por isso as peripécias são bastante menos entusiasmantes. Da minha parte, não tenho qualquer problema com acções lentas, sobretudo se for à custa de um melhoramento na escrita e melhores personagens.
Para finalizar, é neste segundo livro que percebemos a abordagem científica desta série fantástica. O primeiro livro pouco tem de ficção científica, mas este segundo livro (talvez por se alongar um pouco mais) dá espaço para explorar os dragões e como é que eles surgiram (através de cruzamentos genéticos), para além de desenterrar engenhos tecnológicos que, apesar de os nossos protagonistas não compreenderem bem, são utensílios modernos como microscópios, telescópios, telefones e muito mais. É bastante interessante assistir a estas descobertas, que confundem e maravilham os habitantes de Pern, e mais interessante é questionar como é que esta civilização perdeu tanto desse conhecimento avançado (o que de facto incentiva a ler os restantes livros, sobretudo os que abordam o passado mais distante).
Resumindo esta crítica, O Planeta dos Dragões é feito de um ambiente muito único
e que o caracteriza. O que parece ao início banal, normal, não é, e é por isso
que Pern se tornou tão aclamado. Contudo, são livros que ficaram para trás no
tempo pela forma como estão escritos. A falta de descrições com mais detalhe,
as personagens pouco exploradas, fazem de Pern uma saga fantástica
que perdura como um clássico da Fantasia, mas que não perdura ao lado de outros grandes clássicos modernos. Uma boa leitura contudo.
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