Como os meus seguidores sabem, encontro-me de momento a ler a série "O Primeiro Homem de Roma", de Colleen McCullough. Infelizmente, a editora que publicava os livros (Difel) extingiu-se. Como só tinha adquirido o primeiro livro, encaro-me com o problema de ter de encontrar os restantes SEIS livros (sim, vai ser uma bela aventura).
Ora, onde poderia encontrar estes livros já raros? Onde poderia encontrar edições anteriores do livro, talvez usadas, já que é impossível encontrar em qualquer livraria? Alfarrabistas, claro.
Eu cresci em Lisboa e cresci com os livros. A Rota dos Alfarrabistas fez, a partir de certa idade, parte de mim como leitor e como pessoa. Desde o Carmo ao Chiado, passando pelas pequenas e velhas ruas de Lisboa (que ainda hoje vou descobrindo), apaixonei-me pelas casas que não são lojas, são verdadeiras livrarias. Podemos comprar livros numa Fnac, mas numa livraria entramos num mundo cujo sangue são as letras. Os alfarrabistas de Lisboa proporcionaram-me esse prazer.
À medida que fui crescendo não deixei de me embrenhar por Lisboa. Sozinho, acompanhado, a qualquer dia e a qualquer hora, encontrar-me-ão a tentar perder-me numa cidade que já conheço bem. Infelizmente, o prazer de entrar num alfarrabista torna-se cada vez mais raro.
Metade de grandes livrarias desapareceram, levando consigo o que são para nós, leitores, autênticos tesouros. A metade que ainda está activa mal se aguenta, com alguns já a anunciar o para breve encerramento. Fiquei chocado com o número de casas fechadas e ainda mais chocado com o número de livrarias anunciando o seu fim. A justificação é sempre a mesma. Talvez não possa criticar um senhorio por exigir uma renda em atraso... Mas parece que estas exigências calham sempre àqueles que mais necessitam de ajuda e menos têm a quem recorrer. De qualquer forma, dói ver as ruas de uma cidade perderem a sua personalidade. Porque os alfarrabistas também fazem parte do espírito de Lisboa.
Fico mais do que triste. Fico indignado. Não pelos livros que não consigo encontrar, mas pelos leitores que não terão a oportunidade de viver uma Rota que já fazia parte da cultura lisboeta. Sei que isto é um desabafo quase inútil... Mas não quis deixar de relembrar um caminho que certamente encantou muitos mais do que apenas eu. Parece que está na moda desprezar o passado e as lições que ele nos pode oferecer. Talvez um dia se volte a dar valor às palavras eternas numas páginas amareladas.
domingo, 28 de abril de 2013
sábado, 20 de abril de 2013
"O Amor e o Poder", de Colleen McCullough
É dia de Ano Novo de 110 a.C. e assiste-se à tomada de posse dos novos
cônsules, ineptos representantes da aristocracia. Mas no meio da
multidão encontram-se dois homens cuja coragem e poder de visão irão
mudar por completo a República Romana, que se debate com problemas como a
expansão territorial e o ressentimento crescente dos não-cidadãos. Um destes homens é Mário, impossibilitado pelas suas origens humildes de tornar-se o Primeiro Homem de Roma, aquele que, pela sua excelência, se eleva acima dos seus semelhantes. O outro é Sila, um belo e depravado membro da aristocracia, a quem a penúria impede de subir a Via da Honra, direito que lhe pertence devido às suas origens. Juntos pela guerra em terras distantes, combatem os seus inimigos romanos e os inimigos de Roma, pois ser o Primeiro Homem de Roma implica a mestria tanto política como militar.
Cara Colleen, cheguei ao fim do primeiro volume da extensa obra "O Primeiro Homem de Roma", constituída por 7 livros, cada um com 800 ou mais páginas. Confesso que estava à espera de um teste-surpresa no fim do livro. Ainda só li o primeiro livro e tenho a certeza que sei mais de História Romana que um licenciado.
Era mesmo isto que eu andava a precisar: um romance histórico bruto. Já tenho tantas saudades de estudar História!
Para quem não entende nada sobre a República Romana, como eu, as primeiras páginas do livro custam um pouco a avançar. Algumas horas a estudar o glossário que está no fim do livro valem a pena (apesar de ainda recorrer à Wikipedia para alguns pormenores!). Uma vez adquiridas essas bases, 900 páginas passam a correr.
A civilização romana dividiu-se sobretudo em três épocas: a Monarquia (nos seus primórdios), a República e o Império. "O Primeiro Homem de Roma" debruça-se sobre os últimos anos da República. Com o aumento do território romano, os alicerces sob os quais a República foi construída revelavam-se incapazes de responder às necessidades de Roma, conduzindo fatalmente à sua extinção e à instauração de um Império. Colleen debruça-se sobre esses acontecimentos: a corrupção extrema entre os governantes do Senado e a emergência de personalidades que vieram abalar a forma como as coisas eram conduzidas.
Uma dessas pessoas era Caio Mário. De baixo nascimento mas extremamente rico, "O Amor e o Poder" dedica-se ao seu aparecimento e a sua luta em se tornar "O Primeiro Homem de Roma", a pessoa mais respeitada, temida e adorada de Roma.
É um romance cativante. Apesar do tamanho poder assustar, garanto que se revela uma leitura relativamente fluida. Raramente se torna aborrecido, fora as poucas ocasiões em que somos obrigados a percorrer a descrição crua do funcionamento político dos Romanos. Mas as duas coisas mais importantes estão lá: personagens que nos agarram (apesar de nunca sabermos muito bem por que devemos torcer) e uma exactidão histórica admirável (apesar de se dar ao luxo de romantizar um pouco as suas personagens, nunca se parece afastar da História tal qual se deu).
O maior problema é mesmo a sua escrita. Não que seja uma má escritora, apenas foi uma má abordagem. A escrita é demasiadamente descritiva. Demasiado mesmo. Ao ponto de até as cenas de acção não serem narradas, mas sim descritas. Parece-me que a própria Colleen deveria ter aprendido as subtilezas do discurso e da retórica Romana, capaz de encantar milhares.
Confesso que alturas houve em que não percebi mesmo o que se andava a passar. Sobretudo quando um tribuno da plebe (quando lerem saberão) propunha uma lei, era esta discutida no Senado e eventualmente aprovada. Várias vezes não percebi à primeira o que aquilo significava, e ler várias vezes não resolvia o assunto. O melhor era mesmo avançar com a leitura e perceber as consequências.
Preparem-se também para serem bombardeados de personagens. Algumas importantes, outras meras referências, não deixam de ser imensas as famílias romanas e para quem está interessado em absorver este livro pode tornar-se uma tarefa árdua. Nada que um pouco de concentração não resolva.
De qualquer forma, fiquei surpreendido com o quão viciado fiquei na leitura. Quando menos esperava, lá aparecia uma personagem nova para me chamar a atenção ou uma qualquer revolta para me fazer querer avançar páginas para saber como acabaria. E é assim página atrás de página, acompanhando a subida de Caio Mário como Primeiro Homem de Roma.
Por outro lado, quando nos apercebemos da dimensão da saga, percebemos que este livro não é mais do que o início da história (sim, 900 páginas de "introdução"). Estou ansioso por acompanhar o que aí virá.
Em geral, uma obra excelente. Acuidade histórica: máxima. Personagens: dificilmente seria possível sentir-me mais ligado a elas. Sim, cheira-me que se acabar de ler a série concluirei aquilo que parece ser a opinião popular, que é uma das melhores, se não a melhor, série histórica (pelo menos alusiva aos Romanos).
Mas ser a obra histórica mais completa ou desenvolvida não a torna a oitava maravilha.
Mais: anteriormente comprometi-me a ler a saga completa de "As Crónicas de Allaryia", de Filipe Faria. A metade de "Marés Negras", desisti. Aconteceu-me exactamente a mesma coisa que me aconteceu quando li o livro pela primeira vez: aborreci-me. Em vez de insistir, decidi dar um tempo até voltar a pegar nele.
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