Professora numa escola secundária e pública, mãe, com "restos de colecção" ( uma separação recente), a narradora de "Sonheir com António Lobo Antunes", dorida e cheia de coisa miúdas a que acorrer, tem um sonho com um escritor, cuja obra lê com assídua atenção:
António Lobo Antunes.
Esta novela é o relato, minucioso e não menos comovido, desse sonho. Nao "Sonho de uma noite de Verão", mas sonho que a levou a alguns dos lugares do escritor: livrarias, restarurantes, Hospital Miguel Bombarda e outras surpresas...
Quem me acompanha saberá que li, há relativamente pouco tempo, o primeiro livro de António Lobo Antunes, Memória de Elefante. Contrariando as minhas expectativas, adorei o livro e identifiquei-me bastante com o sentimento divagador e melancólico do livro.
Ao surgir Sonhei com António Lobo Antunes, a minha curiosidade disparou. E se pudesse "divagar" lado a lado com Lobo Antunes?
Bem, este sonho é mais uma história de amor que outra coisa. Ainda que extraordinariamente bem construído para se relacionar com as restantes obras de Lobo Antunes.
Já tendo livro Memória de Elefante, posso dizer que a obra de Maria Leiria de Mendonça tem quase tudo daquilo que podemos vislumbrar nas obras do grande escritor: a cidade de Lisboa; o hospital psiquiátrico; um romance fugidio; memórias. A própria vida numa espécie de sonho, que se vai confundindo com a realidade.
Porque não havia de gostar portanto? Gostei, afinal gostei... Mas foi algo inesperado encontrar uma mulher que sonha beijar Lobo Antunes. É sinceramente confuso.
Não é definitivamente o livro que esperava encontrar. Talvez por a personagem de Lobo Antunes estar presente fisicamente. Esperava encontrar um sonho, uma personagem seguindo os mesmos passos de Lobo Antunes mas não propriamente ao lado dele. Esperava encontrar um Lobo Antunes "omnipresente", uma espécie de ser "pairante" mas nunca físico. Algo verdadeiramente divagador. Afinal, é a história de uma mulher que sonha que tem um caso amoroso com o escritor. Ok.
Agradou-me? A princípio fiquei um pouco reticente perante essa história. Mas comecei por aceitar o que escritora queria, e para dizer a verdade agradou-me essa espécie de provocação! (estou muito fã de um livro que provoque o leitor, portanto é uma boa maneira de ver a situação!)
Uma novela que acabou por me agradar até ao fim. Para agrado do leitor, depois das primeiras cenas (inclusive um telefonema, para mim demasiado desconcertante por ser tão íntimo para primeira conversa, mas vamos acreditar que se deveu por ser parte de um sonho) somos galardoados com algumas passagens muito boas. A escrita da autora consegue ser muito agradável. Não segue o estilo de Lobo Antunes, ainda que aqui e ali tente atingir a "poeticidade" do autor (sem o conseguir como poderia). Mas nunca deixa de ser agradável. Para além do mais, quando a autora se dá ao luxo de divagar um bocadinho, de observar, somos agraciados com passagens que depositam um bem-estar em nós. Não é melancólico mas sim agradável.
Não terá grande efeito em quem não gosta da obra literária de Lobo Antunes, mas para aqueles que gostam este parece-me ser um livro interessante. Li "Memória de Elefante" e adorei, pelo que já me considero um fã do autor. Contudo, "Sonhei com António Lobo Antunes" não é o tipo de livro que, como fã dos livros do escritor, gostasse de encontrar inspirado nele. Talvez porque este é o sonho de Maria Leiria de Mendonça, não o meu. Mas foi uma leitura que gostei e que não desperdiçaria.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
Frankenstein - O Filho Pródigo, de Dean Koontz
Cerca de 200 anos depois de ter criado o seu monstro, Victor Frankenstein (agora conhecido como Victor Helios), instalou-se em Nova Orleães. A sua investigação e as suas experiências estão cada vez mais sofisticadas, já não tem de roubar cadáveres em cemitérios para construir as suas criaturas, e desenvolveu uma tecnologia que lhe permite escapar ao envelhecimento. O seu plano consiste em propagar por Nova Orleães espécimes da sua Nova Raça de criaturas perfeitas, destinadas a exterminar e a substituir os «imperfeitos» seres humanos.
A única criatura capaz de travar este plano diabólico é o misterioso Deucalião – o primeiro «monstro» criado por Frankenstein. Aparentemente imortal e indestrutível. Deucalião parece possuir também uma alma e uma consciência quase humanas. Mas será isso suficiente para impedir os planos do deu monstruoso criador?
"Um romance povoado de personagens inesquecíveis, com um enredo muito cativante."
Library Journal
"Este livro restitui o bom nome da literatura de terror."
Booklist
Este tipo de livros carrega sempre consigo uma maldição. Tem como base a ideia de uma obra-prima universal, Frankenstein ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley. Já tive a oportunidade de o ler e não só é dos livros que mais gostei de ler como é facilmente reconhecível a genialidade de uma obra que combina o melhor do "terror clássico" com uma abordagem única (e inimitável, depois de ter sido escrito) da humanidade, da religião e do destino. Inúmeras observações e teses podem ser feitas com esta obra-prima verdadeiramente universal.
Dean Koontz está, portanto, condenado ao tentar abordar a mesma obra de uma perspectiva mais moderna. O resultado parece-me o esperado: um livro entusiasmante, de leitura fácil e que mistura com bastante destreza os elementos de romance, ficção-científica, policial e terror. Mas nunca é tão marcante, especial, como a obra que lhe deu inspiração. Ter uma obra-prima a pairar sobre este livro é mesmo uma maldição.
Não achei que este livro tivesse uma componente tão forte de terror. Os assassínios são verdadeiramente aterradores, mas se tivesse de classificar a obra diria que se trata de Ficção-Científica. As experiências de Victor Helios, as suas ideias e as suas criações (os seres da Nova Raça) são os elementos mais fortes do livro, e sobre as quais paira tudo o resto, inclusive o policial, pelo que eu diria que é uma óptima ideia dentro desse género. Terror... Enfim, não me deixou com os cabelos eriçados. Só isso.
Receio que são esses elementos que fazem deste um livro que me tivesse cativado. Não sou fã de policiais, não me costumam deixar demasiado agarrado à leitura, e se este livro não explorasse tanto (e satisfatoriamente) tantos temas não teria acabado impressionado. Felizmente.
Mas afinal, de que fala este livro? Fala de um homem, Victor Helios, que sonha com um mundo de seres humanos perfeitos, belos e imortais. Ele próprio, com o tempo, se vem aperfeiçoando, e tornando-se cada vez menos humano. Acho extremamente curioso repararmos que, 200 anos depois de ele nos ser apresentado por Mary Shelley, Koontz faz notar que tanto tempo de obsessão tem as suas marcas. A personagem tornou-se tão pouco humana que perde uma complexidade única, que encontramos em Deucalião, o primeiro monstro que Victor criou e que hoje é mais humano do que o próprio criador.
Victor já tem um pequeno exército da Nova Raça e sobre eles se debruçam algumas das várias histórias que acontecem neste livro ao mesmo tempo: a sua mulher, Erika 4, que por conhecer sentimentos para os quais não estava programada pode rapidamente ser substituída pela Erika 5; Randal Seis, uma criação que sofre de autismo e que procura o segredo da felicidade; Roy Pribeaux, um assassino que, à sua maneira, procura a perfeição. E muitos mais, mas que faz parte da surpresa...
Paralelamente, Carson O'Connor é uma detective que se confronta com uma série de estranhos assassínios e tem em casa um irmão mais novo com autismo. O seu passado também é algo conturbado, já que os seus pais, também polícias, estiveram envolvidos numa certa disputa e considerados culpados... Creio que nos próximos livros teremos a oportunidade de saber mais sobre essa história (quem sabe relacionar-se-á com Victor).
Sem dúvida, o leque de personagens que o livro nos oferece é grandioso. São principalmente as criações de Frankenstein que nos oferecem as melhores cenas, a pedir uma boa análise, questionando crenças, sentimentos, tudo aquilo de que afinal é feito o Homem. Bem visto, estas personagens oferecem-nos tudo o que um bom leitor pode querer: uma riqueza no que elas são feitas. Há, inclusive, um par de capítulos que achei verdadeiramente geniais!
Perfeição, ideais, sentimentos e religião, nada é posto de lado no livro. As mentes destas personagens são únicas e, no entanto, são no seu conjunto tudo aquilo que a Humanidade procura em si.
Finalmente, com capítulos muito pequenos (alguns de apenas página e meia), é o que eu chamo de livro escrito "à best-seller": capítulos pequenos, de leitura muito fluída, que nos fazem continuar a ler até praticamente termos acabado, a fazer lembrar todos os livros que estão (ou já estiveram bastante) na moda.
Fico à espera do próximo livro. Não estou a roer as unhas ou intrigado com o que aí virá, apenas com vontade de continuar a ler a história. Ainda que pense ter mostrado que este livro é capaz de levar até ao fim o que propõe abordar, e com bastante sucesso, volto a dizer que, a meu ver, sabe menos a uma grande obra dentro do género e mais a uma história, verdadeiramente interessante. Até lá, tenho tempo para voltar a reflectir em todas estas tão grandes abordagens e vocês têm tempo para ler o livro e julgá-lo também.
"Este livro restitui o bom nome da literatura de terror."
Booklist
Este tipo de livros carrega sempre consigo uma maldição. Tem como base a ideia de uma obra-prima universal, Frankenstein ou o Moderno Prometeu de Mary Shelley. Já tive a oportunidade de o ler e não só é dos livros que mais gostei de ler como é facilmente reconhecível a genialidade de uma obra que combina o melhor do "terror clássico" com uma abordagem única (e inimitável, depois de ter sido escrito) da humanidade, da religião e do destino. Inúmeras observações e teses podem ser feitas com esta obra-prima verdadeiramente universal.
Dean Koontz está, portanto, condenado ao tentar abordar a mesma obra de uma perspectiva mais moderna. O resultado parece-me o esperado: um livro entusiasmante, de leitura fácil e que mistura com bastante destreza os elementos de romance, ficção-científica, policial e terror. Mas nunca é tão marcante, especial, como a obra que lhe deu inspiração. Ter uma obra-prima a pairar sobre este livro é mesmo uma maldição.
Não achei que este livro tivesse uma componente tão forte de terror. Os assassínios são verdadeiramente aterradores, mas se tivesse de classificar a obra diria que se trata de Ficção-Científica. As experiências de Victor Helios, as suas ideias e as suas criações (os seres da Nova Raça) são os elementos mais fortes do livro, e sobre as quais paira tudo o resto, inclusive o policial, pelo que eu diria que é uma óptima ideia dentro desse género. Terror... Enfim, não me deixou com os cabelos eriçados. Só isso.
Receio que são esses elementos que fazem deste um livro que me tivesse cativado. Não sou fã de policiais, não me costumam deixar demasiado agarrado à leitura, e se este livro não explorasse tanto (e satisfatoriamente) tantos temas não teria acabado impressionado. Felizmente.
Mas afinal, de que fala este livro? Fala de um homem, Victor Helios, que sonha com um mundo de seres humanos perfeitos, belos e imortais. Ele próprio, com o tempo, se vem aperfeiçoando, e tornando-se cada vez menos humano. Acho extremamente curioso repararmos que, 200 anos depois de ele nos ser apresentado por Mary Shelley, Koontz faz notar que tanto tempo de obsessão tem as suas marcas. A personagem tornou-se tão pouco humana que perde uma complexidade única, que encontramos em Deucalião, o primeiro monstro que Victor criou e que hoje é mais humano do que o próprio criador.
Victor já tem um pequeno exército da Nova Raça e sobre eles se debruçam algumas das várias histórias que acontecem neste livro ao mesmo tempo: a sua mulher, Erika 4, que por conhecer sentimentos para os quais não estava programada pode rapidamente ser substituída pela Erika 5; Randal Seis, uma criação que sofre de autismo e que procura o segredo da felicidade; Roy Pribeaux, um assassino que, à sua maneira, procura a perfeição. E muitos mais, mas que faz parte da surpresa...
Paralelamente, Carson O'Connor é uma detective que se confronta com uma série de estranhos assassínios e tem em casa um irmão mais novo com autismo. O seu passado também é algo conturbado, já que os seus pais, também polícias, estiveram envolvidos numa certa disputa e considerados culpados... Creio que nos próximos livros teremos a oportunidade de saber mais sobre essa história (quem sabe relacionar-se-á com Victor).
Sem dúvida, o leque de personagens que o livro nos oferece é grandioso. São principalmente as criações de Frankenstein que nos oferecem as melhores cenas, a pedir uma boa análise, questionando crenças, sentimentos, tudo aquilo de que afinal é feito o Homem. Bem visto, estas personagens oferecem-nos tudo o que um bom leitor pode querer: uma riqueza no que elas são feitas. Há, inclusive, um par de capítulos que achei verdadeiramente geniais!
Perfeição, ideais, sentimentos e religião, nada é posto de lado no livro. As mentes destas personagens são únicas e, no entanto, são no seu conjunto tudo aquilo que a Humanidade procura em si.
Finalmente, com capítulos muito pequenos (alguns de apenas página e meia), é o que eu chamo de livro escrito "à best-seller": capítulos pequenos, de leitura muito fluída, que nos fazem continuar a ler até praticamente termos acabado, a fazer lembrar todos os livros que estão (ou já estiveram bastante) na moda.
Fico à espera do próximo livro. Não estou a roer as unhas ou intrigado com o que aí virá, apenas com vontade de continuar a ler a história. Ainda que pense ter mostrado que este livro é capaz de levar até ao fim o que propõe abordar, e com bastante sucesso, volto a dizer que, a meu ver, sabe menos a uma grande obra dentro do género e mais a uma história, verdadeiramente interessante. Até lá, tenho tempo para voltar a reflectir em todas estas tão grandes abordagens e vocês têm tempo para ler o livro e julgá-lo também.
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