segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A Sombra do que Fomos, de Luis Sepúlveda

Luis Sepúlveda regressa ao romance com uma grande homenagem ao idealismo dos perdedores. Num velho armazém de um bairro popular de Santiago do Chile, três sexagenários esperam impacientes pela chegada de um quarto homem. Cacho Salinas, Lolo Garmendia e Lucho Arencibia, antigos militantes de esquerda derrotados pelo golpe de estado de Pinochet e condenados ao exílio, voltam a reunir-se trinta e cinco anos depois, convocados por Pedro Nolasco, um antigo camarada sob cujas ordens vão executar uma arrojada acção revolucionária. Mas quando Nolasco se dirige para o local do encontro é vítima de um golpe cego do destino e morre atingido por um gira-discos que insolitamente é lançado por uma janela, na sequência de uma desavença conjugal... Prémio Primavera de Romance 2009, A Sombra do que Fomos é um virtuoso exercício literário posto ao serviço de uma história carregada de memórias do exílio, de sonhos desfeitos e de ideais destruídos. Um romance escrito com o coração e o estômago, que comove o leitor, lhe arranca sorrisos e até gargalhadas, levando-o no fim a uma reflexão profunda sobre a vida.

Este livro é um hino ao espírito do Chile e do seu povo, que luta pela vida e cuja vida se tornou, reciprocamente, a luta em si.

Pode-se dizer que é uma espécie de policial. No entanto, só podemos dizer isto pela presença de detectives e de uma morte. Na verdade, esta morte tão invulgar é a desculpa perfeita para juntar velhos camaradas e para relembrar o passado.
A sombra do que fomos não é mais do que isso: homens velhos, esquecidos, mas cuja memória é a de guerra, de revolução, de assalto. E é essa sombra, essa faísca, que os faz continuar a viver, e que os dá força para, hoje, darem um último golpe.

Quando digo que este livro é um hino ao espírito revolucionário chileno, não brinco. A conversa entre camaradas vai relembrar datas, assaltos, actos, todo o tipo de feitos que duraram até ao golpe de estado de Pinochet, que resultou com a morte de Allende. Daí para a frente, tudo o que aconteceu de revolta foi como que uma vontade dos perdedores de se reafirmarem, de relembrarem os velhos tempos, porque a sua vida é uma luta.

Sepúlveda sempre foi conhecido pela sua escrita simples, e todavia poética. Este livro apresenta uma escrita simples, muito agradável, o que o torna uma excelente leitura para estes dias tão tristes. É uma escrita que tenta reunir a nostalgia do que já passou, que tenta homenagear a história do Chile. Pelo que, independentemente da nostalgia que se torna muito característica deste livro, estava à espera de encontrar uma poesia que não está lá. No meio de referências a golpes de estado, datas e acontecimentos, pequenas revoltas, exílios, e tudo o mais, Sepúlveda perde um pouco a poesia da sua escrita.
Abdica da sua escrita latina, tão característica, para defender o seu país latino.

Enfim, para mim a escrita do autor prometia mais, e não cumpriu. O que mais rende é o humor (sim, ainda é capaz de nos arrancar alguns sorrisinhos) no meio da conversa nostálgica.

Ainda assim, sem dúvida é uma leitura muito agradável e que recomendo sem grandes reservas. O escritor consegue reunir, brilhantemente, o espírito chileno nas suas palavras, e embora isso vá agradar ainda mais os próprios cidadãos do Chile, a mim impressionou-me na perfeição em dar-me a conhecer a sua própria nação. Recomendo porque merece ser lido um livro que homenageia, tão bem, a luta de qualquer perdedor, a coragem de cada combatente, a vontade de quatro homens que defendem os seus ideais até ao fim da sua vida. É de honrar!

Sem Sangue, de Alessandro Baricco

Quando os seus inimigos finalmente o encontram, Manuel Roca obriga Nina, a sua filha pequena, a meter-se num esconderijo debaixo de um alçapão na despensa, a partir do qual testemunhará o assassinato do seu pai e do seu irmão. Após a matança, Tito, um dos assassinos, encontra o esconderijo de Nina, mas, apiedado da inocência da criança, não diz nada aos seus cúmplices. Décadas mais tarde, Nina é uma intrigante mulher que passeia pela rua quando encontra um já idoso Tito a vender lotaria. Este encontro revelará até que ponto a traumática experiência da sua infância marcou ambas as personagens, e se serão alguma vez capazes de a superar.

Alessandro Baricco nasceu em Turim em 1958. Além de escritor, é crítico musical e director de cinema. Com o seu primeiro romance, Terras de Cristal, ganhou o prémio Médicias Étranger em França e foi finalista do prémio Selezione Campiello em Itália. O seu quarto romance, Seda (1996), best-seller internacional, converteu-o numa das mais interessantes cozes da narrativa contemporânea. Em Sem Sangue (2002), crueldade e veleza misturam-se com um estilo subtil e requintadamente poético. Entre os seus romances encontram-se também títulos como City, Castelos de Raiva, Oceano Mar e Esta História. Destaca-se também a sua obra de teatro Novecentos.

150 páginas. Uma hora de leitura.
Quase findo o ano, tenho de concluir que 2009 deu-me a descobrir grandes obras em tamanho pequeno. Aconteceu com Paixão em Florença. E acontece agora em Sem Sangue exactamente a mesma coisa.

Poucas páginas num livro vêm sempre acompanhadas com críticas que exigem mais. Mais descrição, mais actos, mais. Poucas páginas nunca é suficiente para quem está habituado a longas 600. Enfim, certamente que sofro do mesmo mal. Se há coisa que adoro são longas descrições. Equador, um dos meus livros preferidos deste ano, satisfez-me precisamente nesse aspecto.

Este livro, por ser tão pequeno, quase não nos dá tempo para nos habituarmos à paisagem agreste, às encruzilhadas do Destino, a essa coisa tão profunda e estranha que é a alma humana.
Por ser tão pequeno, este livro pode dar-se ao luxo de ser uma longa reflexão, sem paragens, sobre tudo isso.

Não é a primeira vez que pego no livro. Já há algum tempo peguei nele e tentei ir até ao fim. A verdade é que não me estava a chamar a atenção. Parecia-me o tipo de livro que se lia e, quando se chegasse ao fim, acabava. Tão simples quanto isso. E "simples" era tudo menos o que se dizia ser o livro. Daí que o tenha posto de lado, sem o acabar, e decidido agora começá-lo de novo. Foi a melhor coisa que fiz, porque esta "releitura" fez-me prestar atenção aos pormenores que antes não quis ver.

Embora seja uma obra pequena, não acho que seja fácil. Acho até que é um pouco difícil de descortinar. A menos que se queira realmente dedicar ao romance, será difícil sairmos agradados de uma obra que exige atenção, exige vontade de ler o que quer que venha aí. Não vale a pena irmos com expectativas para este romance, apenas preparados para reflectir sobre qualquer coisa.

A obra está dividida em duas partes. A primeira, na quinta de Mato Rujo, onde se testemunha um horrível massacre e do qual sobrevive uma criança. Nunca ninguém soube dessa criança. Apenas um cúmplice, um dos assassinos, descobriu a menina escondida no alçapão da casa. E nada contou.
A segunda parte passa-se muitas décadas depois, quando encontramos a menina já velha, aliás não menina mas uma mulher, e é ao encontrar o rapaz, já idoso, que não a denunciou que nos vamos aperceber do quão intrigante esta mulher se tornou. E é quando estes dois cúmplices da Vida e do Destino conversam que vamos poder dar um olhar pelo que realmente significa viver, por esse estranho lago que é a alma humana, de tão estranha e simbólica se torna nas mãos do Destino, nas mãos de algo que começa desde a inocência da infância. E assim conversam, e assim descobrem a inevitabilidade, a crueldade já esquecida, uma verdade que ninguém descobre por ninguém conseguir sequer descobrir totalmente as razões da própria alma.

É isso mesmo que encontrei neste livro: para além de um confronto entre duas personagens, que nunca se separaram a partir do momento em que se encontraram, décadas atrás, um confronto com a verdade incontestável das nossas próprias jornadas. Até que ponto não estamos agarrados ao que vivemos no passado? Até que ponto o nosso Destino não é, simultaneamente, o Destino de outra pessoa? Acima de tudo, o que nos leva a agir? O que nos leva a ser quem somos? É a guerra, dizem uns. Neste caso, a guerra já tinha terminado. Pomos então a questão: até que ponto a guerra terminou? Tratam-se de questões que este livro coloca e responde, de uma forma muito peculiar: sendo impossível dar uma resposta directa, temos de ler essa resposta pela vida de cada um. Desde o irmão que morreu à sua frente, ou o pai, até ao grito de guerra que ouvimos à nossa volta mas que seguimos por cegueira, porque assim aprendemos e não sabemos mais. São fantasmas que nos perseguem. Não podemos eliminá-los, porque os vivemos.
Ainda assim, aqui ninguém é especial. Cada um é quem é, e não há mais ou menos importantes.

O encontro entre Nina e Tito servirá para descobrir isso. Eu considero impressionante a maneira como Baricco vai justificar tanta coisa, apenas através da descrição da vida de cada um, dos actos que viveram. É este tipo de livros que gosto. Sem respostas directas, mas subentendidas, desenvolvidas através da experiência de cada um.

É assim a escrita do autor, bastante poética mas crua, muitas vezes violenta e melancólica, até nostálgica. Acima de tudo, crua no seu sentido mais amplo.

Leitura obrigatória. Releitura obrigatória. Re-releitura obrigatória. Este é um daqueles livros que não vamos conseguir evitar reler, para voltar a absorver tudo. Numa palavra, excepcional. Não preciso que acrescentem mais páginas, foi magnífico. Não critiquem negativamente um livro que reúne um homem a vender lotaria com a vida de duas pessoas. Aí está o impressionante do livro: é preciso relermos para nos apercebermos de que a simples menção da palavra "lotaria" tem um significado enorme, que uma única palavra num livro de apenas 150 páginas é tudo, mesmo que escrita apenas uma vez. Não há muitos acasos, se está ali é por algum propósito, por alguma causa. Deixem-se levar, mas com muita atenção para não acabarem de mãos vazias, por essa reflexão, por esse confronto, porque vale a pena.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Black Out - A Cortina da Memória, de Lisa Unger

«Black Out - A Cortina da Memória está destinado a ser um êxito. Um thriller cheio de reviravoltas. Agarre-se bem, é uma viagem assustadora!» - Bookreporter

Num primeiro olhar, a vida de Annie Power parece feliz, quase idílica. Vive num bairro rico, na Florida, com um marido que a adora, Gray, e uma filha ainda pequena, Victory. Mas, subitamente, os demónios de um passado que Annie preferia a todo o custo esquecer começam a rondá-la, a martirizá-la, trazendo-lhe memórias de alguém que ela foi um dia. Annie vê-se envolta numa espiral ascendente de puro terror à medida que as ameaças vão assumindo contornos mais perversos e que luta desesperadamente por recuperar as memórias malditas que poderão ser a única forma de se defender a si mesma e a Victory. Afinal, Marlowe Geary, o serial killer que conheceu anos antes, pode não ter morrido, como Annie sempre pensara, e pode, na verdade, estar de volta, a um passo de aniquilá-la. Um thriller de altíssima voltagem que nos faz sentir, literalmente, no fio da navalha.

Como alguns saberão, não sou fã de policiais.
Arranjo muitas justificações para tal. Eu adoro o enredo de uma história e adoro sentir-me ligado às personagens. Acima de tudo, adoro quando essas personagens se ligam entre si, quando há aquele sentimentalismo todo, e quando roemos as unhas para que haja justiça e todos se encontrem no fim, finalmente, merecidamente. Se não, gosto de verter aquelas lágrimas de emoção.
Este tipo de sentimentalismo não é, na maior parte dos policiais, característico. Temos várias personagens, sim, uma data de ligações entre elas, mas no fim tudo isso tem de ir dar ao culpado da cena. Perde-se o desenvolvimento das personagens em si para nos concentrarmos nas relações entre elas. É por isso que acho muito mais emocionante um livro que não um policial.

Encontro-me, desta vez, a ler um thriller policial. Um em que temos a vítima, Annie Powers, que vive uma vida luxuosa, mas que é uma farsa: o seu verdadeiro nome é Ophelia March, e viveu uma juventude traumatizante, ao lado de um assassino em série. Entretanto, Marlowe, o assassino, morreu, e Ophelia foi dada como morta para que pudesse assumir uma outra identidade. Para que pudesse começar uma nova vida.

Mas isso é possível? É possível começar uma nova vida, no meio da nossa vida? Ou o passado e o futuro não são mais do que dois momentos embrulhados dentro do mesmo saco que é o Tempo, e que portanto se confrontam constantemente?

O problema é que Annie sofre de um distúrbio mental, pelo que o seu passado é recheado de black outs - fugas de memória. Muito do que ela viveu está escondido no seu subconsciente.
Até que, agora casada com o homem que a salvou e com uma filha, depara-se com várias pistas que lhe parecem indicar que Marlowe não está, como todos lhe garantem, morto! Pior que isso, até que ponto se encontra ela mentalmente doente, e até que ponto pode confiar nos seus olhos, nos seus movimentos - ou mesmo nas pessoas que a rodeiam?

Assim começa o nosso livro, que é fortemente aplaudido pela crítica devido à sua escrita de grande qualidade, mas ligeiramente visto como confuso e com um enredo que nos deixa desorientados, por fim.

Eu tenho a dizer que este livro me levou aos mais altos níveis de voltagem, como bem diz a Presença. Desde a primeira página que fui apanhado por um vórtice de mistério, de suspeitas, que me fez ficar frenético durante toda a leitura. Se dizia que não gostava de policiais, vou ter de reconsiderar essa observação depois de ler este livro de Unger.

Capítulo a capítulo, a autora vai alternando do passado para o presente para o futuro, revelando-nos a vida de Ophelia March aos poucos e poucos e avançando na busca de Annie Powers em função dessa descoberta do passado. É nesta alternância que encontramos uma escrita da mais alta qualidade, que agarra o leitor desde a primeira frase e que transmite no ponto o que nos quer dar: emoção, frenesim, adrenalina, excitação. Sem dúvida, Lisa Unger tem o dom da escrita, e isso é fabuloso de se encontrar num thriller como este. Torna a leitura totalmente arrebatadora.

O facto da autora alternar os vários momentos temporais não é a parte confusa. Pelo contrário, torna o livro apelativo e dá-nos vontade de querer continuar cada busca.

A parte confusa entra quando a premissa do livro se torna mais do que apenas a suspeita do regresso do serial killer. Afinal, todos estão envolvidos na troca de identidade de Ophelia, desde o marido aos sogros. Até que ponto os black outs de Annie escondem a verdade que os próprios envolvidos escondem dela? Quando damos por nós, estamos agarrados a uma história onde as aparências enganam, ninguém se esquece e a realidade se confunde com a ficção que a mente de Annie cria.
Reviravoltas atrás de reviravoltas. Este livro surpreende-nos totalmente, quando pensamos que as coisas não podiam ser mais do que aquilo. Até à última página, somos confrontados com verdades que até ali tinham sido mentiras, e depois com mentiras que até ali tinham sido verdades, e o choque é ainda maior quando nos apercebemos que não podemos confiar em ninguém - e que o problema de Annie não é a vida de Marlowe, mas a sua vida.

Portanto, chegamos ao fim e há a ligeira sensação de que certos acontecimentos que se pensava ser imaginação de Annie foram de facto reais, mas por outro lado não temos essa segurança. Sinceramente, acho que quem se sentiu confuso no final não leu bem. Eu fiquei suficientemente elucidado com a verdade dos factos, com o verdadeiro papel de todas as personagens, com o verdadeiro desenlace. Se houve quem ficasse confuso ao chegar ao fim do livro, então não leu o que devia, e tornou-se a própria Annie nas primeiras páginas.
Depois de tantas surpresas, não podia ter acabado de outra maneira, e tem o final merecido! Depois de uma leitura de tão alta tensão, fecha-se o livro totalmente satisfeito.

É mais do que a melhor leitura para quem gosta de suspense. Aliado a uma escrita fenomenal, encontramos um enredo de tal maneira intrincado que só uma boa escritora poderia tê-lo feito com sucesso, e isso acontece aqui. Fiquei impressionado com a qualidade de escrita demonstrada. Isto, sim é um romance psicológico deveras bem escrito!!!
Adorei o livro e custou-me pô-lo de lado até acabar. Supera as expectativas que referi de um policial: mais do que um enredo bem construído, não se limita a apenas uma premissa e desenvolve as suas personagens, quer Annie ou Ophelia quer quem foi envolvido nesta dupla vida. Assim como poucos livros conseguem manter um nível de suspense constante, também poucos conseguem desenvolver como este as suas personagens.

Em jeito de conclusão: tudo aquilo que acho que Lisa Unger quis escrever, quis desenvolver, fê-lo com imenso sucesso. Aconselho vivamente esta leitura. Para nos surpreender.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Para todos os leitores...


UM EXCELENTE NATAL!!!!!!

E aquele livro que o Pai Natal tem na mão... Será de certeza para um de vós ;)



Desejo a todos um Bom Natal, Boas Festas, com prendas e muitos livros e leituras à mistura! Celebrem a época.

sábado, 19 de dezembro de 2009

O Bobo, de Christopher Moore

Verdadeiras são as palavras de Christopher Moore, mui amado escrivão e jogral literário sem igual, criador de obras de superior inteligência e indescritível hilaridade, incluindo os bestsellers laureados pelo Times da Velha Nova Iorque como Minha Besta (sem ofensa!) e que agora decide encarnar, nem mais nem menos, que o lendário Bardo (com a maior humildade e respeito). Uma história perversa, de uma comicidade insana, sobre um monarca apalermado e as suas duas filhas traiçoeiras. Uma intensa narrativa repleta de conspirações, sub-conspirações e contra-conspirações, traições, guerra, vingança, mamas ao léu, luxúria incontida... e um fantasma (há sempre o raio de um fantasma!), vista pelos olhos de um homem de coquilha e guizos na cabeça.

"[Os seus livros] combinam habilmente o surreal, o oculto e até episódios de ficção científica com uma hilariante sátira à cultura contemporânea."

Washington Post Book World

"[Moore é] absurdo, carinhosamente absurdo, embora a doçura incutida nas suas histórias jamais lhes comprometa o humor."
Daily News (New York)



Entretenimento.
Christopher Moore é isso mesmo.
Sou sincero, depois de ler "O Bobo" e "Guia Prático Para Cuidar de Demónios", ainda não apanhei bem o estilo satírico do autor. Talvez precise de reler as obras com outros olhos.
Mas de uma coisa sei: este livro é divertido pra caraças!

Serve de ideia base a peça trágica "Rei Lear", de William Shakespeare.
O que faz Moore?
Transforma-a num romance hilariante, cheio de tramas e personagens e que só paramos de ler quando nos fartamos, o que raramente acontece!
Lear, as suas três filhas (Goneril, Regan e Cordélia), os maridos das filhas (Albany, Cornualha e França), os amigos do rei (Gloucester e Kent), os filhos de Gloucester (Edgar e Edmund), o bobo Pocket e o seu ajudante (Drool), os guardas, os cavaleiros, as cozinheiras, as empregadas, as lavadeiras, as freiras, a ermitã, as bruxas, as putas (sem ofensa), os cavalos, os cães, os gatos, e o raio do fantasma!!!!!!
Sim, é uma autêntica salganhada de personagens.
Agora imaginem quando entre elas se desenvolve pelo menos duas intrigas, conspirações e algumas cópulas...

Sim, dá um livro a princípio confuso de tanta coisa que para aqui vai, mas que se vai tornando cada vez mais cativante à medida que avança.

Christopher Moore esmerou-se neste livro. Enquanto que "Guia Prático para Cuidar de Demónios" é um livro divertido, que sabe a um filme em família domingo à tarde, "O Bobo" almeja altos níveis com muitas mais personagens. Todas elas umas porcas.

Mas não levemos isso dessa forma. Porque Moore não fez mais do que contar a história de Shakespeare, mas um pouco mais actualizada, e BASTANTE mais cómica. E assim é este livro: uma brincadeira que se torna num excelente entretenimento e que leva o leitor a divertir-se tanto que chegamos a confundi-lo com uma obra verdadeiramente original. E, convenhamos, não chega a tanto.

Diverti-me com este livro, muito. Adorei as personagens. Tem um começo confuso, com a apresentação de demasiados intervenientes, mas vai-se tornando bastante claro com o avançar da tramóia. É uma história bastante perversa, sim... Com um vocabulário pouco educado e algumas cenas de sexo ímpares.
Mas é um coma.

É bom ver que Christopher continua divertido, continua cativante, e que planeia explorar um pouco mais as suas capacidades. E nada mais se pode esperar deste autor do que puro entretenimento literário.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Melodia do Adeus, de Nicholas Sparks

Com apenas dezassete anos, Veronica Miller - ou "Ronnie", como é carinhosamente chamada - vê a sua vida virada do avesso quando o casamento dos pais chega ao fim e o pai se muda da cidade de Nova Iorque, onde vivem, para Wrightsville Beach, uma pequena cidade costeira na Carolina do Norte. Três anos não são suficientes para apaziguar o seu ressentimento, e quando passa um Verão na companhia do pai, Ronnie rejeita com rebeldia todas as tentativas de aproximação, ameaçando antecipar o seu regresso a Nova Iorque. Mas será na tranquilidade que envolve o correr dos dias em Wrightsville Beach que Ronnie irá descobrir a beleza do primeiro amor, quando conhece Will, e vai afrouxando, uma a uma, todas as suas defesas, deixando-se tomar por uma paixão irrefreável e de efeitos devastadores. Nicholas Sparks é, como sabemos, um mestre da moderna trama amorosa, e, em A Melodia do Adeus, usa de extrema sensibilidade para abordar a força e a vulnerabilidade que envolvem o primeiro encontro com o amor e o seu imenso poder para ferir… e curar.

Antes de mais... Peço desculpa por andar tão desaparecido.
Ultimamente, pelo que se pode dizer da minha vida fora destas andanças, as coisas andam a correr e roubam o tempo todo. Portanto, se tive 2 segundos para ler, para escrever alguma coisa, para visitar blogues ou fóruns... Esses 2 segundos desapareceram.
Mas creio que, de hoje em diante, vou ter uns dias de descanso, pelo que estou de volta, pode-se dizer!

E, ao voltar, trago uma opinião: o meu primeiro livro de Nicholas Sparks!

Gostei? Não gostei? Digamos que me emocionei com a história (sim, têm razão os restantes leitores, com Nicholas Sparks desde a primeira página que somos confrontados com uma história acompanhada com as suas lágrimas...). E adorei as personagens. Já a escrita de Sparks não é o meu estilo.

Este romance tem potencial. Este romance tem qualidade. Este romance tem personagens pelas quais nos apaixonamos em três tempos. Já percebi que essa é uma das qualidades do autor, e louvo-o por isso. Nem digo que a história seja o mais original possível (há histórias de amor bem mais vividas, bem mais entusiastas), mas não deixa de ser uma história que queremos acompanhar durante muito tempo.
Porque sentimo-nos bem ali dentro. Sentimo-nos bem naquela comunidade que Nicholas nos apresenta. Nem se torna cansativo nem nos põe de lado. Identificarmo-nos com as personagens e reflectirmos com elas é o objectivo deste livro. É estarmos ali.

Talvez por isso mesmo não tenha apreciado totalmente a escrita do autor. Este livro está feito para deixar o leitor à vontade: de uma maneira que faz com que a sua escrita perca um bocado a "qualidade" que muitos críticos não condenariam, caso contrário. Se a escrita de Sparks fosse mais profunda, menos ingénua, mais "literária", por assim dizer, eu teria apreciado este livro ao máximo. Reconheço, porém, que este é um gosto pessoal, mas que não deixarei de apontar como uma fraqueza neste livro. Embora a história seja encantadora e as personagens perfeitas, nunca a escrita atingiu níveis que um outro génio conseguiria, com as mesmas bases. É pena, porque a descrição perfeita neste mundo de "A Melodia do Adeus" tornaria este livro uma obra-prima.

Não achei imprevisível. Já suspeitava o que iria acontecer a Ronnie, ao seu pai, a Will... Mas se há coisa que desde sempre me invadiu foi "Ronnie e Will ficarão juntos?". Foi a única coisa do livro que achei imprevisível, porque este autor aproveita muitas vezes a tragicidade do momento para nos emocionar.
E, por isso mesmo... É um livro a considerar para ler. Foi o primeiro que li de Nicholas Sparks e estou com curiosidade por saber até que nível mantém os restantes romances.
Não se arrependerão, tenho a certeza. É o livro que vão querer para se emocionarem... Sem grandes obras. Não, nada disso. O tipo de livro para pegar quando queremos algo menos grandioso, mas que nos arranque alguns suspiros. Um bom livro, portanto, não obstante os vossos gostos pessoais. Consegue agarrar cada um.

Quem também lê